A trajetória de Monsenhor Walfredo Dantas Gurgel (1908-1971) inscreve-se como uma das mais singulares e coerentes da história política e religiosa do Rio Grande do Norte, marcada por uma rara convergência entre fé, serviço público e firmeza de princípios.
Sua entrada na vida política ocorreu num momento de intensa reconfiguração institucional do país, logo após o colapso do Estado Novo e a redemocratização iniciada em 1945, quando a queda de Getúlio Vargas e a eleição de Eurico Gaspar Dutra abriram espaço para o surgimento de novas forças partidárias, como o Partido Social Democrático e a União Democrática Nacional.
Foi nesse ambiente de expectativas e disputas que, a partir de 1946, Monsenhor Walfredo decidiu lançar-se candidato à Assembleia Constituinte, inaugurando uma carreira que jamais se submeteria inteiramente às conveniências do jogo político. Sua decisão, entretanto, não foi isenta de conflitos. O ingresso na vida pública colocou-o diante de um dilema profundo, no qual se confrontavam sua vocação sacerdotal e a exigência prática da militância política. Para viabilizar essa transição sem romper formalmente com o ministério religioso, tomou uma iniciativa reveladora de seu senso de responsabilidade institucional.
Deslocou-se até São Paulo do Potengi para convidar pessoalmente Monsenhor Expedito Sobral de Medeiros (1916-2000) a assumir a função de vigário da Catedral de Caicó, libertando-o, assim, das obrigações paroquiais imediatas e permitindo-lhe dedicar-se à campanha eleitoral.
O gesto, embora prudente em aparência, desencadeou uma disputa de grandes proporções no interior da hierarquia eclesiástica, envolvendo os bispos Dom Delgado e Dom Marcolino. Monsenhor Expedito, que já havia sido transferido compulsoriamente de Jucurutu para Natal — mudança que ele próprio relatava ter feito entre lágrimas —, havia firmado compromisso formal para permanecer na Diocese de Caicó e, depois de estabelecer-se em São Paulo do Potengi, resistia a novo deslocamento.
O episódio, descrito à época como uma verdadeira “briga de cachorro grande”, expôs com clareza as tensões entre autoridade religiosa, interesses institucionais e projetos políticos, revelando como decisões eclesiásticas podiam interferir diretamente no curso da vida pública.
Superado o impasse, Monsenhor Walfredo seguiu adiante e foi eleito deputado constituinte, integrando uma legislatura que refletia a nova correlação de forças no Estado. Pela UDN, elegeram-se o experiente José Augusto e o então iniciante Aluísio Alves; pelo PSD, conquistaram mandatos José Varela, Mota Neto, Duarte e o próprio Monsenhor Walfredo, confirmando a força do partido recém-criado.
Instalado no parlamento, não tardou para que enfrentasse a prova decisiva de sua carreira. Surgiu, então, o projeto de levar ao Rio Grande do Norte a energia gerada pela usina hidrelétrica de Paulo Afonso, em Delmiro Gouveia, empreendimento estratégico que prometia alterar profundamente as condições de desenvolvimento do estado.
A proposta despertou grande expectativa popular, mas encontrou resistência no ambiente político, não por razões técnicas, e sim por rivalidade partidária. O autor do projeto era Aluísio Alves, deputado da UDN, adversário político declarado de Monsenhor Walfredo e da bancada do PSD, numa época em que a polarização entre os dois partidos assumia contornos quase pessoais.
No interior do PSD, a reação foi imediata: liderados por José Varela, seus membros decidiram votar contra a proposta, movidos pelo cálculo de enfraquecer o adversário. Quando a posição da bancada foi anunciada, todas as atenções se voltaram para Monsenhor Walfredo. Diante da perplexidade dos correligionários, que não compreendiam como poderia apoiar um projeto que fortaleceria politicamente um rival, ele respondeu com simplicidade e firmeza, numa frase que se tornaria emblemática de sua vida pública: se o projeto era bom para o povo, votaria a favor.
O gesto teve repercussões imediatas e duradouras. A atitude dissolveu a animosidade entre ele e Aluísio Alves, inaugurando uma relação de respeito mútuo e amizade política. Mais do que isso, contribuiu para enfraquecer a rígida oposição entre PSD e UDN no cenário potiguar, abrindo espaço para alianças pragmáticas que marcariam a política estadual nas décadas seguintes.
