A Mina Brejuí, situada no município de Currais Novos, no interior do Rio Grande do Norte, apresenta-se como um espaço onde o passado e o presente se entrelaçam de forma singular, revelando não apenas a história da mineração no Seridó, mas também a memória viva de uma comunidade moldada pelo trabalho, pelas relações familiares e pela permanência no território.
O acesso ao complexo se dá pela rodovia BR-427, e já à entrada o visitante é confrontado com marcas materiais de sua trajetória histórica. Palmeiras alinhadas, antigos carros de mineração expostos como testemunhos silenciosos do labor subterrâneo e, entre eles, um vagão que abriga uma grande pedra, erguida quase como um monumento à vocação mineral do lugar.
Esse cenário inicial conduz a um povoado cuja organização urbana e arquitetura refletem o projeto social associado à mina, concebida e desenvolvida sob as lideranças do Dr. Sílvio Bezerra de Melo (1908-1977), e a do pai Dr. Tomás Salustino Gomes de Melo (1890-1963), este último cuja memória permanece inscrita em uma placa e em um busto localizados na praça central.
O povoado da Mina Brejuí revela uma notável homogeneidade arquitetônica. As casas seguem um mesmo padrão construtivo, com fachadas semelhantes, portas em arco e disposição regular ao longo de ruas paralelas, cortadas ao centro por fileiras de postes.
Essa uniformidade confere ao conjunto um caráter quase cenográfico, próprio das vilas operárias do início e meados do século XX, onde o espaço habitado refletia a organização do trabalho e da vida comunitária. Destaca-se ainda a presença de capela de Santa Tereza d'Ávila de torre elevada, descrita como de altura impressionante, coroada por um relógio hoje parado, símbolo eloquente de um tempo que parece suspenso, mas não encerrado.
A infraestrutura comunitária inclui também uma caixa d’água de grandes proporções, áreas ajardinadas com vegetação típica, como figueiras e plantas conhecidas localmente, além da praça que articula a vida social do povoado.
Apesar da atmosfera histórica, a Mina Brejuí não se configura como um espaço fossilizado no passado. Pelo contrário, sinais inequívocos de atividade contemporânea se impõem à observação. Uma placa indica o horário diário de detonação no interior da mina, entre 15h30 e 16h30, confirmando a continuidade da exploração mineral.
Máquinas são vistas em operação na encosta da serra, e o fluxo cotidiano de trabalhadores evidencia que a mina permanece como um importante polo econômico regional.
Ônibus partem diariamente de Currais Novos, transportando trabalhadores, enquanto outros chegam em motocicletas. A rotina segue um ritmo disciplinado, o almoço ao meio-dia, o retorno imediato às atividades e a entrada constante de operários no subsolo, onde o trabalho persiste como herança e sustento de gerações.
É nesse contexto que a conversa com um morador antigo do povoado adquire centralidade historiográfica, transformando a visita em um exercício de escuta da memória oral.
Trata-se de um senhor que trabalhou durante muitos anos na Fazenda Barra Verde, propriedade vinculada à mesma estrutura empresarial da mina e igualmente associada a Tomás Salustino. Sua função principal era no campo, lidando com o gado, cuidando do curral, cortando ração, moendo e alimentando os animais.
Foi nessa fazenda que criou seus seis filhos, estabelecendo ali uma vida familiar profundamente entrelaçada ao universo do trabalho rural e minerador. Há mais de vinte anos, reside em uma das casas do povoado da Mina Brejuí, de onde observa as continuidades e transformações da região.
Seu relato revela um conhecimento minucioso da geografia humana do Seridó, transitando com naturalidade por localidades como o Sítio Tigre, Talhado, Acauã, Bulhões etc.
A Fazenda Barra Verde, segundo explica, mantém hoje também uma função turística, permitindo o acesso a uma atração natural conhecida como “os Apertados”. Os visitantes atravessam o portão da fazenda por uma estrada aberta ao público e, ao chegar ao destino, contribuem com uma taxa para conhecer o local, evidenciando a ressignificação contemporânea de espaços outrora dedicados exclusivamente à produção agropecuária.
A conversa ganha densidade ao revelar conexões profundas entre a história da mina e a trajetória familiar do próprio interlocutor visitante, que passa a reconhecer vínculos até então dispersos.
Seus avós, Manoel Gregório e Mariinha Gregório — também conhecida como Maria Rosalina de Medeiros —, integram esse conjuto social. Mariinha Gregório nasceu em 1902, em Coronel Ezequiel, quando a localidade ainda era chamada de Melão.
Outros membros da família, como Zé Gregório, eram conhecidos do morador, o que reforça a presença duradoura dessa linhagem na região. A mãe do visitante Adailton Medeiros, atualmente com noventa anos e ainda viva, nasceu e se criou no Sítio Tigre, carregando consigo memórias do cotidiano seridoense, como as idas ao Olho d’água da Acauã para lavar roupas, prática compartilhada com tias e outras mulheres da comunidade.
Os laços familiares com a mineração tornam-se ainda mais evidentes ao se mencionar parentes que trabalharam diretamente na Mina Brejuí. Seu, Luís Apolônio dos Santos, natural da Paraíba, dedicou quinze anos de sua vida ao trabalho no subsolo, atuando como marteleiro, função árdua que lhe garantiu a aposentadoria.
Outro personagem central é Tomás dos Gregório, referido como 'Tio Tomás', que exerceu o cargo de chefe na mina e faleceu cerca de três meses antes do registro dessa conversa. Residia em Currais Novos, e seu filho mantém atualmente uma loja na cidade, especializada em produtos para piscinas e tintas, sinalizando a continuidade da inserção econômica da família no espaço urbano local.
Ao longo do diálogo, emergem ainda referências a outras figuras da região, como Adalberto Braz, natural de Acari e já falecido, seu pai, conhecido como “seu Zé BraZ”, e Gustavo, filho de Adalberto, proprietário de terras na área. Essas menções delineiam uma rede de relações baseada no trabalho, na vizinhança e no parentesco, típica de uma sociedade rural e operária em que a mina e as grandes fazendas funcionavam como eixos estruturantes da vida social e econômica.
Lugares como o Talhado, descrito como terra grande e fértil, onde o morador da mina Brejuí viveu antes de se mudar para a Barra Verde, compõem esse mapa afetivo que articula espaço, memória e identidade.
Desse modo, a Mina Brejuí se revela não apenas como um empreendimento mineral fundado por Tomás Salustino, mas como um verdadeiro núcleo de memória coletiva, onde arquitetura, trabalho e tradição oral se entrelaçam.
O povoado, as fazendas associadas, os caminhos percorridos diariamente pelos trabalhadores e as histórias transmitidas de geração em geração constituem um patrimônio imaterial de grande valor historiográfico.
A visita documentada de Adailton do Sertão e a escuta atenta do morador antigo demonstram que a história da Mina Brejuí permanece em construção, sustentada tanto pela continuidade da atividade econômica quanto pela permanência das lembranças que dão sentido humano ao espaço e à paisagem do Seridó.
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