CENTENÁRIO DE JOSÉ SATURNINO PEREIRA DE MEDEIROS
Com sensível apreço e reverência, José Pires Dantas detém-se na lembrança de seu irmão mais velho. Era José Saturnino Pereira de Medeiros (1924-2014), a quem todos conheciam pelo cognome Zé Rafael, nome que ele mesmo preferia, talvez por refletir melhor a sua essência de melhor identificação e pertencimento.
Assim como José Pires, era neto pelo lado paterno de Pedro Paulo Medeiros Dantas (1845–1896) e Maria Benta de Albuquerque (1848–1926), Zé Rafael herdara, de ambos, o estofo moral dos antigos sertanejos, a fibra do trabalho.
Agricultor, pescador e garimpeiro, pautou sua existência pela resiliência, construindo a vida à sombra da tradição e sob a luz das serras do Pai Pedro, ou Serra de João Rafael, hoje por alguns confundida com a Serra do Pote.
Nascido na cidade de Acari, no Rio Grande do Norte, a 26 de outubro de 1924. Ainda na infância, iniciou-se nas atividades do campo, auxiliando o genitor na lida diária no sítio Volta do Rio, este limítrofe à fazenda Carnaubinha, propriedade de seu tio-avô, o Major Pires.
Aos onze anos de idade, acompanhando os pais, foi residir na Fazenda Ingá. Tal mudança deveu-se aos eventos políticos de 1935, que ceifaram a vida do líder Octávio Lamartine. Naquela fazenda, teve contato com pessoas estranhas ao círculo familiar, 'seguranças' da família Lamartine, que lhe narraram fatos e causos que permaneceram vivos em sua memória por toda a existência.
Ao tempo de servir às Forças Armadas, rumou à capital do Estado. Naquela oportunidade, nos idos de 1943, época da segunda guerra em que conheceu o mar, banhando-se nas águas da praia de Areia Preta.
A 27 de janeiro de 1948, Zé Rafael uniu-se em matrimônio, na cidade de Acari, com Maria Beatriz Pires Pereira (1929–2007) filha de Sérvulo Leodegário Pereira (1900–1935) e de Francisca Pires Galvão (1904–1980); Sérvulo, por sua vez, era o irmão caçula de 'Tio Félix', aquele primo e grande amigo de João Rafael.
Recém-casados, Zé Rafael e sua esposa, 'Mariinha', foram residir no Sítio Rufão, no município de Santana do Matos, propriedade cedida pelo genitor dele. Permaneceram ali por três anos, retornando, em fins de 1950, para o Sítio Carnaubinha, que fazia divisa de cerca com a Volta do Rio.
Zé Rafael foi, por muitos anos, lavrador da cultura do algodão e vaqueiro de sua própria vacaria. Era também pescador no açude Gargalheiras, cujas águas aportavam em seu quinhão de terra. Dedicou-se, pois, como homem do campo, pecuarista, pescador e, no ocaso de sua jornada, minerador. Embora não possuísse recursos fartos, era constante seu auxílio aos menos favorecidos.
Além de suas atividades rotineiras, não dispensava uma boa prosa, relatando ocorrências de tempos idos. Prosador por natureza, recitava versos e contos extraídos dos repentistas ouvidos pelo rádio, repassando-os a quem se dispusesse a escutá-lo. Fazia-o sempre com espírito e sem desânimo, jamais perdendo a empolgação na entonação do relato.
Da união com Mariinha floresceu uma numerosa descendência — onze filhos, seis homens e cinco mulheres — que perpetuaram o nome 'Pereira de Medeiros' de seus antecedentes: Altiva, Adaltiva, Juraci, José, João, Sérvulo, Francisco, Socorro, Vital, Enéas e Maria de Lourdes.
A primogênita do casal, Altiva Pereira de Medeiros, partiu prematuramente em 21 de agosto de 1970, deixando imensa saudade. José Pires recorda que, por ocasião de seu falecimento, teve que regressar às pressas da cidade de Areia, Paraíba, a fim de consolar seus pais, avós de Altiva, nesse momento de profunda dor. Sua memória é evocada com carinho e devoção: “que Deus a tenha em Sua Santa Glória”, recorda o tio.
A segunda filha nascida em 1950, Adaltiva, dotada de notável inteligência e sensibilidade, devotou-se à educação, à família e a quantos lhe solicitavam auxílio. Sua vida foi marcada pelo serviço ao público, tendo exercido, dentre outras funções, o cargo de Secretária da Assistência Social em seu município. Contraiu matrimônio com Manoel Basílio, oriundo do Saco dos Pereira, de cuja união nasceram três filhos: José Gentil, Janúncio Jânio e Kêlia Xênia. Radicaram-se em Acari, onde ela logrou construir respeitável nome entre os seus.
A terceira, Juraci, uniu-se a Vicente Pereira de Araújo, o Vicente Cananeia, com quem teve os filhos Jucinete, Jucilene e Joatan. O casal residiu na Fazenda Cabeço Branco, propriedade de Antônio Pires Galvão (1934-1999) e Francisca Pires Galvão, tia de Juraci e irmã de José Pires.
Entre as mais novas, Socorro Medeiros, casada com Antônio Januário, viveu longo período no Rio de Janeiro, de onde regressou no início da década de 1990. Com quatro filhas, fixou-se em Mossoró, cidade que hoje acolhe parte de sua prole.
Já Maria de Lourdes, a caçula, mãe de Genaro Neto e Marli Beatriz, dedicou-se ao cuidado dos pais até o fim de seus dias, tornando-se, com o tempo, professora e empresária bem-sucedida, exemplo de zelo e gratidão filial.
Dentre os filhos varões, o primeiro é José Pereira de Medeiros, o estimado 'Zeca', nascido em 1955. Ele contraiu matrimônio com Ivanilde, com quem gerou a seguinte descendência: Joseilma Dantas de Medeiros (n. 27/03/1977); Josenildo Dantas de Medeiros (n. 04/11/1978); Maria Daguia Dantas de Medeiros (n. 16/08/1983); Marlene Dantas de Medeiros (n. 04/08/1990); José Dantas de Medeiros (n. 21/07/1995); Joseano Dantas de Medeiros (n. 18/07/1996); e Joel Dantas de Medeiros (n. 10/11/2000). São estes os descendentes que completam a referida ramificação da família.
O segundo, Francisco Pereira de Medeiros, o Chico Rafael, casou-se com Izaltina, filha de Joaquim Major e Gilberta Dantas, e pai de Franciélio e André. Este último, dedicado aos estudos agropecuários, seguiu orientação do tio José Pires e, já radicado no Paraná, firmou-se como profissional de destaque em sua área.
Curioso notar que Chico e Zeca desposaram duas irmãs, Izaltina e Ivanilde, fazendo dos filhos de ambos primos duplos, que na região se denomina de primos carnais, unidos não só pelo sangue, mas também pelos afetos entrelaçados.
João Pereira, outro dos irmãos, casou-se com Rosalina e fixou-se na zona rural de Alvorada, no interior do Tocantins, onde administra uma propriedade próxima a Gurupi.
Sérvulo Pereira, que herdou o nome do avô materno, uniu-se a Doralice, com quem teve quatro filhos, Juliana, Brina, Túlio e Iron. Residiram na Acauã, no Abreu e atualmente na Volta do Rio lugar de origem dos antepassados.
Vital Pereira viveu em Iturama, Minas Gerais. Homem trabalhador, deixou o Seridó em busca de melhores oportunidades. Partiu ainda jovem, mas sua memória perdura através da filha, mulher instruída e mãe dedicada.
Por fim, o caçula, Enéas Pereira de Medeiros, nascido em 1965, recebeu o nome do bisavô Enéas Pires Galvão, intendente de Acari e fundador do Monte do Galo, em Carnaúba dos Dantas, homem de caráter e coragem. O bisneto Enéas é casado com Vitória Dantas, pai de três filhos, sendo o primogênito batizado como Raphael, em homenagem ao bisavô João Rafael.
Assim se perpetua a família de José Saturnino Pereira de Medeiros, o Zé Rafael, e de Maria Beatriz Pires Pereira, que em 4 de março de 1996, o casal ainda residia em Acari, na Rua Dr. José Augusto, nº 147, onde o nome “Zé Rafael” seguia sendo sinônimo de respeito, trabalho e fraternidade.
Da outra irmã de José Pires nascida a 30 de março de 1936 no Ingá é Francisca Pires Galvão, para ele, constitui-se como uma figura emblemática da resiliência e do pioneirismo feminino na história do Seridó.Foi batizada no próprio Ingá, como cediço propriedade da família Lamartine de Faria, onde seus pais então residiam. Teve por padrinhos, como dito anteriormente, figuras de notável prestígio na história potiguar: o Dr. Juvenal Lamartine de Faria e sua esposa, Dona Silvina Bezerra de Araújo Galvão.
Desde a infância, seu desejo pela educação era notável. Iniciou seus estudos na Escola de Bulhões, que integrava a Estação Experimental do Campo de Fomento do Algodão Mocó, destacando-se por sua inequívoca dedicação e sendo, entrementes, professora primária de seu irmão caçula, ora biografado.
O sonho de cursar a faculdade de Direito motivava-a a enfrentar as severas adversidades do semiárido, como as longas caminhadas sob o sol e as cheias do rio Acauã, que não hesitava em atravessar a nado. Ao concluir o ensino primário, um obstáculo de vulto se impôs, a necessidade de prosseguir os estudos na cidade.
Com a mentalidade austera da época, seu pai estabeleceu-lhe uma condição que julgava improvável - “Só irá estudar na cidade se o barreiro do sítio transbordar”. As aulas iniciavam-se em fevereiro, e as condições climáticas não prenunciavam chuvas. Francisca, dotada de fé profunda, dedicou-se à oração. A providência divina manifestou-se e, antes do final de março, as chuvas advieram e o barreiro transbordou.
Pôde, assim, cursar o quinto ano no Grupo Escolar Tomás de Araújo, onde novamente se destacou, concluindo a etapa com média 9,7, a segunda maior da turma. Sua ambição intelectual não cessou. Determinada, escreveu uma carta ao então Presidente da República, Dr. Juscelino Kubitschek, e, para sua surpresa, foi contemplada com uma bolsa de estudos para Natal.
Contudo, o pai, temendo a mudança da filha para a capital, negou-lhe a permissão, mesmo com a presença de familiares naquela cidade. Em seguida, foi convidada a lecionar na mesma Escola de Bulhões onde fora aluna, oportunidade que abraçou com zelo, deixando um legado de afeto e ensinamentos.
A vida de Francisca Pires Dantas tomaria um novo rumo durante o novenário de Nossa Senhora da Guia, em Acari. Na ocasião, reencontrou seu primo, Antônio Pires Galvão (1934-1999). O romance entre os dois teve início sob o encanto da valsa Royal Cinema, do maestro Tonheca Dantas, executada pela banda de música local.
A união foi celebrada em 23 de agosto de 1958, na Igreja de Nossa Senhora da Guia. Sua ancestralidade, aliás, possui relevância histórica, por parte de pai, sua avó era irmã do avô de seu esposo, o que fazia dos dois primos legítimos. Francisca carrega em sua ascendência a força de matriarcas como a avó materna, Maria Thereza de Jesus, uma exímia artesã, e a avó paterna, Maria Benta de Albuquerque ("Vó Benta"), lembrada por sua coragem e amor ao próximo.
Da união com Antônio Pires Galvão (1934-1999), conhecido como "Toinho Pires", nasceram três filhos: Frânia de Fátima Pires (1962-2024), Joana D'Arc Pires (1965) e Jonéas Antônio Pires Galvão (1966), que lhes deram seis netos e uma bisneta.
Após o casamento, a vida pública de Francisca Pires Galvão intensificou-se. Durante a gestão do prefeito Silvino Adonias Bezerra Filho, foi aprovada em primeiro lugar no primeiro concurso público para professores do município, optando por lecionar na Escola Enéas Pires Galvão na Fazenda Cabeço Branco.
Em 1975, contudo, a prioridade pela educação dos filhos levou-a a deixar o magistério para residir na zona urbana de Currais Novos.
Sua dedicação à comunidade a conduziu, naturalmente, à política. Em 1975, foi eleita vereadora pelo MDB, exercendo um mandato de seis anos. Destacou-se por um trabalho responsável e rigorosamente fiscalizador, logrando a aprovação unânime de todas as suas proposições.
Seus requerimentos concentravam-se nas áreas de educação, saúde e infraestrutura, sempre com foco nos interesses da população rural. Entre suas ações mais notáveis, estão a solicitação de verbas para a maternidade de Acari, a reivindicação de uma lavanderia pública para as lavadeiras afetadas pelo açude Gargalheiras e a luta por transporte escolar para a zona rural.
Paralelamente à vida pública, Francisca Pires Galvão desenvolveu um talento singular para o artesanato, transformando pedras do Seridó em belas obras de arte. Sua visão à frente do tempo manifestou-se, ainda, em um texto sobre o potencial mineral de Acari, no qual descreveu as riquezas da região e a importância de seu desenvolvimento.
A vida de Francisca Pires Galvão, é um testemunho da força, inteligência e determinação das mulheres do Seridó.
Expoente da cultura brasileira, alinhado ao modernismo e ao regionalismo, Cascudo realizava visitas às cidades do Estado, sendo frequentemente recepcionado por integralistas e pelos coronéis do Seridó. Notória era sua amizade com o Coronel Cypriano Bezerra Galvão Santa Rosa (1857-1947). Em diferentes oportunidades, visitou Acari e Currais Novos, e nunca perdia a chance de fazer uma boa colheita de contos e fatos populares. Os primos João Rafael e Félix Pereira, o conheceram bem e algumas informações foram compartilhadas.