Ao colocar o interesse coletivo acima das conveniências partidárias, Monsenhor Walfredo consolidou uma imagem de integridade que se tornaria o alicerce de sua ascensão política. Após esse episódio, sua carreira ganhou novo impulso. Embora, ao término do primeiro mandato, tenha retornado a Caicó com a intenção de dedicar-se novamente à catedral e ao colégio diocesano, a política voltou a chamá-lo. Um deputado eleito pela UDN não assumiu a cadeira, e Monsenhor Walfredo, na condição de suplente, foi convocado para ocupar a vaga, passando a atuar no Rio de Janeiro, então capital federal.
Nesse período, um episódio singelo revelou seu traço humano e acolhedor, ao perceber a desorientação de um jovem Padre Tércio, de apenas dezessete anos, em trânsito para Roma, acolheu-o e, como gesto inesperado de hospitalidade, levou-o para assistir a um clássico Fla-Flu no Maracanã, aproximando o rigor da vida religiosa da vivência cotidiana da grande cidade.
A convergência política com Aluísio Alves atingiu seu ponto máximo nas eleições de 1960, quando este deixou a UDN e filiou-se ao PSD para disputar o governo do Estado. Recordando o gesto de lealdade de Monsenhor Walfredo no episódio de Paulo Afonso, Aluísio viajou a Caicó para convidá-lo a compor a chapa como candidato a vice-governador.
Após relutar, ele aceitou, e a vitória veio com expressiva maioria. Exercendo a vice-governadoria até 1962, renunciou ao cargo para disputar uma vaga no Senado, sendo eleito para o mandato que se estenderia até 1965.
Encerrado o governo de Aluísio Alves, tornou-se seu sucessor natural e venceu a eleição para governador do Rio Grande do Norte, derrotando uma das figuras mais influentes da política local, Dinarte Mariz. A chegada ao governo representou o ápice de sua trajetória pública, coroamento de uma carreira construída com base na coerência moral e na fidelidade a princípios.
Esse período coincidiu com o início de um drama pessoal. Monsenhor Walfredo enfrentava um câncer de pulmão, consequência direta de um hábito que o acompanhara por toda a vida adulta, que era o tabagismo intenso. Fumava três maços diários de cigarro Continental sem filtro, prática que mesmo à época já era reconhecida como extremamente agressiva.
Na tentativa de reverter o quadro, buscou tratamento na Inglaterra, mas sem sucesso. De volta a Natal, viveu seus últimos dias com discrição e serenidade, falecendo em 4 de novembro de 1971. As homenagens não tardaram, especialmente em Caicó, cidade que simbolizava a síntese de sua vida entre a fé e a política. Ao ouvir a notícia da morte pelo rádio, o prefeito Dr. Chiquinho encarregou Maurílio Batista de identificar um logradouro público que pudesse perpetuar sua memória.
A escolha recaiu sobre uma área conhecida popularmente como “a Maloca”, denominação que, segundo o testemunho de Maria Petronila de Araújo, remetia a um antigo ponto de acampamento de ciganos. O espaço foi oficialmente rebatizado como Bairro Governador Walfredo Gurgel, gesto que incorporou à paisagem urbana um fragmento da história social e política da cidade.
Seu sepultamento ocorreu no dia seguinte, na Catedral de Caicó, local emblemático que representava, ao mesmo tempo, o ponto de partida e de retorno de sua trajetória. A vida pública de Monsenhor Walfredo Dantas Gurgel permanece como um testemunho eloquente de que a política, quando orientada por princípios sólidos, pode transcender rivalidades e estratégias circunstanciais.
Seu legado não se resume aos cargos que ocupou, mas à forma como os exerceu, guiado por uma ética que colocava o interesse coletivo acima das conveniências partidárias. O voto favorável ao projeto de Paulo Afonso permanece como símbolo maior dessa postura, síntese de uma carreira que fez da coerência moral não um discurso, mas uma prática constante, assegurando-lhe um lugar duradouro entre as figuras mais respeitadas da história potiguar.
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