PROTO-HISTÓRIA DE CURRAIS NOVOS  A região de Currais Novos, situada no coração do Seridó potiguar, abriga um patrimônio proto-histórico de extraordinária relevância, cuja temporalidade antecede em milênios a própria formação histórica do Brasil. 

Essa herança remonta a um passado profundo, inscrito tanto nos vestígios paleontológicos de uma megafauna hoje extinta quanto nas evidências arqueológicas da presença humana ancestral, que ocupou essa paisagem há pelo menos nove mil anos. Trata-se de uma história inscrita na terra, nas rochas e nas lagoas, reveladora de sucessivas camadas de ocupação e adaptação ao semiárido seridoense.

Entre os espaços mais emblemáticos desse passado remoto destaca-se a Lagoa dos Santos, localizada na região do Totoró, cuja importância transcende a dimensão local, configurando-se como um verdadeiro depósito natural fossilífero. 

Na década de 1960, por ocasião da abertura de um cacimbão, vieram à luz os primeiros vestígios de grandes mamíferos pré-históricos que habitaram a região em um período anterior à presença humana. 

A partir dessas descobertas, confirmou-se a existência de uma megafauna composta por elefantes gigantes, identificados sobretudo por fragmentos de presas de marfim, preguiças gigantes, tatus gigantes, dos quais se preservaram partes da carapaça e tigres-dentes-de-sabre, cuja presença amplia a compreensão sobre os ecossistemas pretéritos do Seridó. 

Parte significativa desse material foi recolhida pelo professor Antônio Quintino Filho, cuja atuação foi decisiva para a salvaguarda inicial dos fósseis. Atualmente, esse acervo encontra-se parcialmente sob guarda local, enquanto outra parcela integra as coleções científicas do Museu Câmara Cascudo, em Natal. 

Apesar dessas descobertas, acredita-se que a Lagoa dos Santos ainda encerre um potencial paleontológico considerável, uma vez que jamais foi objeto de escavações sistemáticas de grande porte.

Milhares de anos após a extinção desses gigantes da fauna pleistocênica, a mesma paisagem passou a ser ocupada por grupos humanos nômades, cuja presença é comprovada por datações arqueológicas realizadas em sítios do Seridó, especialmente nos municípios vizinhos de Carnaúba dos Dantas e Parelhas, apontando para uma ocupação com cerca de nove milênios de antiguidade. 

Esses grupos seguiram os cursos d’água e utilizaram os abrigos naturais oferecidos pelas formações rochosas da região, estabelecendo-se em locais estratégicos que combinavam proteção, visibilidade e acesso a recursos essenciais à sobrevivência.

Em Currais Novos, os vestígios dessa ocupação humana ancestral manifestam-se de forma eloquente em sítios como a própria Lagoa dos Santos, a Pedra do Letreiro, também na região do Totoró, e a Pedra Furada, situada na região do Quandu. 

Esses espaços concentram um conjunto expressivo de pinturas rupestres e materiais líticos, testemunhos duradouros das práticas simbólicas e tecnológicas desses povos. A arte rupestre local é classificada pelos estudiosos como pertencente à chamada Tradição Agreste, caracterizada por um estilo gráfico considerado menos elaborado do que o de outras tradições nordestinas, sem a representação de cenas dinâmicas ou narrativas complexas. 

Predominam grafismos geométricos e figuras humanas estilizadas, entre as quais se destaca o chamado “bonecão”, uma figura antropomórfica de grandes dimensões que se repete em diferentes sítios, notadamente na Lagoa dos Santos.

A Pedra do Letreiro apresenta um conjunto de pinturas rupestres particularmente bem preservado, oferecendo exemplos claros dos padrões formais da Tradição Agreste. 

Já a Pedra Furada constitui um grande abrigo natural, descrito como uma verdadeira “casa” esculpida na rocha, situada em local elevado e estratégico, o que sugere seu uso como ponto de observação para a caça e de proteção contra ameaças externas. 

Nesse sítio, a iconografia revela distinções simbólicas de gênero: na entrada do abrigo, uma figura humana de formas arredondadas é interpretada como representação da fertilidade e do sexo feminino; no interior, uma figura mais esguia, com a genitália explicitamente destacada, simboliza o elemento masculino, traço recorrente tanto na Tradição Agreste quanto na Tradição Nordeste.

Além das expressões simbólicas inscritas nas rochas, esses povos deixaram abundantes vestígios de sua cultura material, sobretudo na forma de artefatos líticos. A matéria-prima predominante era o sílex, mineral amplamente utilizado por sua capacidade de produzir lascas afiadas quando percutido, adequadas à fabricação de instrumentos essenciais à vida cotidiana. 

Entre os objetos identificados encontram-se ferramentas de corte, pontas de lança, machadinhas e batedores, empregados na caça, no processamento de alimentos e em diversas atividades práticas. 

Esses materiais são encontrados ao longo dos cursos d’água das regiões do Totoró, do Quandu, da Lagoa dos Santos e dos Namorados, evidenciando a íntima relação desses grupos com o chamado “caminho das águas”. 

Duas peças específicas — uma machadinha e um batedor — foram encontradas na Lagoa dos Santos por um morador local, conhecido como Seu Chico Cajueiro, entre as décadas de 1980 e 1990, demonstrando como esse patrimônio pré-histórico ainda permanece acessível, embora vulnerável.

A preservação desse legado milenar constitui, na atualidade, um dos maiores desafios enfrentados pela região. As pinturas rupestres e os sítios arqueológicos sofrem, inevitavelmente, a ação contínua do tempo, do sol, da chuva e do vento, processos naturais que, ao longo dos séculos, contribuem para a degradação gradual das superfícies rochosas. 

No entanto, a ameaça mais imediata e devastadora decorre da ação humana, expressa em atos de vandalismo e pichações que comprometem de forma irreversível registros produzidos há milhares de anos, como já se observa de maneira preocupante na Pedra Furada. 

O aumento do fluxo turístico, embora represente uma oportunidade de desenvolvimento econômico e valorização regional, intensifica também a urgência de políticas efetivas de proteção e conservação. 

Preservar os sítios arqueológicos de Currais Novos não significa apenas resguardar vestígios materiais, mas assegurar a continuidade da memória mais antiga do Seridó, permitindo que as gerações futuras tenham acesso a uma história que antecede a escrita e fundamenta, em profundidade, a identidade cultural da região.

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