Parte 8 - "Breve Lição da Memória dos Avós e Tios"
Pedro Paulo Dantas de Medeiros (1844–1896) figura como avô paterno de José Pires Dantas. Nasceu em uma linhagem profundamente entrelaçada com os principais troncos familiares da região, pois era filho do Tenente-coronel Manoel Salustiano de Medeiros (1814-1869) e de Cândida Emeraldina Lúcia Dantas (1814-1857), e o seu nome repetido em homenagem ao avô paterno que nasceu em 1781, também chamado Pedro Paulo de Medeiros. Insere-se, assim, numa genealogia que guarda memórias e continuidades onomásticas que atravessam gerações.
Por via paterna, Pedro Paulo era bisneto do Capitão-mor Manoel de Medeiros Rocha (1755–1837) e de Anna Pereira de Araújo (1760–1834); por via materna, conserva ascendência direta do patriarca Caetano Dantas Correia (1710–1797), figura fundadora cuja prole deixou marca indelével na topografia e na toponímia locais.
Consorciou-se com Maria Benta de Albuquerque, sua prima e viúva, uma união que veio a reforçar os laços parentais e patrimoniais entre os ramos afins da família. Estabeleceu residência na histórica Fazenda Marcação, propriedade vizinha à Aba da Serra, do Coronel Zé Bezerra de Currais Novos, que serviu como centro de sua atividade e do prestígio familiar na região.
De seu nome originou-se, ainda, a designação do "clã dos Paulos", em Currais Novos, na verdade uma herança onomástica que tornou perene a memória do patriarca na geografia social do município. Não é de estranhar que a serra que contorna a Carnaubinha e a Volta do Rio, denominada Serra do Pai Pedro, conserve a lembrança toponímica do patriarca, testemunho palpável da presença e da autoridade de sua estirpe no espaço regional.
A avó paterna de José Pires é Maria Benta de Albuquerque (1848-1926) que desponta na memória da família como uma figura emblemática, cujo legado se alicerça na coragem, resiliência e notável liderança demonstradas em tempos de extrema adversidade.
Maria Benta teve sua fibra testada durante um dos períodos mais devastadores da história do Nordeste brasileiro que foi a Grande Seca de 1877-1879, calamidade que ceifou milhares de vidas e pôs à prova a sobrevivência das famílias da Acauã, Carnaubinha, Boqueirão, Cajueiro, Bico da Arara, Ingá, Caiçarinha e tantas outras comunidades.
Filha de Antônio Pires de Albuquerque Galvão Júnior (1823-1871) e de Porphíria Alexandrina de Jesus (1832-), e irmã do Tenente-coronel Antônio Pires de Albuquerque Galvão (1849-1934), o Major Pires. Sua trajetória familiar, marcada por duas uniões, foi fundamental para a perpetuação de seu sangue.
Do primeiro casamento, contraído com seu tio Bellino Pires de Albuquerque Galvão (1837-1871), união tornada possível pela dispensa eclesiástica e pela legislação civil permissiva da época, nasceram quatro filhos.
Desse clã advém o engenheiro e político potiguar Elias Fernandes Neto, nascido em Jardim do Seridó/RN, no dia 3 de junho de 1943, teve uma carreira política de grande relevo no Rio Grande do Norte, falecendo em Natal/RN, aos 76 anos, em 10 de outubro de 2019. Sua trajetória parlamentar na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte foi marcada por quatro mandatos consecutivos como Deputado Estadual.
O primeiro mandato (1987-1990) foi especialmente significativo, pois atuou como Deputado Estadual Constituinte, participando da elaboração da Constituição Estadual de 1989. Ele foi reeleito para os períodos subsequentes de 1991-1994, 1995-1998 e 1999-2002. Foi durante essa longa passagem pela assembleia que Elias Fernandes se consolidou como uma autoridade na gestão de águas, sendo o autor da lei que criou o fundamental Plano Estadual de Recursos Hídricos.
Maria Benta, em seu segundo matrimônio, uniu-se a Pedro Paulo de Medeiros Dantas (1845-1896), patriarca do clã dos “Paulos” em Currais Novos/RN.
Dessa união conjugal nasceram dez filhos, conforme recorda o neto José Pires Dantas: Pedro de Alcântara Medeiros (n. 1875), cujo título eleitoral, registrado aos vinte e um anos na eleição de 1896, foi recentemente localizado por pesquisadores nos arquivos públicos de Acari; Antônio Paulo Dantas (1876–1962); Manoel Sérgio de Medeiros (1877–1960); Irineu Leopoldo Dantas (1885-1965); Francisco Satyro de Medeiros (1879–1964), conhecido como Chicó Paulo ou tio Chicola, figura afável e assídua nas visitas ao irmão João Rafael no Sítio Volta do Rio.
Certa feita, durante uma dessas visitas, ao subir em um coqueiro para colher frutos, um calango entrou por dentro de suas calças, provocando uma cena cômica e em meio a pulos desajeitados e ao desespero para livrar-se do pequeno intruso, arrancou gargalhadas das sobrinhas-netas que presenciaram o episódio.
Seguem-se ainda Anunciada Cândida de Medeiros (1880–1964), Ana Maria da Conceição (1881–1970), carinhosamente chamada Nãna; Enedina Pires de Albuquerque (1883–1950); André Pires Galvão (1883–1972); e, por fim, João Raphael Dantas (1888–1975), pai de José Pires Dantas, que perpetuaria, em sua geração, os valores familiares, morais e culturais herdados do tronco ancestral Medeiros Dantas.Maria Benta teve sua fibra testada durante um dos períodos mais devastadores da história do Nordeste brasileiro, a Grande Seca de 1877-1879, calamidade que ceifou milhares de vidas e pôs à prova a sobrevivência das famílias da Acauã, Sobradinho, Bulhões, Boa Vista, Carnaubinha, Boqueirão, Bico da Arara, Cajueiro, Zagarelhas, Soledade, Ingá, Caiçarinha e tantas outras localidades.
A força moral de Maria Benta revelou-se de forma indelével diante da seca. Em um episódio que ilustra sua dignidade e lealdade, seu irmão, o Major Pires, recusou-se a abrigar os agregados dela, oferecendo amparo apenas à família.
A resposta da matriarca foi contundente e firme: “Ou tudo ou nada!”. Em outro momento, quando o mesmo irmão tentou adquirir sua propriedade, advertindo que, se persistisse em sua “teimosia”, poderia perecer, ela replicou com singular destemor: “Morrerá ou não!”.
Em essência, a vida de Maria Benta constitui um testemunho de liderança feminina e planejamento. Pela descendência que germina pelo país e fora deste, ela é relembrada como uma figura matriarcal de indiscutível expressão, cuja determinação em proteger os seus, cuja dignidade frente à insensibilidade e cuja capacidade de adaptação em momentos críticos se consolidaram em um legado de generosidade.
Não obstante, orientada pelo primo, o Coronel José Bezerra da Aba da Serra, adquiriu a Fazenda Marcação, em Currais Novos. Esta propriedade, dotada de melhores recursos naturais, permitiu que sua família e seus protegidos atravessassem o período de calamidade com maior segurança.
Demonstrando sua sagacidade estratégica, e diante da escassez e da falta de apoio familiar, Maria Benta tomou a decisão de vender sua parte da gleba rural que lhe cabia por herança, em Acari, ao próprio irmão.
O adquirente da gleba foi o Tenente-Coronel Antônio Pires de Albuquerque Galvão, cuja vida transcorreu entre 8 de novembro de 1849 e 24 de maio de 1934, sendo filho de Antônio Pires de Albuquerque Galvão Júnior e de Porfíria Alexandrina de Jesus, que contavam 26 e 17 anos, respectivamente, por ocasião de seu nascimento.O famosos “Major Pires”, era ele tio-avô de José Pires. O Major contraiu matrimônio por duas vezes. Primeiramente com Porphíria Alexandrina de Jesus (1855-1892) e, em segundas núpcias, com Nathália Augusta Brito de Araújo (1869-1930).
Neste ponto, a crônica familiar apresenta um desafio particular aos genealogistas, que não raro confundem as gerações. Como se depreende dos fatos, a primeira esposa do Major era filha de Ana Marcolina de Jesus (1817-1900) e possuía nome idêntico ao de sua sogra.
Este fato, somado à arraigada tradição de o próprio Major Pires também ter herdado o nome de seu pai e de seu avô, prática comum entre as famílias tradicionais do Seridó oitocentista, criou um labirinto de homônimos que dificulta a exatidão histórica. O Tenente-Coronel faleceu em Acari, aos 84 anos, e ali foi sepultado.
A descendência do Major Pires teve origem em três uniões distintas. Do primeiro matrimônio nasceu o deputado estadual e intendente de Acari, Enéas Pires Galvão (1879-1961); Francisco Elviro de Albuquerque Galvão (n. 1874), quem de fato vendeu parte da Volta do Rio para João Rafael; Antônio Pires de Albuquerque Galvão Filho (1876-1946), deste advém os 'Pires' da lanchonete do centro de Acari; Cipriano Pires Galvão (1878-1949); Leonidas Pires Galvão (1880-1966) dele advém os 'Galvão' filhos de Lúcia Medeiros; Anna Pires Galvão (1882-1962); Lindolfo Pires Galvão (1884-1896); José Pires Galvão (1886-1952); Maria Pires Galvão (n. 1887); Thereza Pires Galvão (1889-1978); Horácio Pires Galvão (1891-1950) é o caçula da primeira família do Major e foi genitor de Juarez, Catarina, Adaltiva Braz e outros.
Da segunda união matrimonial com Nathalia Augusta, gerou os filhos Porfíria Eusébia Pires Galvão (1899-1985), mãe do poeta José Gonçalves e do deputado Paulo Gonçalves; João Deão Pires Galvão (1901-1932); Gentil Pires Galvão (n. 1904) que deixou um filho em Acari e faleceu em Anapólis, Goias; Júlio Pires Galvão (n. 1907); Regina Pires Galvão (n. 1908).
Por fim, de um terceiro relacionamento, nasceu João Santana, que foi criado na Fazenda Marcação, sob os cuidados afetuosos de sua tia Benta e que foi o genitor de Antônio Félix de Maria (1909-1994) deixando honrada descendência em Currais Novos.
No campo político, há registros de sua atuação na Intendência de Acari durante o triênio 1893–1895, resultado das eleições de 1º de outubro de 1892, nas quais obteve expressivos 160 votos. Todavia, por critério de desempate de idade, perdeu a presidência para Cypriano Santa Rosa.
Retornou à cena política no triênio 1911–1913, novamente como Presidente da Intendência, segundo as eleições de setembro de 1910. Mais tarde, no triênio 1917–1919, o Major Pires exerceu o cargo de vice-presidente na gestão de Joaquim Servitta Pereira de Brito (1866-1920), eleito com 104 votos, contra 93 obtidos pelo próprio Major.
Já ao final do mandato, Quinca Servitta, acometido por problemas de saúde, precisou afastar-se em diversas ocasiões, período em que o Major Pires assumiu interinamente a presidência da Intendência, garantindo a continuidade administrativa do governo municipal.
Foi nomeado major da Guarda Nacional em 23 de setembro de 1888, alcançando posteriormente a patente de tenente-coronel, conforme documentação que atesta sua promoção a oficial superior.
Essa ascensão social da época reflete o prestígio político e econômico das famílias sertanejas ligadas à Guarda Nacional, instituição criada no Império para integrar as elites locais à manutenção da ordem e da autoridade civil nas províncias.
Além de suas atividades agropecuárias, o Major Pires possuía máquina de descaroçar algodão, um dos equipamentos mais valorizados da época, símbolo da modernização rural e da crescente integração do Seridó às dinâmicas comerciais do litoral e do exterior.
Sua trajetória ilustra o perfil dos líderes locais que, entre o final do século XIX e as primeiras décadas do XX, uniram o poder econômico à representatividade política e à influência social, perpetuando o papel das oligarquias familiares na história regional.
Dos tios de José Pires Dantas pela linhagem paterna
Encontram-se criteriosamente relacionados acima na descrição da matriarca Maria Benta, todos descendentes do antigo tronco patriarcal dos “Paulo”, família tradicional profundamente enraizada em Currais Novos ou Galvanopólis, como era popularmente divulgada.
Anotamos também Manoel Sérgio de Medeiros, o Manoel Paulo, figura de relevo em sua geração. Homem de espírito laborioso e de reconhecida integridade, destacou-se tanto no convívio familiar quanto nas lides rurais e comerciais. Pela retidão de caráter e dedicação ao trabalho, tornou-se o patriarca de uma ampla descendência, símbolo vivo da continuidade e da solidez da linhagem a que pertencia.Seu primeiro matrimônio, com Deolinda Libânia de Araújo, deu origem a treze filhos, que perpetuaram o nome e os valores de sua casa. São eles: Maria Benta de Medeiros, Libânia Deolinda de Araújo, Gerôncio Pires de Medeiros, Ana Medeiros, Rita de Medeiros Gomes, Francisco Medeiros, Antônio Lisboa de Medeiros (Tonho), José Pires de Medeiros (José Paulo), Luiz Gonzaga de Medeiros, João Evangelista de Medeiros (João Paulo), Pedro Paulo de Medeiros, Manoel Quinino de Medeiros e Francisca Medeiros Galvão.
