O dia 13 de maio de 1974 inscreveu-se de forma indelével na história de Currais Novos, no interior do Rio Grande do Norte, transformando uma data tradicionalmente associada à devoção mariana em símbolo permanente de dor, luto e memória coletiva. 

Naquela segunda-feira, a cidade, marcada por profunda religiosidade e conhecida também por sua relevância histórica ligada à mineração da scheelita, razão pela qual ganhou o epíteto de “capital da chelita", vivia mais uma vez a celebração anual em honra a Nossa Senhora de Fátima, devoção intensificada desde a fundação da capela dedicada à santa em 1954, posteriormente elevada à condição de santuário. 

A procissão de 13 de maio constituía, havia décadas, o ponto culminante desse fervor religioso, reunindo famílias inteiras em um percurso de oração, cânticos e recolhimento espiritual, no qual crianças, adultos e idosos caminhavam lado a lado, portando lanternas e entoando benditos, num ritual que expressava a identidade comunitária de Currais Novos.

Naquela tarde, a caminhada teve início por volta das 16 horas, com centenas de fiéis, algumas testemunhas estimam mais de mil participantes, seguindo em direção à Capela de Nossa Senhora de Fátima, no bairro Paizinho Maria. 

Da partida da Matriz de Sant’Ana ao destino final e à liderança religiosa do cortejo, conduzido pelo Monsenhor Auzônio de Araújo Filho, que celebraria missa ao término da procissão. O ambiente era de serenidade e comunhão, marcado por um sentimento coletivo de fé, até que, já nos momentos finais do trajeto, a poucos metros da chegada, essa cena foi brutalmente interrompida.

O acidente ocorreu na Avenida Santo Dumont, nas proximidades do quilômetro 173 ou 176 da rodovia, em horário que os depoimentos situam entre o início da noite, por volta das 18 horas, e o intervalo compreendido entre 19h e 19h30. 

Um ônibus de luxo da empresa Princesa do Seridó, à época pertencente à empresa Andorinha, de Cajazeiras, na Paraíba, e posteriormente adquirida pela Gontijo em 1983 surgiu desgovernado no meio da procissão. 

O veículo, de placas AM-073 da Paraíba, fazia a linha Natal–Crato, uma viagem conhecida como “Corujão”, por adentrar a noite, e transportava dezoito passageiros, nenhum dos quais sofreu ferimentos. Alguns dormiam no momento do impacto; outros, atônitos, mal compreenderam o que havia ocorrido. 

O condutor, identificado como José Roberto, em sua primeira viagem pela empresa segundo um depoente, alegou falha total dos freios, impedindo qualquer tentativa de desvio ou frenagem. Perícias posteriores confirmaram que o ônibus já havia partido de Natal sem freios em condições de funcionamento.

A dinâmica do atropelamento foi descrita como súbita e devastadora. O primeiro impacto atingiu a imagem de Nossa Senhora de Fátima carregada pelos fiéis, e o veículo continuou avançando por cerca de setenta metros, até parar nas proximidades do Batalhão de Engenharia. 

Não houve tempo para reação: a multidão compacta, imersa na oração, foi colhida de forma inesperada. Coexistem registros de sensação de incredulidade e pânico, resumida na expressão recorrente de que “foi muito rápido, foi muito repentino”. O cenário que se seguiu foi descrito como um verdadeiro “dia de juízo”, com corpos mutilados espalhados pela via e pessoas feridas gritando por socorro em meio ao caos.

O saldo humano da tragédia foi devastador: vinte e quatro pessoas perderam a vida, vítimas de atropelamento direto ou de pisoteamento no pânico subsequente, e dezenas ficaram feridas. Entre os mortos encontrava-se Antônio Othon de Araújo (1906-1974), figura pública de Currais Novos, conhecido como escritor, comerciante, político e advogado, que havia exercido mandato como vereador e prefeito da referida cidade. 

O impacto psicológico foi imediato e profundo. O padre que conduzia a procissão entrou em estado de choque, clamando para que os socorristas procurassem sobreviventes e insistindo que todos fossem levados ao hospital, sem declarações precipitadas de óbito no local.

A resposta da comunidade foi rápida, embora improvisada, revelando tanto a solidariedade coletiva quanto as limitações estruturais da cidade. Moradores utilizaram veículos particulares para transportar feridos, enquanto rádios amadores e a Faixa Cidadão (PX) foram acionados para pedir auxílio a cidades vizinhas, como Santa Cruz, Acari, Campo Redondo e outras localidades da região. 

A Rádio Currais Novos desempenhou papel fundamental na mobilização de médicos, enfermeiros, ambulâncias e medicamentos. Para evitar novos acidentes e permitir o resgate noturno, voluntários improvisaram a sinalização da pista com cordas e extensões elétricas, iluminando a avenida escura com lâmpadas penduradas.

As vítimas foram encaminhadas ao CEAC, antigo Hospital Padre João Maria e Maternidade Ananília Regina, instalado no prédio onde hoje funciona o CIAC. A precariedade da infraestrutura hospitalar ficou brutalmente exposta: o espaço foi rapidamente tomado por feridos, atendidos no chão e nos corredores, enquanto o sangue escorria até os banheiros, compondo um cenário descrito como de guerra. 

