Apresentamos a singela biografia de Dr. Paulo Bezerra Balá, um influente fazendeiro, político, médico radiologista, e prolífico escritor da região do Seridó, no Rio Grande do Norte. O nosso texto tenta documentar sua vida (1933–2017), mencionando sua família, ascendência, e sua carreira como professor da UFRN, vice-prefeito de Acari, e fundador do Instituto de Radiologia do RN. A maior parte da análise sob exame foca em seu legado literário, detalhando seus cinco livros publicados—que priorizam o sertanismo e o regionalismo — e que, oportunamente, evidencia sua importância para a literatura brasileira, sendo tema de estudo universitário e membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras.
A história do Seridó potiguar é feita de homens e mulheres que, com a força do trabalho e o vigor da palavra, souberam selar seu nome na memória de um povo. Entre esses vultos, destaca-se a figura de Paulo Bezerra Balá, médico, intelectual, político, poeta e memorialista, cuja vida se tornou uma ponte entre o passado e o futuro, entre a tradição sertaneja e a modernidade.
Nascido em Acari, em julho de 1933, e falecido no mesmo mês em 2017, Paulo Balá foi herdeiro de uma genealogia robusta, marcada pela honra e pela influência dos Bezerra Galvão e dos Pereira de Araújo.
Filho de Silvino Adonias Bezerra (1891–1959), conhecido popularmente como Silvino Balá, e de Maria Jesus Bezerra (1896–1964), herdava uma linhagem marcada por nomes de relevo na história regional. Entre seus ascendentes destacava-se Félix de Araújo Pereira Filho (1862–1937) — o célebre Félix da Pendanga, também lembrado pelo apelido pitoresco de Félix Maranganha, imortalizado na expressão “quando não morde, abocanha” — e sua esposa, Maria Getúlia Bezerra de Araújo (1863–1940).
Pela linha dos bisavós, encontrava-se ainda a figura de Félix de Araújo Pereira (1818–1905), conhecido como Félix dos Garrotes, casado com Maria Susana da Anunciação (1822–1877). Na mesma tessitura genealógica, figuravam o coronel Silvino Bezerra de Araújo Galvão (1836–1921) e sua consorte, Maria Febrônia Lopes Galvão (1838–1908), personalidades que, com sua presença marcante, consolidaram a memória e a tradição de uma família que se projetou para além de seu tempo, inscrevendo-se de forma indelével na história do Seridó.
Essa genealogia não se reduzia a uma sucessão de nomes: representava a permanência de valores, tradições e modos de ser sertanejos que se refletiriam no caráter e na obra de Paulo Balá. Em 1963, uniu-se em matrimônio a Zélia de Araújo, companheira de vida e guardiã de sua memória, com quem teve quatro filhos, perpetuando a linhagem e mantendo vivas as raízes familiares.
Entre as muitas atividades que desempenhou, Paulo Balá nunca deixou de ser um homem do campo, ligado visceralmente à terra. A Fazenda Pinturas, em Acari, herança de seus ancestrais, foi mais que um espaço de produção: era um território simbólico, cenário de memórias e de continuidade histórica. Ali, entre o gado, a caatinga e os ventos do Seridó, ele preservava o vínculo com a tradição vaqueira que moldou gerações.
Essa vivência do sertão não era apenas prática, mas também poética e intelectual. Como sertanista, soube traduzir em palavras a dureza e a beleza da vida no semiárido, revelando o quanto o Seridó é, ao mesmo tempo, espaço de luta e de resistência, mas também de afetos, fé e pertencimento.
Formado em Medicina, Paulo Balá se notabilizou como radiologista, fundando o Instituto de Radiologia do Rio Grande do Norte, instituição que conquistou prestígio em todo o Estado potiguar. Sua competência levou-o a integrar o Colégio Brasileiro de Radiologia e a Academia de Medicina do RN, além de atuar como professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, onde formou e inspirou gerações de médicos.
No exercício da profissão, unia rigor científico à sensibilidade humana, reconhecendo no paciente não apenas um corpo a ser tratado, mas uma vida a ser respeitada. Esse olhar humanizado revela a coerência entre o médico e o escritor: ambos atentos à profundidade da condição humana.
Sua trajetória também alcançou a esfera pública. Foi vice-prefeito de Acari e, entre 1996 e 2000, assumindo interinamente o cargo de prefeito em diversas ocasiões. Nesse período, destacou-se pela postura conciliadora, conquistando o respeito de adversários e aliados. Sua política não era movida por ambições pessoais, mas pelo compromisso com a comunidade e pelo desejo de servir à terra natal.
Entretanto, é na literatura e na memória que reside o maior legado de Paulo Bezerra Balá. Poeta, folclorista, genealogista, historiador e, sobretudo, memorialista. Seu estilo literário é marcado pelo sertanismo e regionalismo, trazendo à tona as vozes da terra, os costumes, as tradições e os dramas da vida sertaneja. Como observou o poeta Carlos Newton Júnior, suas obras compõem uma das mais importantes expressões da literatura memorialística não apenas do Rio Grande do Norte, mas do Brasil.
Entre 2000 e 2013, publicou cinco livros, cada qual prefaciado e comentado por figuras de relevo intelectual, como Woden Coutinho Madruga, Luís Carlos Guimarães, Osvaldo Lamartine de Faria, Vicente Serejo, Jessier Quirino, Sanderson Negreiros, Padre João Medeiros Filho e Frederico Pernambucano de Melo.
Em 2011, veio à luz a coletânea poética Rimas e outros versos vagabundos, que ampliou a percepção de sua sensibilidade literária. Seu último livro foi publicado sob a regência de sua esposa e filhos, num gesto que uniu família e memória em torno da perpetuação de sua obra. Destarte, a importância de Paulo Balá foi reconhecida pela Academia Norte-rio-grandense de Letras, onde foi eleito imortal e ocupou a cadeira 12, sucedendo Osvaldo Lamartine de Faria.
Não bastasse a palavra, Paulo Balá também utilizou a fotografia como instrumento de preservação histórica. Reuniu e expôs imagens antigas, como na mostra realizada no Museu Histórico de Acari em 1995, durante a tradicional festa de agosto. Para ele, a fotografia era mais que documento: era extensão da escrita, elo vivo com o passado, capaz de ilustrar e enriquecer a narrativa memorialística.
Portanto, a vida de Paulo Bezerra Balá sintetiza o encontro entre tradição e modernidade, entre ciência e cultura, entre a vivência do sertão e a universalidade da palavra escrita. Médico respeitado, político conciliador, fazendeiro tradicional ligado à terra, mas, sobretudo, intelectual comprometido com a preservação da memória, ele deixou um legado que ultrapassa fronteiras geográficas e temporais.
Sua obra literária e saudosista, estudada em universidades e comparada a nomes como José Lins do Rego, coloca o Seridó em diálogo com a literatura brasileira, reafirmando que a riqueza de uma região está na força de seus intérpretes. Paulo Balá permanece como um símbolo da identidade seridoense, exemplo de como a escrita pode eternizar vidas, resguardar tradições e inspirar novas gerações.
Seu nome, inscrito na história e na memória do povo, ecoa como testemunho da vitalidade cultural do sertão, lembrando-nos que o homem pode se tornar imortal não apenas pela duração da vida, mas pela permanência de sua obra. E assim, neste ato de reverência e gratidão, podemos dizer que o doutor Paulo Balá permanece vivo – não na cronologia dos dias, mas na eternidade da memória.
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