Tendo enviuvado aos 48 anos, Manoel Paulo contraiu segundo casamento em 28 de fevereiro de 1925, com Teresa Moraes de Albuquerque, união igualmente fecunda, da qual nasceram onze filhos: Edith de Medeiros Cavalcanti, Violeta Morais Gomes, Maria das Neves de Morais Medeiros Cavalcante, Núbia Morais Bezerra de Medeiros, Terezinha Medeiros Gralheiro, Ivanaldo Medeiros, Luiz Ivalito, Ivanethe Medeiros, e a caçula Elça Morais de Medeiros, entre outros que completam o numeroso grupo familiar.
Foi proprietário da Fazenda São Sebastião, localizada às margens do Rio São Bento, lugar que se tornou notável espaço de convivência e, ao longo do tempo, a fazenda firmou-se como um marco da história doméstica e rural da família ‘Paulo’, preservando memórias e valores transmitidos de geração em geração.
Atualmente, o imóvel pertence a seu bisneto Hélder Araújo, empresário do ramo moveleiro e proprietário da HS Móveis, que mantém viva a herança do clã, perpetuando o vínculo entre o passado e o presente. Ademais, a trajetória de Manoel Sérgio de permanece como expressão da força e da perseverança do homem sertanejo.
Primeiro Encontro da Família “Os Paulos”
Realizado em 12 de setembro de 2015, no Sítio São Sebastião, em Currais Novos, o Primeiro Encontro da Família “Os Paulos” representou um marco na história da própria família.
O evento, que reuniu cerca de trezentos familiares oriundos de diversas partes do Brasil, entre elas Rio de Janeiro, Natal, Paraná e outros lugares, teve como propósito central reconectar gerações dispersas pelo tempo e pela distância, e resgatar a consciência das origens de um nome que, por muito tempo, acreditava-se ser apenas um apelido, mas que se revelou um autêntico sobrenome de família.
Organizado ao longo de sete meses por uma comissão empenhada e amorosamente dedicada, o encontro foi idealizado por Antônio Carlos Cavalcante, cuja visão e liderança tornaram possível transformar uma ideia nostálgica em um acontecimento memorável.
Em reconhecimento ao seu esforço e à sua devoção familiar, Antônio Carlos foi homenageado com uma comenda especial, acompanhada de uma placa onde se lia: “Gratidão. A família Paulo confere a Antônio Carlos Barros Cavalcante sua gratidão pelo imenso comprometimento familiar e dedicação, compartilhando conosco sua alegria e amizade, que ficarão para sempre gravadas em nossas memórias. Currais Novos, 12 de setembro de 2015.”
Em seu discurso, emocionado, o idealizador declarou: “Eu estou realizando um sonho pessoal, mas acredito que todos aqui também estão realizando o sonho de estarmos unidos.”
O evento foi aberto com uma Missa em Ação de Graças, que estabeleceu um tom de celebração e gratidão, refletindo o espírito de fé e comunhão que sempre caracterizou a família. O dia foi permeado por reencontros comoventes, alguns parentes não se viam havia mais de quarenta anos, e por momentos de intensa emoção, em que as lembranças do passado se entrelaçaram com as expectativas das novas gerações.
Um dos pontos altos foi a reconstrução simbólica de uma queijeira tradicional, onde foram produzidos, ao vivo, 40 quilos de queijo fresco, preparados e servidos “como antigamente”, acompanhados de açúcar e farinha, reconstituindo o sabor e a memória da vida rural de outrora.
A iniciativa, que despertou grande entusiasmo, foi descrita como uma experiência de reviver a história com as próprias mãos, ou seja, um tributo à sabedoria e às práticas dos antepassados. O encontro não se limitou a uma celebração afetiva. Foi, sobretudo, um ato de reconstrução da identidade coletiva.
Ao redescobrir que “Paulo” era, de fato, um sobrenome incorporado no decorrer do tempo, sendo original da família curraisnovense e não apenas um apelido qualquer como se imaginava, os descendentes reafirmaram o vínculo com suas raízes históricas e regionais, especialmente com figuras como Pedro Paulo Dantas de Medeiros e Maria Benta de Albuquerque, os ancestrais que deram origem ao tronco familiar na localidade de Marcação.
O desejo de preservar a memória também se manifestou na valorização dos bens materiais herdados dos antepassados, cuidadosamente conservados ao longo das gerações, a saber: uma cama de casal com 143 anos, na qual nasceram várias gerações; uma vitrola antiga, pertencente a uma madrinha; um oratório da avó; e até objetos cotidianos, como o pinico e o lavatório, preservados “com maior carinho”, símbolos tangíveis da continuidade familiar.
Esses elementos, carregados de história, constituem testemunhos vivos do passado, e reafirmam o respeito e o afeto com que a família cultiva suas origens. Durante o encontro, os relatos fluíram naturalmente. Os mais velhos rememoraram as secas de 1930 a 1932, o tempo em que o rio São Bento ainda era limpo e fornecia água para beber e cozinhar, e os domingos de infância passados no casarão da São Sebastião, quando mais de cinquenta pessoas se reuniam para almoçar em família.
Uma das filhas, a caçula, recordou, com ternura, as noites em que ela e as irmãs ouviam da janela as músicas do carnaval da cidade, proibidas de participar pelo pai Manoel Paulo, mas encantadas com os sons que vinham de longe.
Já os mais jovens demonstraram curiosidade e entusiasmo em conhecer suas origens, reconhecendo o valor de “ter uma fortaleza na sua formação familiar”, como expressou um dos participantes vindos do Paraná. Até mesmo os convidados de fora, como uma participante do Rio de Janeiro, sentiram o impacto emocional do encontro, descrevendo-o como “maravilhoso” e “repleto de significado”.
Representando o irmão caçula de Manoel Sérgio, João Raphael, estiveram presentes prestigiando o evento naquela noite memorável suas filhas, Francisca e Tereza Pires; suas netas, Joana d'Arc e Maria de Lourdes; e seu bisneto, José Gentil.
O Primeiro Encontro da Família ‘Paulo’ não foi apenas uma reunião festiva, mas um marco de identidade e pertencimento. Reuniu até a quarta geração, reafirmou laços, reacendeu memórias e fortaleceu o sentido de continuidade de um nome que atravessou séculos.
Com sua atmosfera de saudade e celebração, o evento tornou-se a realização de um sonho coletivo, o sonho de reconhecer-se na própria história e de perpetuar, entre os descendentes, o sentimento de união que sempre caracterizou a família.
Mais do que um dia de confraternização, aquele 12 de setembro de 2015 foi um rito de memória e de amor, em que o passado se reencontrou com o presente para assegurar o futuro.
A fazenda São Sebastião, palco de tantas lembranças e afetos, voltou a ser, como outrora, o coração pulsante dos Paulos, uma família unida pela origem, pela tradição e pela força indelével da ancestralidade.
Parte 9 – De Alguns Ancestrais e Personagens
A história do Seridó, região emblemática do Nordeste brasileiro, é indissociável das trajetórias das famílias Dantas e Medeiros, cujos nomes se confundem com a própria formação social, econômica e cultural do sertão.
Filho de José Dantas Correia e Isabel da Rocha Meireles, naturais da Paraíba e descendentes de portugueses estabelecidos nas cercanias do Recife, Caetano ergueu sua vida sobre no desbravamento do Seridó às margens dos rios Carnaúba e Acauã.
Casado com Josefa de Araújo Pereira, com quem teve quinze filhos, lançou as bases de uma descendência que, segundo os cronistas, alcançaria milhares de indivíduos, muitos deles ascendendo a posições de prestígio político e social, o que é o caso de José Pires Dantas.
Estabelecendo-se na fazenda Picos-de-Cima, situada a uma distância de aproximadamente 18 km do Sítio Volta do Rio, Caetano tornou-se não apenas o patriarca da família Dantas, mas também uma figura central na fundação de cidades da região.
Sua devoção, aliada à prosperidade, levou-o a doar, em 1768, as terras para a construção da Capela de Nossa Senhora das Mercês, na serra do Coyté. Esse ato, mais do que religioso, representou a consagração simbólica da indelével presença de sua família na história daquelas paragens.
O documento de doação, repleto de formalidades e testemunhos, revela um homem consciente da importância da fé e do patrimônio, comprometido com o legado espiritual e material de sua descendência. A família Dantas prosperou no contexto da época do couro, quando a criação de gado era a principal força motriz da economia sertaneja.
Capistrano de Abreu descreveu poeticamente esse período afirmando que “o gado transportava o seu dono”, expressão que sintetiza a vida nômade e dura dos criadores do sertão. O Seridó, moldado por essa tradição, viria a tornar-se um polo de pecuária e algodão, produtos que deram forma à sua economia e à sua identidade cultural.
Entre os descendentes, parentes e afins de Caetano destacam-se nomes que perpetuaram a influência familiar na região, Thomaz de Araújo Pereira, provedor do Acary, Gregório José Dantas Correia e José Dantas Correia, que se fixaram em Piranhas e na Serra do Teixeira, na Paraíba; e Sebastião Dantas Correia, agraciado com terras na Capitania do Rio Grande em 1745.
A história dessas famílias, entrelaçada com a formação de vilas, capelas e fazendas, compõe o contexto fundacional do Seridó potiguar e paraibano.
A trajetória dos Medeiros, por sua vez, é envolta em lendas e tradições orais que remontam ao século XVIII. Diz-se que Rodrigo e Sebastião de Medeiros, vindos de Portugal, desembarcaram nas margens do rio Sabugi. A tradição oral, transmitida por gerações, conserva esse misto de mito e história, reforçado por documentos genealógicos dos irmãos ao chegar ao Brasil.
Ambas as famílias, embora de origens distintas, convergiram na consolidação do Seridó como território de cultura e resistência. Os Dantas representaram o espírito pioneiro da posse da terra e da fé erigida em capelas; os Medeiros, a força da tradição e o mistério de uma origem que atravessa oceanos. Juntas, compuseram a elite moral e econômica de uma região que soube transformar o isolamento do sertão em fonte de identidade e orgulho.
Para José Pires Dantas, neto de Pedro Paulo de Medeiros Dantas (1845-1896) essa versão ganha contornos ainda mais vívidos na obra “Caetano Dantas e o Sítio Ingá”, escrita em 1956 pelo desembargador Silvino Bezerra Neto, descendente direto dos Dantas e membro de uma das mais ilustres famílias seridoenses resgata em sua obra tanto a sucessão fundiária do Sítio Ingá, cuja origem remonta a uma sesmaria concedida em 1684, quanto suas próprias lembranças de infância vividas naquele cenário.
Publicado como um livreto raro, o texto mistura erudição documental e ternura memorialista, apresentando-se como uma das mais belas páginas da historiografia potiguar.
O autor reconstrói, com base em inventários, certidões e escrituras, a trajetória da propriedade desde a compra por Caetano Dantas, em 1760, até sua passagem pelas mãos de seus antepassados e, finalmente, sua venda na primeira metade do século XX.
O livro em si ultrapassa o mero rigor dos documentos. É, antes de tudo, um canto de saudade. Para José Pires Dantas, a obra lida descreve vividamente o casarão branco de portas azuis, o rio coberto de flores, o Pico do Arara. Tais imagens evocam a própria alma do Seridó, uma civilização sertaneja profundamente marcada pela fé, pela dureza do chão e pela poesia da memória.
Em suas páginas, o Sítio Ingá apresenta-se não apenas como um espaço físico, mas como um símbolo potente da continuidade entre gerações. Essa percepção ganha força no fato de que seu genitor, João Rafael Dantas, residiu nessa mesma fazenda com toda a família em duas ocasiões distintas, sendo que uma delas ocorreu apenas quatro anos antes do nascimento do filho caçula, o próprio José Pires.
Ele traça a genealogia de sua família e a história das fazendas, Ingá, Carnaubinha e do vizinho sítio Volta do Rio, prestando tributo a todos os que fizeram do Seridó um território de pertencimento. Coexiste em suas notas, o valor da obra como registro raro de um tempo e de uma cultura.
E, entre os Dantas e os Medeiros, entre o patriarca Caetano e o memorialista Silvino Bezerra Neto, desenha-se uma narrativa que ultrapassa a mera genealogia para se tornar um retrato da formação do Seridó.
É a história de uma civilização seridoense 'Dantas' erguida sobre o couro, o gado e a memória, elementos que, entre o documento e a lembrança, entre a capela e a craibeira sustentam a alma profunda de um povo e o eco persistente de suas origens.
Portanto, considerando o depoimento do seridoense 'Dantas' José Pires, não devemos olvidar de Antônio Bezerra de Araújo Fernandes (1886-1967), pai de Bilé, figura entre os nomes mais expressivos da história social e moral do Seridó e importante personagem na vida do jovem estudante.
Nascido em Jardim do Seridó, a 5 de janeiro de 1886, fixou residência em Acari, onde construiu uma vida pautada pelo trabalho e pelo compromisso com o progresso de sua cidade. Era filho legítimo do segundo matrimônio do Dr. Manoel José Fernandes (1834-1907) e de Dona Maria Rosalina de Araújo Fernandes (1847-1929). Foi batizado em 14 de fevereiro de 1886, na freguesia de Jardim do Seridó, pelo padre José Antônio da Silva Pinto, tendo como padrinhos José Tomaz de Aquino Pereira e Riza Maria Pereira de Jesus.
Seu pai, o conhecido Dr. Neco, exerceu o cargo de Juiz de Direito em várias comarcas da vizinhança e chegou a ser nomeado desembargador por decreto do governador Ferreira Chaves, honraria que, por modéstia, recusou, preferindo permanecer juiz no interior.