Médicos de toda a região deslocaram-se para Currais Novos para auxiliar no atendimento emergencial. Diante da dimensão da tragédia, o então governador do Rio Grande do Norte, Cortez Pereira, determinou o envio imediato de caixões para as vítimas fatais e lençóis para os hospitais, numa tentativa de responder à comoção generalizada que se instalara.

Enquanto o socorro se organizava, outro elemento agravava o sentimento de indignação coletiva, pois após o ônibus finalmente parar, o motorista José Roberto abandonou o veículo e fugiu do local, deixando passageiros e vítimas à própria sorte. 

Foi visto correndo em direção ao Cruzeiro, vestindo camisa branca, e desapareceu. Consta que ele jamais foi preso e, segundo alguns relatos, apresentou-se apenas posteriormente para prestar depoimento, sem que se chegasse a uma responsabilização efetiva.

Durante a noite, a cidade viveu momentos de dor e improvisação. A rua foi lavada por voluntários, tanto por necessidade sanitária quanto por um gesto de dignidade diante do “rio de sangue” que cobria o asfalto. Pertences pessoais, chinelos, óculos, relógios foram recolhidos em sacos, e restos mortais ainda presentes na pista foram colocados em bacias e levados ao cemitério. 

No dia seguinte, a chegada da perícia encontrou o local já limpo, o que gerou questionamentos formais, respondidos com a crueza de quem vivera o horror, uma vez que não era possível esperar pelos protocolos diante de tamanha tragédia. 

Uma silhueta de sangue que permaneceu visível no asfalto transformou-se em altar improvisado, onde moradores acenderam velas. Dias depois, uma chuva forte, interpretada por muitos como bênção purificadora, apagou os últimos vestígios físicos do massacre.

Na manhã de 14 de maio, Currais Novos amanheceu sob um céu nublado, refletindo o estado de espírito coletivo. O silêncio tomou conta das ruas; a cidade parou. Trabalhadores vagavam desnorteados, como se cada família tivesse perdido alguém. 

O cheiro do sangue ainda impregnava o local do acidente quando o sol começou a esquentar. O ápice do luto ocorreu no funeral coletivo. Vinte e quatro caixões foram alinhados no chão, em frente à Matriz de Sant’Ana, para a missa de corpo presente. 

Em seguida, um cortejo fúnebre acompanhou os caixões até o cemitério, liderado pela imagem danificada de Nossa Senhora de Fátima, cujo pescoço fora quebrado no impacto e um dos olhos de vidro se perdera. Esse olho foi encontrado dias depois por um morador conhecido como Seu Neco, trazido de volta após ter sido achado por uma criança, permitindo que a imagem fosse restaurada pelo professor e historiador Joabel Rodrigues. A estátua, hoje preservada no santuário, tornou-se símbolo de resiliência e memória.

As consequências da tragédia extrapolaram o luto imediato. A incapacidade do antigo hospital de lidar com a emergência levou o governador Cortez Pereira a determinar a construção do Hospital Regional Mariano Coelho, marco estrutural duradouro na saúde pública da cidade. 

No plano religioso, a procissão tradicional deixou de ser realizada por muitos anos no trajeto original, sendo substituída por caminhadas menores e mais cautelosas, restritas ao bairro, sinal evidente do trauma coletivo. A Avenida Santo Dumont foi rebatizada como Avenida Treze de Maio, e no local ergueu-se um monumento com uma lápide onde estão gravados os nomes das vinte e quatro vítimas fatais, perpetuando a memória do acontecimento.

Entre essas vítimas figuram Cardoso Antônio de Araújo, Aureliana Maria da Conceição, Brígida Luísa Dantas, Francisca Dantas de Medeiros, Francisco Damião, Francisco Isidro de Lima, João Batista de Araújo, Leonília de Macedo, Luísa Pereira de Araújo, Ida Pinheiro Galvão, Maria Francisca de Jesus, Maria Leonisa da Silva, Maria Luísa Garcia, Maria Teresa da Conceição, Rita Emília da Conceição, Rosa Soares da Silva, Severina Maria da Silva, Severino Vicente da Silva, entre outros nomes que compõem a dolorosa lista de mortos, muitos deles pertencentes a famílias conhecidas em uma cidade onde todos se reconhecem.

Cinco décadas depois, a tragédia de 13 de maio de 1974 permanece viva na consciência coletiva de Currais Novos. Não se trata apenas da lembrança de um acidente, mas da memória de um rompimento profundo no seio social, quando uma manifestação de fé foi transformada em barreira humana diante de uma falha mecânica e, possivelmente, de uma cadeia de negligências. 

A frase atribuída a um dos entrevistados — “quem deu freio a esse ônibus foi o povo” — sintetiza de forma brutal essa realidade. Ainda assim, a cidade preserva o acontecimento não apenas como ferida aberta, mas como testemunho da solidariedade, da união e da capacidade de reconstrução de sua comunidade. 

A data, outrora festiva, converteu-se em dia de respeito, oração e homenagem, assegurando que o sacrifício das vítimas jamais seja esquecido e continue a ecoar como advertência e memória na história de Currais Novos, do Seridó e do Rio Grande do Norte.

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