A seguir relacionamos os irmãos de Antônio Bezerra, todos filhos do Dr. Neco com a sua genitora: Carlos Barromeo de Araújo Fernandes (1882-1968), professor em Acari; José Patrocínio de Araújo Fernandes (1887-), comerciante em Jardim do Seridó; Maria Emérita de Araújo Fernandes (1880-1960); Izabel Altiva de Araújo Fernandes (1876-1953); Serafina de Araújo Fernandes (1877-); Donina Argentina de Araújo Fernandes (1877-1938); Cândida Brazilia de Araújo Fernandes (1881-); Celsa Augusta de Araújo Fernandes (1883-1957); Maria Izabel de Araújo Fernandes (1887-1957); Anna Alice de Araújo Fernandes (1890-1963); Thereza Cecília de Araújo Fernandes (1891-1947); Verônica de Araújo Fernandes (1895-1941).
Em 4 de agosto de 1907, Antônio Bezerra de Araújo Fernandes (1886-1967) casou-se com Cândida Pires Pereira (1884-1963), filha de Antônio Pereira de Araújo (1848-1904) e de Francisca Pires de Albuquerque (1860-1886). Deste matrimônio nasceram os seguintes filhos: Maria Elita Fernandes (1909–), Letícia Jacy Fernandes (1913–1989), Manoel José Fernandes (1910–1993) e Aristóteles Bezerra Fernandes (1918–1995), além de outros cujos nomes não foram preservados na lembrança do pesquisado.
O filho Aristóteles Bezerra Fernandes contraiu matrimônio, em primeiras núpcias, com Maria de Lourdes Bezerra (1920–1947), união da qual nasceram três filhos: Antônio Bezerra Neto, conhecido por Fernandão; Eduardo Bezerra Fernandes; e Francisco das Chagas Bezerra. E viúvo de seu primeiro casamento, Aristóteles contraiu segundas núpcias, das quais adveio nova descendência a qual se inclui o filho muito inteligente e empresário que se evidenciou no ramo de network marketing Dimas Fernandes.
O legado de Antônio Bezerra de Araújo Fernandes (1886-1967) perpetua-se em toda sua descendência, v.g., o neto cognominado 'Fernandão', portador de seu honroso nome e herdeiro da propriedade colonial rural Pendanga.
'Fernandão' que estudou no Tomaz de Araújo com José Pires, notabilizou-se como funcionário da Secretaria de Fazenda do Estado, além de sobressair-se na política acariense, tendo exercido o cargo de vice-prefeito e assumido interinamente a chefia do executivo municipal em diversas ocasiões.
Os demais netos de Antônio Bezerra de Araújo Fernandes (1886-1967) pela veia de Aristóteles são Eduardo Bezerra Fernandes (n. 1945) e Francisco das Chagas Bezerra Fernandes (n.1947).
O primeiro, médico de profissão, trilhou concomitante os caminhos da vida pública, tendo exercido o cargo de prefeito do município de Acari no início do novo milênio, onde deixou reconhecida contribuição administrativa.
O segundo, Francisco das Chagas Bezerra Fernandes — 'Chico de Balá' —, notabilizou-se como agropecuarista e figura de proa na vida social e política acariense. Exerceu a vereança por duas legislaturas consecutivas, de 1989 a 1996, pautando sua conduta por exemplar espírito público.
Uniu-se em matrimônio com Lindalva Soares Dantas, união da qual advieram os filhos: Felipe Dantas Bezerra, as gêmeas Libênia Dantas Bezerra e Limênia Dantas Bezerra, além do benjamim da família, Fabrício Dantas Bezerra.
Voltando a Antônio Bezerra, podemos afirmar que era homem de princípios firmes, era avesso aos excessos da política partidária, preferindo alinhar-se àqueles que defendiam o Bem e o Direito.
Católico fervoroso, dedicava parte de suas manhãs à leitura de ‘Na Luz Perpétua’, obra de João Batista Lehmann sobre as biografias dos santos. Por sua conduta íntegra e por seu senso de dever, foi reiteradamente distinguido com nomeações para cargos de relevância, sempre conduzindo-se com altivez, equilíbrio e dignidade.
Mantinha ativa correspondência com Dom José Pereira Alves, Bispo de Natal, e com seu secretário, o cônego Melo Lula. Correspondia-se também com o padre Luiz Gonzaga Monte, trocando reflexões sobre astronomia, e demonstrava fluência em francês e latim, além de profunda admiração pela língua portuguesa. Por vezes, trocava bilhetes em francês com amigos acariense, a fim de aprimorar seus conhecimentos.
Em tempos em que o comércio de Acari permanecia aberto aos domingos, fazia questão de fechar sua loja durante a missa, reabrindo-a apenas ao término da celebração. Desempenhou papel de liderança nas atividades religiosas locais, sendo presidente da Confraria de São Vicente de Paulo e tesoureiro da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário.
Como comerciante, atuou no ramo de tecidos, granjeando confiança em diversas praças do Nordeste. Sua reputação de homem honesto, de caráter firme e de hábitos simples tornou-se conhecida muito além das fronteiras de Acari.
Embora tivesse cursado apenas o primeiro ano do ensino secundário, em Brejo do Cruz, no Estado vizinho, possuía vasta cultura e inteligência notável. Dotado de espírito dinâmico e alma sensível, foi um dos maiores entusiastas da música em Acari, incentivando a banda local sob a regência do maestro Felinto Lúcio Dantas (1898-1986).
Também fundou a Cooperativa Agropecuária Central de Acari e estimulou o desenvolvimento esportivo na cidade, sendo o responsável por organizar a primeira visita do América Futebol Clube à região.
Ao longo de sua vida pública, exerceu funções de relevo na comunidade local, sempre pautadas pela retidão.
Foi Agente do Correio em Jardim do Seridó (1906); membro da Mesa Eleitoral Estadual (1907); Agente Fiscal do Imposto de Consumo (1910), nomeado por ato do Ministro da Fazenda; Delegado de Polícia em Acari (1910); Promotor Público interino (1922), nomeado pelo Juiz de Direito Silvino Bezerra Neto; segundo suplente substituto de Juiz Federal (1923), por ato assinado pelo Presidente Artur Bernardes; e primeiro suplente substituto de Juiz Federal em Acari (1931), nomeado por ato do Presidente Getúlio Vargas. Por diversas vezes foi convidado a assumir a Prefeitura de Acari, mas, avesso à ostentação, recusou todas as nomeações.
Desse modo foi Antônio Bezerra que faleceu em Acari, a 3 de novembro de 1967, aos 91 anos, cercado pelo afeto dos filhos e netos Fernandão e Chico. Deixou para sua família e para o povo do Seridó o legado de uma vida marcada pela honestidade e pela devoção ao bem comum.
Sua memória permanece como símbolo de integridade e de compromisso moral, sendo lembrado como uma das reservas éticas mais puras da história seridoense.
Sobre o filho Manoel José Fernandes, aquele que recebe a alcunha de “Bilé”, nasceu em 3 de outubro de 1910, no município de Taperoá, no vizinho Estado da Paraíba.
O apelido “Bilé” surgiu de forma afetiva na infância, quando sua irmã mais velha, Maria Elita, nascida em 1909, chamava-o de “bebê Bié”, expressão infantil que, com o tempo, consolidou-se como o nome pelo qual seria amplamente conhecido e estimado em sua comunidade.
O nascimento de Bilé no solo paraibano decorreu de um contratempo na trajetória profissional de seu pai, então Fiscal de Consumo do Estado do Rio Grande do Norte. Por motivos de ordem política, Antônio Bezerra foi compelido a pedir demissão do cargo, o que levou a família a transferir-se para Taperoá.
Na nova cidade, buscou restabelecer a estabilidade doméstica e financeira mediante o trabalho, associando-se ao primo Francisco Bezerra de Araújo Galvão (1874–1970), proprietário de uma casa comercial no ramo de tecidos. Iniciava-se, assim, uma nova etapa em sua vida, marcada pelo labor constante e pela dedicação ao sustento e ao bem-estar dos seus.
Em 1914, a família retornou ao Rio Grande do Norte, fixando-se em Jardim do Seridó, terra natal de Antônio Bezerra. Lá, ele passou a dedicar-se à agricultura na Fazenda Touro, pertencente à matriarca Maria Rozalina de Araújo Fernandes (1847–1929), sua mãe, irmã do coronel Silvino Bezerra de Araújo (1836–1921). A propriedade situava-se cerca de um quilômetro da sede municipal.
Cinco anos depois, em 1919, quando Bilé contava apenas nove anos, a família mudou-se para Acari, estabelecendo-se na Fazenda Acauã, de propriedade de Félix Eufrásio de Araújo (1899–1979), genealogista e memorialista devidamente apresentado neste escrito, irmão de dona Cândida, esposa de Antônio Bezerra.
Nesse mesmo ano, teve início a construção da nova rodagem com destino a Natal, ocasião em que Antônio Bezerra aproveitou a oportunidade para erguer um barracão destinado à venda de gêneros alimentícios, empreendimento que lhe trouxe apreciáveis lucros e contribuiu para o restabelecimento financeiro da família.
Em 1920, os pais de Bilé adquiriram, em Acari, uma loja de tecidos pertencente ao senhor Raul Pontes. Ainda criança, então com dez anos, já auxiliava os pais nas atividades comerciais. Quatro anos mais tarde, em 1924, a loja foi vendida e substituída por um estabelecimento de maior porte, de propriedade de Antônio Basílio, então prefeito municipal.
O novo estabelecimento comercial, situado à Praça Coronel Silvino Bezerra, nº 46, passou a ser diretamente administrado por Bilé, com apenas quatorze anos de idade. Permaneceu à frente dos negócios até 1965, ocasião em que cedeu o ponto ao senhor Onessino Onésio da Silva (1924-2016).
Figurou Onessino Onésio como preeminente comerciante e Vice-Prefeito de Acari no interregno de 1977 a 1982, havendo assumido as rédeas do Executivo em reiteradas ocasiões. Era ele sobrinho de Sebastião — conhecido como 'Sebastião da Viúva' —, do Saco dos Pereiras.
Cumpre registrar, por oportuno, que a genitora do dito Sebastião, a senhora Chiquinha Viúva, fora a responsável pelos desvelos dispensados ao célebre aviador Major Hortêncio de Brito, a quem acolhera na mais tenra idade para tratá-lo das moléstias que o afligiam."
Destarte, os estudos iniciais de Bilé foram realizados no Grupo Escolar Tomaz de Araújo, onde concluiu o curso primário, equivalente ao atual ensino fundamental. Posteriormente, frequentou o Externato Spencer, instituição de prestígio organizada e dirigida pelo doutor Francisco Menezes, promotor da comarca e reconhecido educador da época.
Em 14 de novembro de 1934, contraiu núpcias com Maria do Carmo Galvão (1914–1985), filha de Francisco Braz de Albuquerque Galvão e de Izabel Bezerra de Araújo. Deste enlace adveio uma única filha biológica, Maria Izabel Fernandes de Medeiros (1938–2024), tendo o casal, não obstante, adotado outras crianças, mormente oriundas da parentela.
Maria Izabel, por sua vez, uniu-se em matrimônio ao engenheiro agrônomo Dr. Pedro Pires Gonçalves de Medeiros (1922–1975), então chefe da Estação Experimental de Cruzeta. Deste consórcio resultaram nove filhos: Natália Bertina, Mário Manoel, Maria Cândida, José Gentil, Ana Amélia, Antônio Carlos, Porfíria, Izabel Cristina e Pedro Pires Filho.
Durante o governo do interventor general Fernandes Dantas, em 1º de dezembro de 1944, Bilé fora nomeado prefeito de Acari. Sua administração destacou-se pelo zelo com a educação, pela conservação das estradas e prédios públicos e pela atenção à limpeza urbana. Ao término do governo do interventor, apresentou seu pedido de exoneração, em gesto de solidariedade política, sendo sucedido por Sérvulo Pereira de Araújo, em 1948.
Em 1954, o médico Paulo Pires Gonçalves de Medeiros, irmão do agrônomo Pedro Pires acima citado, foi eleito prefeito de Acari, tendo Bilé postulado e figurado como vice-prefeito. Durante esse mandato, ele acumulou também as funções de presidente da Câmara Municipal. Foi justamente nesse período que se emanciparam os municípios de Cruzeta, representado por Joaquim Lopes Pequeno (“Baé”) e Carnaúba dos Dantas, representado por João Cândido Filho.
Em 26 de outubro de 1958, Bilé representou oficialmente o prefeito de Acari na inauguração do Açude Público Marechal Dutra, o Gargalheiras. Na ocasião, foi servido um churrasco de confraternização aos trabalhadores que participaram da construção, obra executada sob a direção do Exército Brasileiro e a supervisão do major engenheiro Ari de Pinho que chegou a ganhar nome de bairro em Acari. Encerrada essa fase de vida pública, afastou-se das disputas eleitorais, dedicando-se integralmente às atividades rurais e à pecuária.
Com o tempo, tornou-se proprietário das fazendas Riacho da Serra e Tigre, ambas posteriormente vendidas ao comerciante Antônio Maria, de Currais Novos, em 1985 e da Fazenda Benedito, que doou à sua filha, Maria Izabel Fernandes de Medeiros.
Durante muitos anos, exerceu a função de representante correspondente do Banco do Brasil em Acari e integrou a Loja Maçônica Fraternidade e Justiça III desde sua fundação, em 17 de janeiro de 1971, sendo um de seus membros mais respeitados.
Homem de vida ativa e espírito comunitário, ele também agiu no cenário social e esportivo do município. Atleta do antigo Sport Club Acaryense, fundado em 1934, atuando ao lado de nomes expressivos do esporte local, como Aristíclo, célebre goleiro que mais tarde jogaria pelo São Paulo, Júlio Alves, os irmãos Chico Seráfico e Zé Vinício Dantas, Arcídio Pires (“Guincha”), Bibiano, Zé Moleque, Luiz Cândido, Pires, Zé Batista, Zé Artur (“Sô”), João Bosco, Zé Nunes, Severo Fernandes, Pedro Celestino, entre outros.
Além do desporto, notável foi sua atuação como líder comunitário e incentivador da juventude, engajando-se em movimentos escoteiros, oratórios e atividades de cunho social e religioso. Participou ativamente das festividades de Nossa Senhora da Guia, padroeira de Acari, e teve presença constante nas celebrações que marcavam a vida cultural e espiritual da cidade.
Do seu segundo convívio marital com Maria Martha de Araújo (1937-, mulher admirada por sua paciência e rara beleza, deixando os únicos filhos biológicos homens Fernando e Marcos, além da filha Farah Indira.
Manoel José Fernandes faleceu em 1993, deixando um legado de trabalho, honradez e dedicação à família e à terra seridoense. Sua memória permanece viva no seio da comunidade acariense, como exemplo de homem público íntegro, empreendedor e profundamente comprometido com o desenvolvimento de sua gente.
No repertório de figuras ilustres evocado pelo biografado, impõe-se a menção à sua madrinha, Dona Mônica Nóbrega Dantas (1915–2000). Ela é descrita como uma liderança feminina de singular destaque, cuja influência se fez sentir tanto no Seridó quanto no panorama mais amplo do Rio Grande do Norte.
Nascida a 4 de maio de 1915, era filha de José Evaristo de Araújo e de Dona Helena Bezerra da Nóbrega, pertencendo, assim, a uma das mais tradicionais famílias da sociedade seridoense. Seu círculo familiar incluía os irmãos Isaltina Nóbrega de Araújo, esta, esposa do Dr. José Vinício Dantas, Pedro, Francisco, Sílvio, Ney, Ivo Nóbrega de Araújo, além de outros. Por via paterna, era também meia-irmã de Peri e Peti Fernandes de Araújo, Jaci Pires Fernandes, Salete A. Carvalho (conhecida como Babá) e de outros cinco irmãos.
Dona Mônica uniu-se em matrimônio ao acariense Francisco Seráfico Dantas, conhecido como “Chico Seráfico”. Ao lado do esposo, compartilhou uma vida inteiramente dedicada à atividade política, à filantropia e à incansável promoção do bem comum.
Autêntica, decidida, inteligente e solidária, Dona Mônica, distinguia-se por seu trato refinado e por uma cultura incomum para as mulheres de sua geração. Mulher à frente do seu tempo, cultivava um espírito livre, perspicaz e profundamente sensível às causas sociais. Apesar de não ter filhos biológicos, acolheu e criou com amor e zelo maternal quatro crianças, Zita, Carlos, Rosane e Kalina, a quem educou como verdadeira mãe, transmitindo-lhes valores de retidão, generosidade e respeito ao próximo.
A vocação política de Dona Mônica manifestou-se cedo, inicialmente no apoio ao marido, que exerceu dois mandatos como prefeito de Acari. Participando ativamente da administração municipal, sobretudo nas ações de caráter social, despertou nela um interesse genuíno pela vida pública, herança, talvez, do próprio pai, José Evaristo, homem de reconhecida atuação política em sua época.
Incentivada pelo esposo e por figuras influentes como o Monsenhor Walfredo Gurgel e o então líder político Aluízio Alves, Dona Mônica alçou voo próprio na arena política, consolidando-se como uma das pioneiras do protagonismo feminino no Rio Grande do Norte. Em 1967, foi eleita a terceira deputada estadual do estado, um feito expressivo para as mulheres potiguares de então.
Sua oratória vibrante e seu carisma inconfundível cativavam multidões, tornando-a uma voz de prestígio e credibilidade tanto no Seridó quanto na região metropolitana de Natal. A partir dessa projeção, transferiu sua atuação política para o município de Macaíba, onde seu marido era empresário e proprietário da Usina de Beneficiamento de Algodão Nóbrega & Dantas.
Em 31 de março de 1963, Dona Mônica tomou posse como prefeita de Macaíba, tornando-se a primeira mulher a administrar aquele município. Governou até 31 de março de 1966, num período conturbado da história nacional, marcado pelo início do regime militar. Sua gestão destacou-se pela austeridade administrativa, pela atenção à infraestrutura e pela preocupação social.
Foi responsável pela ampliação dos serviços públicos, pela instalação de água encanada e energia elétrica, e pela abertura de novos acessos à cidade, além da criação de um ginásio de primeiro grau e de iniciativas para erradicar o analfabetismo por meio do MOBRAL. Também incentivou o fortalecimento econômico local com a consolidação da indústria Nóbrega & Dantas & Cia. Ltda., que gerou empregos e fomentou o desenvolvimento de Macaíba.
Após um período de afastamento da vida pública, retornou triunfalmente às urnas no histórico pleito democrático de 1988, sendo novamente eleita Prefeita de Macaíba. Assumiu o cargo em 1º de janeiro de 1989, permanecendo em suas funções até 31 de dezembro de 1992.
Neste segundo mandato, manteve a reconhecida dedicação à coletividade, deixando marcas concretas de sua administração. Entre os principais legados de sua gestão, destacam-se a construção e inauguração do Ginásio Poliesportivo Edílson de Albuquerque Bezerra, do Centro de Convivência de Idosos e do Palácio Auta de Souza, nova sede do Executivo Municipal.
Como nota memorialística, registra-se um fato singular. O autor do presente arrazoado, à época uma criança, esteve presente em ditos eventos inaugurais, sendo, por vezes, pessoalmente conduzido pela própria gestora. Sua gestão, pautada pela transparência e pela responsabilidade social, consolidou o legado de uma administradora moderna, sensível e comprometida com o progresso.
Embora sua carreira política tenha se desenvolvido majoritariamente em Macaíba, Dona Mônica jamais rompeu seus laços com Acari, sua terra natal. Foi ela a idealizadora da construção da maternidade municipal, empenhando-se para garantir seu pleno funcionamento.
Esse gesto sintetiza sua personalidade generosa e o apreço que nutria pelas causas humanas. Mesmo após o afastamento de Chico Seráfico da política, continuou engajada nas campanhas de aliados e permaneceu uma referência para lideranças regionais, que frequentemente buscavam seu conselho e seu apoio.
Fora da esfera pública, Dona Mônica revelou-se igualmente admirável em sua dimensão humana. Amiga leal e solidária, estava sempre disposta a amparar quem dela se aproximasse. José Pires Dantas, afilhado e testemunha próxima de sua vida, recorda com emoção os gestos generosos da madrinha.
Esses episódios ilustram o que melhor definia Dona Mônica, coragem, desprendimento e profundo senso de humanidade. Mulher de fibra acariense, marcada pela firmeza de caráter e pela compaixão, ela dedicou a vida a servir, força política, permanece como exemplo de liderança ética e de comprometimento social.
Ela faleceu em 18 de julho de 2000, aos oitenta e cinco anos de idade, deixando um legado de realizações que ultrapassa os limites do tempo e do espaço. Sua memória resiste na história potiguar como símbolo de pioneirismo, solidariedade e amor à terra. Mulher de palavra firme e coração generoso, ela foi e continua sendo um dos mais nobres exemplos de cidadania, fé e serviço público que o Rio Grande do Norte já conheceu.
Parte 10 – DO ANEXO GENEALÓGICO
João Raphael Dantas (1888/1975) esposo de Joanna Petronila de Medeiros (1897/1980).
João Raphael¹ - Pedro Paulo² - Manoel Salustiano³ - Maria Renovata⁴ - Silvestre⁵ - Caetano⁶
1. João Raphael Dantas (1888/1975); Joanna Petronila de Araújo (1897/1980).
2. Pedro Paulo de Medeiros Dantas (1845/1896); Maria Benta de Albuquerque (1848/1926).
3. Manoel Salustiano de Medeiros (1814/?); Cândida Esmeraldina Dantas (1814/?).
4. Maria Renovata dos Santos (1791/?); Pedro Paulo de Medeiros (1781/1896).
5. Silvestre José Dantas Correa (1768 – 1846); Margarida Maria de Jesus (1771/1848).
6. Caetano Dantas Correia (1710/1797); Josefa de Araújo Pereira (1739/1816).
Joanna¹ - José² - Tomás³ - Ana⁴ - Thomaz⁵
1. 1. Joanna Petronila de Araújo (1897/1980); João Raphael Dantas (1888/1975).
2. 2. José Thomaz de Araújo (1845/1930); Maria Thereza de Jesus (1870/1952).
3. 3. Tomás Lopes de Araújo (1818/1856); Maria Edeltrudes de Medeiros (1821/1856).
4. 4. Ana Maria da Circuncinsão (1795/1837); Manoel Lopes Pequeno (1794/1881).
5. 5. Thomaz de Araújo Pereira (1765/1847); Thereza de Jesus (1761/1848).
São seus avós, respectivamente:
1. Pedro Paulo de Medeiros Dantas (1845/1896);
2. Maria Benta de Albuquerque (1848/1926);
3. José Thomaz de Araújo (1845/1930);
4. Maria Thereza de Jesus (1870/1952).
Bisavós:
1. Manoel Salustiano de Medeiros (1814/?);
2. Cândida Esmeraldina Dantas (1814/?);
3. Antônio Pires de Albuquerque Galvão Júnior (1823/1871);
4. Porfíria Alexandrina de Jesus (1832/);
5. Tomás Lopes de Araújo (1818/1856);
6. Maria Edeltrudes de Medeiros (1821/1856);
7. Joaquim Simplício Dantas (1830/1913);
8. Thereza Maria de Jesus (1839/1918).
Trisavós:
1. Pedro Paulo de Medeiros (1781/1896);
2. Maria Renovata dos Santos (1791/?);
3. Antônio Dantas Correia (1780/1853);
4. Joanna Francisca Dantas (1770/1842);
5. Antônio Pires de Albuquerque Galvão (1797/1857);
6. Guilhermina Francisca de Medeiros Rocha (1802/1840);
7. Antônio Pereira de Araújo (1781/1851);
8. Maria José de Medeiros (1788/1858);
9. Manoel Lopes Pequeno (1794/1881);
10. Ana Maria da Circuncinsão (1795/1837);
11. José Barbosa de Medeiros (1777/1881);
12. Ana Violante de Medeiros (1802/1896);
13. Manoel José Dantas Correa (1795/);
14. Maximiana Maria da Conceição (1800/1882);
15. José da Annunciação Dantas (1814/1898);
16. Ana Francisca de Jesus (1821/1902).
Tetravós:
1. Manoel de Medeiros Rocha (1755/1837);
2. Anna de Araújo Pereira (1760/1834);
3. Silvestre José Dantas Correa (1768 – 1846);
4. Margarida Maria de Jesus (1771/1848);
5. Caetano Dantas Correia (1710/1797);
6. Josefa de Araújo Pereira (1739/1816).
7. Sebastião Dantas Correia;
8. Rosa Dantas Correia (1754/1811);
9. Antônio Pires Galvão (1770/1821);
10. Theodora Maria de Jesus (1780/);
11. Manoel de Medeiros Rocha (1755/1837);
12. Anna de Araújo Pereira (1760/1834);
13. João Damasceno de Araújo (1743/1796);
14. Maria dos Santos de Medeiros (1743/1833);
15. Thomaz de Araújo Pereira (1765/1847);
16. Thereza de Jesus (1761/1848).
17. Simplício Francisco Dantas (1755/1828);
18. Manoela Dorneles Bittencourt (1762/1784);
19. José Dantas de Azevedo (1776/1872);
20. Thomazia Maria da Conceição (1784/);
21. Gregório José Dantas Correia (1756/1840);
22. Thereza Maria de Jesus (1781/);
23. Manoel Batista dos Santos (1804/);
24. Maria Magdalena de Jesus (1803/1885).
Pentavós:
1. Rodrigo de Medeiros Rocha (1709/1757);
2. Apolônia Barbosa de Araújo (1719/1802);
3. Antônio Paes de Bulhões (1718/1788);
4. Anna de Araújo Pereira (1741/1801);
5. Caetano Dantas Correia (1710/1797);
6. Josefa de Araújo Pereira (1739/1816);
7. João Damasceno de Araújo (1743/1796);
8. Maria dos Santos de Medeiros (1743/1833);
9. José Dantas Corrêa (1651/1727);
10. Isabel da Rocha Meirelles (1696/1727);
11. Thomaz de Araújo Pereira (1701/1781);
12. Maria da Conceição de Mendonça (1718/1779);
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14. ?
15. Gregório José Dantas Correa (1712/1759);
16. Joanna de Araújo Pereira (1740/1818);
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18. ?
19. ?
20. ?
21. Rodrigo de Medeiros Rocha (1709/1757);
22. Apolônia Barbosa de Araújo (1719/1802);
23. Antônio Paes de Bulhões (1718/1788);
24. Anna de Araújo Pereira (1741/1801);
25. Thomaz de Araújo Pereira (1701/1781);
26. Maria da Conceição de Mendonça (1718/1779);
27. Rodrigo de Medeiros Rocha (1709/1757);
28. Apolônia Barbosa de Araújo (1719/1802);
29. Thomaz de Araújo Pereira (1735/1802);
30. Thereza Maria de Jesus (1744/1835);
31. Antônio Garcia de Sá Barroso (1725/1793);
32. Ana Lins de Vasconcelos (1725/1807).

IRMÃO CAÇULA
O nome José Pires Dantas inscreve-se entre aqueles que, no silêncio fecundo da memória sertaneja, guardam não apenas a herança de um indivíduo, mas a continuidade de uma tradição familiar profundamente enraizada no solo do Seridó potiguar.
Ele nasceu no Sítio Volta do Rio, encravado na Ribeira da Acauã, município de Acari, Rio Grande do Norte, em 1º de novembro de 1939, às três horas da tarde.
Filho de João Rafael Dantas (1888–1975) e de Joanna Petronila de Medeiros (1897–1980), sua ascendência o ligava a antigas famílias do lugar que, ao longo de gerações, contribuíram para a formação histórica e cultural da região. A árvore genealógica que o antecede revela essa rede de famílias tradicionais, unidas por laços de sangue e de história.
No ramo paterno e materno, encontram-se figuras representativas da comunidade seridoense oitocentista, que são os avós Pedro Paulo de Medeiros antas (1845–1896) e Maria Benta de Albuquerque (1848–1926), bem como José Thomaz de Araújo (1845–1930) e Maria Thereza de Jesus (1870–1952).
Nos bisavós, o enraizamento das origens torna-se ainda mais evidente. Entre eles figuram Manoel Salustiano de Medeiros (1814–1869) e Cândida Esmeraldina Dantas (1814–1857); Antônio Pires de Albuquerque Galvão Júnior (1823–1871) e Porfíria Alexandrina de Jesus (1832–?); Tomás Lopes de Araújo (1818–1856) e Maria Edeltrudes de Medeiros (1821–1856); bem como Joaquim Simplício Dantas (1830–1913) e Thereza Maria de Jesus (1839–1918).
Remontando ainda mais no tempo, aos trisavós, desvelam-se os primeiros troncos familiares que deram origem às linhagens que hoje o representam. Estão entre eles Pedro Paulo de Medeiros (1781-?) e Maria Renovata dos Santos (1791–?); Antônio Dantas Correia (1780–1853) e Joanna Francisca Dantas (1770–1842); Antônio Pires de Albuquerque Galvão (1797–1857) e Guilhermina Francisca de Medeiros Rocha (1802–1840); além de Antônio Pereira de Araújo (1781–1851) e Maria José de Medeiros (1788–1858).
São nomes que pertencem à raiz do Seridó e que, segundo os registros de época, participaram do processo de povoamento, da fundação de fazendas e da consolidação das primeiras famílias que estruturaram a vida social e econômica do sertão norte-rio-grandense e paraibano.
Esses nomes, associados à vida agrária e à religiosidade, testemunham o vigor moral e a perseverança de um tempo em que a família constituía o eixo de coesão social e o fundamento da autoridade local.
De modo que essas figuras compõem o grupo da comunidade seridoense em formação, marcada em sua grande maioria pelo trabalho rural, pela fé e por uma visão de mundo que conciliava tradição e resistência diante das intempéries do semiárido e das transformações políticas do Império e da República nascente.
Tal qual, a genealogia do homenageado transcende a simples enumeração de nomes e datas. Ela constitui um quadro real da memória seridoense, onde cada antepassado representa uma etapa da formação regional e um elo na corrente de transmissão dos valores da honra, da religiosidade e do labor.
Trata-se de uma herança cultivada com o mesmo zelo com que se cultiva a terra. Tal legado refletiu-se no seu próprio percurso intelectual e humano, que, ao longo de sua vida, preservou o vínculo entre ciência, cultura e identidade.
Como se observa da genealogia ora explorada, compreender tais raízes é compreender também a alma do sertão, sua persistência, seu senso de pertencimento e sua capacidade de renascer, geração após geração, mesmo nas paisagens mais áridas, o que é o caso da região Seridó.
Assim, a linhagem do personagem ora retratado está entrelaçada a tantos ramos nobres da história do Seridó e, é, portanto, mais do que um registro familiar, é assim dizer um testemunho da longevidade moral de uma terra que fez da memória o seu modo de eternidade.
Filho caçula de uma prole de sete irmãos, quatro homens e três mulheres. No seio familiar, o pequeno José era chamado carinhosamente de Zinha, apelido que, nascido da intimidade do lar sertanejo, ultrapassou as porteiras do sítio e o acompanhou também na cidade.
Em Acari, ficou conhecido como José, mas em outros lugares, era chamado simplesmente Zé Pires, Pires ou Professor Pires, denominações que o identificavam tanto nos bancos escolares quanto entre amigos e colegas.
Sua infância transcorreu em meio ao labor do campo, num Brasil que, em 1939, mergulhava nos anos finais do Estado Novo de Getúlio Vargas, período em que o país se modernizava lentamente, enquanto o interior nordestino permanecia ancorado em tradições seculares.
No sertão, o trabalho era o alicerce da vida familiar, e, como era comum à época, as crianças iniciavam cedo suas tarefas. E com ele não foi diferente, logo aos sete anos, já participava das lides domésticas, auxiliando a mãe nas hortas, no cuidado com os pequenos cultivos e, aos dez, passou a ser o responsável pelo abastecimento de água da residência.
A rotina era árdua, mas formadora. Diariamente, o menino tinha de irrigar as hortaliças, buscando a água nos antigos galões de querosene, barris de quinze litros. Essa segunda tarefa o obrigava a realizar até quatro viagens e também carregar por dia para suprir as necessidades da casa.
Desde cedo, ele aprendeu a lidar com o gado, assumindo com zelo o cuidado da vacaria e dos bezerros do curral. Conhecia cada animal pelo nome e mantinha com o rebanho uma espécie de comunicação instintiva, marcada por afeto e costume.
As vacas respondiam ao chamado de seus bezerros, e estes obedeciam prontamente ao comando do pequeno vaqueiro. Nomes como “Amarelinha”, “Cara Preta” e tantos outros permanecem vivos em sua memória afetiva, testemunhos de uma infância em que o trabalho se entrelaça à ternura e ao respeito pelos seres do campo.
Seu pai, João Rafael Dantas (1888-1975), era homem de labor incansável, convicto de que o valor do indivíduo se media pelo amor à terra e pela dignidade do esforço diário.
Possuía uma gleba rural com cerca de cento e noventa hectares, que se estendia por terrenos de relevo granítico tipo inselberg (ou, como dizem os sertanejos, serra ou serrote, dependendo da altura do relevo), e no alto dessa elevação, havia uma superfície plana que, durante o inverno, transformava-se em rica pastagem, quando as chuvas faziam brotar o verde e a vida renascia sobre o chão pedregoso do sertão.
Essa propriedade, a Volta do Rio, era vizinha à lendária fazenda Carnaubinha. Esta fazenda vizinha outrora pertencera à sua avó, Maria Benta, e nessa época pertencia ao seu tio, Antônio Pires de Albuquerque Galvão (1849-1934) — o afamado Major Pires, irmão de Maria Benta. A própria Volta do Rio, por sua vez, havia sido formada por uma parte herdada de seu sogro, José Thomaz de Araújo (1845–1930), e outra adquirida do primo legítimo, Francisco Elviro Pires Galvão (1874-?), filho do Major Pires.
Era nesse cenário que o ‘fim de rama’ acompanhava o pai nas tarefas de vaqueiro, conduzindo o gado pelas veredas e absorvendo, no compasso das caminhadas nas trilhas, o saber empírico transmitido de geração em geração. Entre uma lida e outra, João Rafael narrava histórias antigas, memórias dos ‘antigos’, causos de seca e fartura, lembranças de tempos difíceis e de superação.
O destino de ambos os conduzia, invariavelmente, à Serra do ‘Pai Pedro’. Ali, em 1946, logo após o término da Segunda Guerra Mundial, seu pai realizou duas grandes obras. Primeiro, edificou uma casa de alvenaria no topo da Serra, que mais tarde, na década de 1950, serviria de residência à família do irmão mais velho de Zé Pires. Segundo, e com as próprias mãos, construiu um tanque, um considerável reservatório de pedra e cal para armazenar as águas pluviais.
A veterinária Joana Pires, sobrinha do personagem, relata a gestão da propriedade rural que pertencera a seu avô, um testemunho que reflete sobre as intervenções de engenharia destinadas a controlar os caprichos da natureza e garantir a subsistência familiar.
Os temas que permeiam essa narrativa incluem o legado das construções, sua durabilidade ao longo do tempo e as mudanças no domínio da terra. Dois projetos principais se destacam: a construção de um muro para desviar a fúria do rio Acauã propenso a enchentes devastadoras e a criação do tanque de água acima mencionado, edificado em 1946, que resiste até os dias de hoje.
O relato revela a dualidade dos resultados da intervenção no rio, que, embora tenha protegido as principais culturas, ocasionou a destruição de um coqueiral. Joana descreve uma luta incessante contra as cheias de um rio local, que ameaçavam a viabilidade agrícola da propriedade. O problema se manifestava no fato de que o rio, localizado na parte hidrográfica da propriedade, transbordava de maneira severa durante as cheias, alcançando uma proximidade alarmante da residência, com relatos indicando que as águas chegaram a estar a apenas 30 metros de casa.
As enchentes causavam destruição em larga escala nas áreas de cultivo, devastando as plantações de bananeiras, milho, feijão e mangueiras. Diante dos danos recorrentes, o patriarca da família decidiu intervir diretamente no curso do rio, afirmando resolutamente: “Sabe uma coisa, eu vou ajeitar esse rio.” A primeira tentativa consistiu em um grande muro, construído com cimento e arame, que, no entanto, sucumbiu à primeira enchente subsequente. Em uma segunda tentativa, mais bem-sucedida, o muro foi reconstruído com uma estrutura mais robusta, capaz de conter e desviar eficazmente o fluxo principal do rio.
Os resultados, embora positivos em parte, revelaram uma consequência não intencional que era a intervenção para proteger as principais áreas de cultivo, assegurando que "não mexeu mais com o sítio de banana, a nossa várzea de plantar milho, feijão, etc." No entanto, o desvio do rio levou a correnteza a invadir uma área da propriedade onde se encontrava um coqueiral, resultando na destruição completa do coqueiral e devastando cerca de 20 pés de coqueiro.
A sobrinha também destaca a construção de estruturas na serra, que demonstram notável longevidade e importância para a memória da família. Como dito, o tanque de água foi edificado em 1946, situado "lá em cima da serra", construído com "pedra e cal", um método tradicional, dado que o cimento era escasso à época.
A estrutura mantém-se funcional e em seu estado original até os dias de hoje, evidenciando uma construção robusta que sobreviveu ao tempo. João Rafael frequentava o local, demonstrando confiança na estrutura ao caminhar sobre sua parede. Outras construções são citadas, incluindo um segundo tanque, edificado com tijolos e localizado "por trás da casa da serra".
Outros sobrinhos recordam terem visitados este segundo tanque em 1988, acompanhado do tio Antônio, irmão de José Pires, e mencionam uma casa na serra que, com o tempo, desabou. Mencionam detalhes sobre a transferência de terras e a identificação de locais específicos, evidenciando um profundo conhecimento da geografia local e de seu histórico de posse.
As mudanças na posse da terra são registradas de forma clara: uma parte da terra foi vendida por Seu Jornar ao patriarca, que posteriormente a vendeu a Eloi; outra parte foi adquirida prontamente por Eloi, que ainda é visitada em tempos recentes. Já a serra inteira teve um proprietário indeterminado, que atualmente é Zeca, outro neto de João Rafael.
A topografia da região é ainda enriquecida com referências a "Furna", um local específico na serra, descrito como "um canto" onde os "andorinhões vinham". A origem dessa informação remonta à menção feita pela própria Joana, que soube do fato através de uma conversa entre o avô, "vovô" como expressa Joana, e "seu Zé Vinício". Por fim, persiste a dúvida se "A Furna" pertencia à propriedade da família ou à terra de "seu Zé Vinício".
Esse relato feito pela veterinária preserva a riqueza da memória histórica, contemplando a gestão da propriedade rural e as transformações que a acompanharam ao longo do tempo.
Naquele tempo, o Brasil vivia um período de reconfiguração nacional, pois encerrava-se o conflito global, e o país, que havia participado com a Força Expedicionária Brasileira, começava a viver os ventos da reconstrução e da industrialização. Em Acari, contudo, o ritmo permanecia o mesmo e a vida seguia o compasso das chuvas e das secas.
José Pires recorda que o pai possuía uma memória prodigiosa, capaz de relatar, com precisão, eventos climáticos de décadas passadas. Um de seus relatos preferidos referia-se ao ano de 1904, quando, em 14 de maio, num ano já dado como seco e perdido, teve início uma das mais promissoras invernadas da região, embora alguns estudiosos o tenham registrado como um ano seco.
A pastagem foi farta, mas o povo, desconfiado, não plantou, perdendo a oportunidade da abundância. Esses causos, transmitidos oralmente, reforçaram no jovem garoto a noção de que, no sertão, a sabedoria ancestral e a prudência eram virtudes indispensáveis.
O ano de 1953, porém, foi de seca rigorosa, contrastando com o seguinte, 1954, em que as chuvas foram generosas. O rebanho familiar, então reduzido a sessenta cabeças, passou a ser o principal sustento econômico da casa.
O leite e seus derivados garantiam uma renda semanal, suprindo o necessário para a manutenção da família. Ademais, o sítio Volta do Rio era praticamente autossuficiente. Produzia frutas, verduras e legumes, criava animais pequenos, médios e grandes, além do lucro com a plantação do algodão e outras culturas. Só se comprava a carne, eventualmente, para evitar o abate do próprio gado.
Durante os bons invernos, o cenário transformava-se mais ainda. Milho, feijão, batata e outros cultivos brotavam em abundância. O rio Acauã, que serpenteava pela gleba, era fonte de vida.
Nas férteis margens de sua propriedade, o provedor cultivava com dedicação a batata-doce, repartindo sempre parte da colheita — o equivalente a um terço — com os moradores vizinhos da Fazenda Carnaubinha, pertencente a seu primo legítimo, Horácio Pires Galvão (1891-1951), outro filho do Major Pires.
Era esse gesto de partilha, nascido do parentesco e da solidariedade, que alicerçava a vida comunitária sertaneja. Nada se perdia ou permanecia ocioso, pois cada palmo de terra era aproveitado com engenho e esforço, revelando o senso prático e cooperativo que marcava a economia doméstica do interior.
Além das lavouras, João Rafael extraía das encostas e grotas da Serra a preciosa borracha de maniçoba, abundante na região. Esse látex, retirado da ‘Manihot glaziovii’, árvore nativa da caatinga, representou um ciclo econômico de grande importância entre o final do século XIX e as primeiras décadas do XX. A extração e o beneficiamento da borracha de maniçoba movimentaram o comércio local, tornando-se fonte de sustento para muitas famílias sertanejas e servindo de matéria-prima para a fabricação de pneus, luvas médicas e diversos outros produtos industriais.
Entre os anos de 1897 e 1913, a exploração atingiu seu auge, embora marcada por condições de trabalho difíceis e, muitas vezes, desumanas. Ainda assim, constituiu um capítulo relevante da história econômica nordestina, ligando o sertão às dinâmicas comerciais do país e do mundo.
Com o passar das décadas, porém, a atividade entrou em declínio. A concorrência da borracha extraída da seringueira, de maior produtividade e menor custo, somada às sucessivas crises do mercado, levou ao colapso do extrativismo da maniçoba. Hoje, restam apenas memórias desse tempo em que o sertanejo, com engenho e resistência, fazia brotar riqueza mesmo das entranhas áridas da caatinga, um testemunho eloquente da sua inventividade e de sua inquebrantável relação com a terra.
Mas na Volta do Rio as manhãs começavam cedo. O menino 'Zinha' despertava por volta das quatro horas para o auxílio no manejo do gado leiteiro e, depois, levava parte do leite à tia Ana Febrônia de Araújo, irmã de sua mãe. Ela morava a duas léguas de distância e fabricava queijos de coalho, manteiga e a apreciada manteiga de garrafa.
A rotina era pesada, mas o caçula cumpria suas obrigações com disciplina. Após o trabalho com o gado e o transporte da água, ainda auxiliava a mãe nas hortas, aguando com os galões d’água e cuidando das verduras, em sua maioria pimentão, cebola, coentro, maxixe e até tomates do tipo maçã que chegavam a pesar meio quilo.
O café da manhã quebrava o jejum com leite, cuscuz, ovos, queijos, frutas, pães, biscoitos caseiros e bolos feitos por sua mãe. Já o almoço era simples e farto, composto de feijão macassar com toucinho de porco, arroz de leite, carne de sol, farofa, maxixada, batata-doce e verduras.
Para a sobremesa, havia doce de leite, chouriço e rapadura. Lembrando que nessa época se tinha por hábito uma outra refeição, costumeiramente denominada de ceia e geralmente, o jantar era composto de coalhadas ou sopas, enfim, o alimento básico do sertanejo.
Importante lembrar que a culinária à base de carne no sertão nasceu da subsistência. Em um local sem refrigeração, era essencial salgar, secar ou cozinhar a carne em sua própria gordura para garantir sua conservação. Além disso, o princípio do aproveitamento integral era fundamental, pois nada do animal era desperdiçado, dando origem a pratos como a buchada e o sarapatel, que hoje são iguarias apreciadas.
O sustento vinha também das lavouras de arroz e algodão, este último conhecido como o ouro branco, que, nas décadas de 1940 e 1950, sustentava a economia de boa parte do Nordeste. Destarte, foi nesse ambiente que José Pires iniciou sua vida escolar. Sua formação escolar iniciou-se cedo, na escola primária da fazenda Bulhões, situada próxima ao Sítio Volta do Rio, destinada para uma antiga estação experimental de algodão.
O Brasil de então via nascer as primeiras políticas de incentivo à educação rural, enquanto o sertão ainda se alfabetizava à sombra das palmatórias e das tabuadas. Sua primeira professora foi dona Maria Francisca, mulher exigente e severa, que ensinava leitura, escrita e contas com os métodos tradicionais da época.
Ele ingressou na escola influenciado pelo pai, que, embora tivesse estudado apenas quinze dias, era leitor assíduo da Bíblia e dos folhetos de cordel, além de profundo conhecedor das histórias e genealogias da região.
João Rafael era um homem de memória viva, recebendo frequentemente a visita de estudiosos, historiadores e curiosos que buscavam registrar os causos e tradições do lugar. Entre estes, contava-se o historiador Antônio Quintino Filho, parente de Currais Novos.
A obra de Quintino, "História de Currais Novos", ganhou relevo pelo método de pesquisa adotado, sendo reconhecida por estudiosos e figuras públicas que elogiaram o rigor e a profundidade da investigação, a qual se tornou uma referência valiosa sobre a história da cidade.
O autor dedicou sua vida a pesquisar e a compartilhar a sabedoria adquirida de forma discreta e exemplar, considerando seu livro um trabalho "de muitos", iniciado em 1958. Em seus agradecimentos, o historiador expressa profunda gratidão ao vasto número de colaboradores, evidenciando, dentre eles, o pai de José Pires.
O historiador Antônio Quintino registra ter estado na casa de João Rafael, no município, por volta de 7 ou 8 de julho de 1962, ocasião em que colheu informações "notadamente genealógicas e históricas".
Com efeito, em torno da palavra de João Rafael Dantas, muitas figuras proeminentes encontraram um retrato fiel da cultura seridoense, feita de confiança, trabalho e lembrança. Entre esses homens, destacam-se nomes como José Augusto Bezerra de Medeiros (1884-1971), Juvenal Lamartine de Faria (1874-1956) e Luís da Câmara Cascudo (1898-1986).
O primeiro, José Augusto Bezerra de Medeiros, era natural de Caicó. Filho de Manoel Augusto Bezerra de Araújo e de Cândida Olindina de Medeiros, foi escritor, historiador, genealogista, advogado e político da maior expressão. Governou o Rio Grande do Norte e representou-o na Câmara Federal por várias legislaturas. Embora reeleito Senador da República em 1930, teve seu mandato prejudicado pelo movimento revolucionário que eclodiu no país naquele ano e dissolveu o Congresso Nacional. Faleceu a 28 de maio de 1971, no Rio de Janeiro.
O segundo, Juvenal Lamartine de Faria, era natural de Serra Negra do Norte, cidade vizinha a Caicó e, foi um advogado, jornalista, magistrado e político. Atuou como deputado federal e senador. Foi governador do estado do Rio Grande do Norte por dois anos e nove meses, sendo destituído com o advento da Revolução de 1930. Exilou-se na França.
Por fim, o terceiro, Luís da Câmara Cascudo, nascido em Natal, é um dos intelectuais mais célebres do país. Historiador, sociólogo, antropólogo, folclorista, professor e jornalista, formou-se pela Faculdade de Direito do Recife em 1928. Passou toda a sua vida em Natal, dedicando-se ao estudo da cultura brasileira, sendo um expoente do modernismo e do regionalismo.
Nesse contexto cultural efervescente do Seridó, não se deve olvidar a figura de Félix Eufrâsio de Araújo (1899-1979), da Fazenda Acauã, próxima da Volta do Rio. Primo e grande amigo de João Rafael Dantas, Félix Pereira era seu principal parceiro na prosa e na pesquisa. Ambos formavam um núcleo de preservação da memória local, recebendo juntos curiosos e os escritores acima citados em suas residências.
Essa dedicação à história, entretanto, gerava protestos corriqueiros de suas esposas. Elas argumentavam que as recepções repentinas atrasavam as atividades do cotidiano e aumentavam os afazeres domésticos, tudo por conta de conversas que, segundo a pragmática ótica feminina da época, pareciam não gerar resultados econômicos, trocando em miúdos, coisa ‘sem futuro’.
Conhecido carinhosamente como "Tio Félix" ou, mais comumente, "Félix Pereira", foi um dos últimos patriarcas da tradicional família da Acauã. Nascido em Acari (06 de agosto de 1899) e falecido em 02 de novembro de 1979, era filho de Antônio Pereira de Araújo (1848-1904) e de dona Thereza Pires de Albuquerque (1865-1915), esta última prima legítima de Maria Benta, genitora de João Rafael Dantas.
Casado com dona Júlia Medeiros (1911-?), deixou numerosa descendência. Foram seus filhos: João Bilro Pereira (in memoriam), comerciante e ex-vereador em Acari, casado com Célia Meneguine Pereira; Antônio Pereira de Araújo, motorista, casado com a professora Maria do Socorro Azevedo Pereira, residentes em Acari, pais de Sânzia (casada com Gustavo Braz - neto de José Braz de Albuquerque Galvão), Sueni e Suézia; Geraldo Pereira de Araújo, industriário, casado com a auxiliar de enfermagem Maria Aparecida Guimarães de Araújo, residentes em São Paulo; Silvino Pereira de Araújo, funcionário autárquico, casado com Iraci Pereira de Araújo, residentes em Natal; e Tereza Pires de Araújo, conhecida por “Tequinha”, funcionária pública em Acari, a quem o pai recorria para transcrever suas falas e anotações.
O casal também teve o filho Ivo Pereira de Araújo, nascido em 1933, que faleceu prematuramente, aos quatro anos de idade, na Fazenda Acauã. Conta-se que, pouco antes de sua morte, o menino teve uma premonição, apontando para o alto enquanto balbuciava “mamãe - céu”, gesto que marcou profundamente sua mãe.
Homem de probidade, Félix Pereira foi um católico fervoroso, colaborador assíduo nos movimentos religiosos de sua cidade e integrante de diversas entidades pias. Na vida profissional, embora fosse agricultor e pecuarista, exerceu por muitos anos o cargo de Tesoureiro da Casa da Lavoura em Acari, pautando-se sempre pela honestidade e pontualidade absoluta, tendo solicitado demissão por vontade própria em 1958.
Sua maior contribuição, no entanto, repousava em seu intelecto. A exemplo de João Rafael, "Tio Félix" era um profundo conhecedor da genealogia das famílias do Seridó e um atento observador de tudo o que se passava na região. Por essa razão, tornou-se também uma fonte de consulta indispensável para quantos se dedicavam à pesquisa de fatos, personagens e tradições, não apenas de Acari, mas de todo o Seridó potiguar. Foi, inclusive, biografado e reconhecido na briosa obra literária ‘Relembrando o Passado’, de José Pires Fernandes e Luiz G. M. Bezerra, prefaciada por Celestino Alves.
Faleceu aos oitenta anos de idade, conservando plena lucidez até os últimos dias. Casado com dona Júlia Medeiros, deixou vasta descendência, incluindo a filha Tereza Pires de Araújo, a "Tequinha", a quem o pai, ciente do valor de suas memórias, frequentemente pedia para transcrever suas falas, o que notadamente, ajudaria a preservar esse rico acervo para a posteridade, mas ela declinou da ideia.
Parte 2 – Juventude e formação
No início da década de 1950, o Brasil vivia um tempo de esperança e reconstrução. O país voltava a ser governado por Getúlio Vargas, agora eleito pelo voto direto em 1951, e via-se às voltas com os desafios da modernização e da justiça social.
No interior do Rio Grande do Norte, entretanto, a vida seguia quase imutável. Entre as veredas do Seridó, José Pires Dantas crescia sob a influência do trabalho, traço marcante da formação moral de sua família.
Foi nesse período que o Brasil começava a experimentar as transformações sociais e econômicas do governo Vargas, a exemplo do crescimento da Companhia Siderúrgica Nacional, o fortalecimento da Petrobras (criada em 1953) e o discurso nacionalista de “o petróleo é nosso” ganhavam espaço no imaginário popular.
Mesmo distante dos centros urbanos, José Pires era parte de uma geração que se alfabetizava em meio à esperança de um país que buscava conciliar progresso e tradição. A rotina de estudos e trabalho formou nele o senso de responsabilidade e disciplina que o acompanharia por toda a vida.
Em 1954, com quinze anos, concluiu a quarta série primária, sob a orientação de sua irmã, Francisca Pires Dantas, mãe de Joana D'arc, mais tarde casada com o primo Antônio Pires Galvão, passando a assinar-se Francisca Pires Galvão. Dessa forma, ele repetia o último ano, a quarta série, não por reprovação, mas porque a escola local não oferecia continuidade ao curso.
O ano seguinte, 1955, foi particularmente promissor, choveu bem a partir de abril, e a família teve fartura nas colheitas. Seu pai, ante a promessa de um ano bom de inverno, decidira enviá-lo à cidade para que desse sequência aos estudos, na companhia da irmã Teresa Pires e da prima Francisca Anita de Araújo, filha de Ana Araújo e José Francisco Julião, aqueles tios fabricantes de queijo.
Começava ali a segunda etapa da vida de José Pires Dantas, do sítio para a "rua", em busca de novos horizontes. O patriarca proferiu: "José, este ano você vai para a 'rua' concluir esse seu quinto ano".
Aos dezesseis anos, passou a frequentar o restante do primário para concluir o primário, inexistente na zona rural, sob a orientação da professora Almira Araújo, mulher de grande competência e filha do respeitado senhor Tomaz Rosendo de Araújo (1881-.
Foi Almira quem o alertou sobre a necessidade de realizar o teste de admissão, uma espécie de redação obrigatória para prosseguir nos estudos. O tema proposto foi “Nossa Senhora da Guia” e, embora o jovem tenha cometido a pequena falha de omitir o “u” na palavra “Guia”, redigiu um texto sensível e coerente, conquistando a aprovação e o respeito de sua mestra.
José Pires distinguia-se como aluno aplicado e disciplinado. Seu percurso diário estendia-se do Grupo Escolar Tomás de Araújo até a residência da família, situada na Rua da Matriz, número 94, mais tarde renumerada como 92, no centro de Acari.
Essa casa, iluminada apenas por lampiões de querosene, guardava memórias de uma juventude ordeira e serena. As compras do dia a dia eram feitas na mercearia tradicional de dona Vicência e, certa vez, ao comprar querosene, José emocionou-se ao ouvir, pela amplificadora municipal, o Hino de Nossa Senhora de Fátima. O canto sacro despertou nele profunda saudade da mãe, pela qual nutria sincero amor e devoção.
O Dia de Nossa Senhora de Fátima é celebrado em 13 de maio. Esta data marca a primeira aparição de Nossa Senhora aos três 'pastorinhos' (Lúcia, Francisco e Jacinta) na Cova da Iria, em Fátima, Portugal, que ocorreu em 13 de maio de 1917.
A vizinhança da Rua da Matriz compunha um pequeno microcosmo da vida interiorana. Ao lado da casa 92 morava a costureira Antônia Ernesto. O comportamento reservado do jovem estudante, que se limitava a frequentar a escola, a igreja e, pela necessidade cotidiana, o comércio, tornava-o alvo de brincadeiras por parte da costureira.
Era chamado, em tom de pilhéria, de “beradeiro” e “brocoió”, adjetivos populares para quem, na época, preferia a reclusão à boemia das calçadas. No entanto, jamais reagia, pois via nisso apenas o humor costumeiro de uma cidade pequena, onde todos se conheciam.
Na escola, os estudos eram regidos por manuais que reuniam as disciplinas básicas, português, matemática, ciências, história e outras, contendo, nas margens, as datas comemorativas da história nacional. Foi num desses exercícios que ele escreveu uma redação sobre o Dia da Independência do Brasil, tema que lhe valeu destaque entre os cerca de vinte e cinco colegas de turma.
Figuravam entre seus companheiros personalidades que, mais tarde, viriam a adquirir notoriedade local. Entre elas, contavam-se Breno, filho do médico Dr. Odilon, e Antônio Bezerra Neto, popularmente conhecido como Fernandão. Este último — agropecuarista, auditor fiscal e político — é pai do atual prefeito, Fernando Antônio Bezerra."
No encerramento do curso, foi o primeiro a ser chamado para receber o diploma. A cerimônia teve como paraninfa dona Mônica Nóbrega Dantas (1915-2000), esposa de Francisco Seráfico Dantas (1912-2009), ambos padrinhos de batismo dele e parentes da família. Era um momento de grande alegria e de orgulho para João Rafael, que via o filho mais novo alcançar um patamar que ele próprio não tivera oportunidade de atingir.
Entretanto, o término dos estudos primários trouxe um impasse. João, homem prático e objetivo, comunicou ao filho que não poderia mais custear seus estudos, já que o ginásio mais próximo ficava em Caicó, exigindo despesas além do alcance familiar. Nesse instante, o destino mostrou sua força silenciosa e surgiu a figura generosa de Manoel José Fernandes (1910-1993), conhecido por Seu Bilé, filho de Antônio Bezerra de Araújo Fernandes (1886-1967) e de dona Cândida Pires Fernandes (1884-1963).
"Seu Bilé", proprietários de extensas terras rurais, comerciante e político de espírito solidário, sugeriu a João Rafael que permitisse a José Pires estudar em um novo curso que se iniciava, voltado à formação de professores da rede primária e adequado ao nível de instrução do jovem.
Além disso, informou que seu genitor Antônio Bezerra adoecera e precisava de ajuda na administração do comércio, prometendo, ao mesmo tempo, oferecer ao rapaz uma oportunidade de trabalho e estudo.
Antônio Bezerra de Araújo Fernandes foi um proeminente comerciante, político e incentivador cultural. Falava francês fluentemente, foi um dos fundadores da Cooperativa Agropecuária Centro do Acari e ocupou diversos cargos públicos, incluindo o de prefeito.
Nesse período, já idoso e enfermo, precisava de alguém para auxiliá-lo na loja e não simpatizava a ideia de um auxiliar imediato. Foi então que surgiu o estudante em busca de oportunidades, o qual, além de conquistar a confiança de Seu Antônio Bezerra, tornou-se o homem responsável por todo o estabelecimento, recebendo assim inteira delegação.
O jovem estudante permaneceu em Acari, onde passou a auxiliar o genitor de Seu Bilé durante o dia, trabalhando na loja, e, à noite, seguia firme nos estudos. Ele fazia as refeições na casa do proprietário da loja vizinha à igreja de Nossa Senhora da Guia, que, por sua vez, ficava próximo à casa de seu pai, João Rafael. Era na residência paterna, a de número 92, que ele pernoitava, embalado pelo som distante da difusora municipal sob a luz tênue dos lampiões.
Não obstante, confessa a timidez que o acometia quando Seu Bilé recebia a visita do sogro José Braz de Albuquerque Galvão (1896-1983) e de toda a família em datas festivas ou comemorativas, ocasiões em que era por vezes deslocado da loja para a casa grande vizinha à matriz para as refeições e colaborações extras.
Parte 3 - A Época do Colégio Agrícola de Bananeiras
No final da década de 1950 marcou uma nova etapa na trajetória de José Pires Dantas, num Brasil que respirava o otimismo do governo de Juscelino Kubitschek. A célebre meta de “cinquenta anos em cinco” impulsionava o país rumo à industrialização, à modernização das cidades e à expansão do ensino técnico e normal, visto então como passaporte para a ascensão social. José Pires integrava essa geração de jovens sertanejos que enxergavam na educação o caminho para vencer as barreiras do interior.
Apesar de nutrir o desejo de prosseguir os estudos, viu-se frustrado quando o pai, João Rafael Dantas (1888-1975), sem condições materiais, negou-lhe o envio ao Colégio Diocesano de Caicó.
Foi nesse contexto que um anúncio ouvido pelos alto-falantes da difusora municipal soou como sinal providencial que era o anúncio da realização do exame seletivo para a Escola Agrícola de Bananeiras, na vizinha Paraíba, instituição de prestígio reconhecido por sua formação de operários, mestres e técnicos agrícolas.
O entusiasmo foi imediato e seu amigo Filogônio Bezerra, presente no momento, o incentivou a se inscrever. O acaso contribuiu para que “Seu Bilé” passasse de caminhonete pela praça Getúlio Vargas (atual Cipriano Pereira) e, informado por Filogônio, oferecesse-se para conduzi-los à inscrição.
Nesse passo, partiram José Pires, Filogônio Bezerra e Francisco Pires Cunha (“Chico de Seu Bilé”): os dois primeiros para o curso de mestria; o último, para o de operário agrícola. Apenas o do curso de mestria lograram êxito no exame, prosseguindo na jornada.
Em 1961, com o apoio da família e a bênção da irmã Francisca Pires Galvão (1936-), José Pires partiu para Bananeiras, cidade serrana de clima ameno e tradição educacional, enfrentando o sacrifício das estradas de barro em transportes precários.
Aquela partida simbolizava mais que uma mudança geográfica, na verdade era a transição de um seridoense da gema para a vida estudantil fora do lar.
A chegada a Bananeiras assinalou uma dupla transição. Ali, o jovem 'Zinha' passou a ser conhecido como 'Zé Pires', ao mesmo tempo em que se deparava com um cenário de contrastes profundos.
A paisagem era exuberante, descortinando-se em vastos gramados e fruteiras, uma visão radicalmente distante da sequidão de sua terra natal. A adaptação a este novo ambiente exigiu-lhe esforço, sobretudo diante dos desafios acadêmicos que se impunham.
No agrícola, enfrentou severas dificuldades em Matemática, chegando a obter a nota 2,7 em uma das avaliações. E, sob a judiciosa orientação do professor Orlando Nóbrega e munido de uma disciplina admirável, Zé Pires devotou-se à resolução de mais de uma centena de exercícios de fatoração. Em pouco tempo, logrou alcançar a nota máxima, para surpresa de colegas e mestres. Essa vitória não foi apenas numérica, tendo em vista consolidar seu espírito persistente e sedimentou sua crença na força do estudo como o principal caminho para a superação.
A Escola Agrícola de Bananeiras, à época vinculada ao Ministério da Agricultura, mantinha um rigoroso regime pedagógico de internato. Naquele ambiente, não tardou a destacar-se, não somente pela intensa dedicação aos estudos, mas também pelo comportamento exemplar e pelo respeito devotado a companheiros e professores.
Suas horas vagas eram metodicamente divididas, pois ocupava-as com leituras tranquilas sob as mangueiras do campus, com o auxílio prestado aos colegas nas lições de Matemática e Redação, e com a prática constante da fé, observada nas celebrações da capela interna.
Durante as férias, retornava a Acari trazendo novidades e relatos das inovações aprendidas, o que despertava orgulho em sua família. Seu pai via, no filho caçula, o símbolo de uma geração que, pela instrução, ultrapassava as limitações da Acauã. Embora o país vivesse o entusiasmo do desenvolvimentismo de JK, as desigualdades regionais persistiam.
O Nordeste seguia castigado pela seca e pela escassez de oportunidades, levando muitos jovens a buscar horizontes distantes. José Pires, ciente dessa realidade, encarava sua formação técnica como missão de serviço, aprender para, um dia, retribuir à terra querida.
O Patronato Agrícola de Bananeiras fora criado em 1920, por decreto do presidente Epitácio Pessoa, em área doada pela Prefeitura local. Inaugurado oficialmente em 7 de setembro de 1924, o estabelecimento nascera com o propósito de unir formação cívica e instrução prática em agricultura, zootecnia e veterinária.
Ao longo das décadas, passou por diversas denominações, ‘Aprendizado Agrícola da Paraíba’, ‘Instituto Agronômico’, ‘Escola Agrotécnica Vidal de Negreiros’ e, finalmente, ‘Colégio Agrícola Vidal de Negreiros’, até integrar, em 1968, a Universidade Federal da Paraíba, por decreto do Ministério da Educação. Desde então, consolidou-se como referência regional de ensino, pesquisa e extensão.
Uma vez concluído o curso de mestria, José Pires decidiu prosseguir para o de técnico agrícola. Permaneceu durante um mês na residência do colega João Bosco, onde se preparou intensamente para o exame seletivo. Na véspera da prova, um sonho singular infundiu-lhe ânimo, servindo-lhe de presságio foi quando viu Dom Vital, que lhe aparecia abençoando-o e predizendo a sua aprovação.
Tratava-se do bispo já falecido, cujo processo de beatificação e canonização se encontra atualmente aberto na Arquidiocese de Olinda e Recife. A causa tramita, no momento, na Congregação da Causa dos Santos, e o vice-postulador dedica-se à elaboração da positio.
No sábado da prova, seguiu com João Bosco e outros candidatos rumo a Bananeiras, chegando ao entardecer. Hospedaram-se e, logo, foram comprar jacas, fruta incomum no Seridó.
Enquanto visitava as salas de aula, José Pires deteve-se na do primeiro ano técnico, onde o colega Abidoral Lúcio dos Santos resolvia um problema do Teorema de Tales. O acariense gravou em mente cada detalhe da explicação, inclusive o resultado calculado em 7,2 cm dos lados, sem imaginar que esse episódio lhe seria decisivo.
À noite, chegaram novos candidatos, entre eles Geraldo Teixeira, de Guarabira, de espírito brincalhão, que fez uma lista premonitória dos que seriam reprovados e nela incluiu o nome de José Pires. O ambiente era de apreensão e expectativa. Quando indagado sobre o que achava da inditosa lista, limitou-se a dizer: “Seja o que Deus quiser”.
No dia seguinte, realizou-se o exame de Matemática, composto por dez questões de polinômios e geometria plana. Coincidentemente, a sétima questão reproduzia exatamente o problema do Teorema de Tales resolvido na véspera, com o mesmo resultado de 7,2 cm. Após a correção, o secretário Dedeo divulgou os aprovados: Abidoral Lúcio dos Santos, Afonso Batista de Aquino (do Ceará), João Bosco, José Berlamino Filho (de Nova Floresta) e José Pires Dantas. A alegria foi intensa, e os colegas o ergueram nos ombros em comemoração.Na etapa oral, manteve bom desempenho, garantindo média suficiente em Matemática. Em Português, redigiu uma composição sobre o provérbio “Mais vale um pássaro na mão do que dois voando” e respondeu questões sobre figuras de linguagem e verbos defectivos, alcançando média 7,0. A prova de Biologia, sua disciplina preferida, transcorreu sem sobressaltos, era tema de suas leituras cotidianas constante num caderno de páginas amarelas, rendendo-lhe igual média.
A seleção revelou-se sobremaneira rigorosa, ou seja, 66 candidatos disputavam apenas 24 vagas, afora os repetentes e os alunos transferidos. Entre estes últimos, contavam-se quatro oriundos da Escola Agrícola de Castanhal/PA, a saber, Francisco de Assis Feliciano da Silva, outro cognominado "japonês Egicono" e dois outros cujos nomes lhe fogem à memória.
Seu amigo Filogônio Bezerra, todavia, não logrou êxito desta vez, vindo a ser reprovado em Matemática. Durante os três anos do curso técnico, José Pires Dantas usufruiu da convivência com professores de alto nível, como Luís Nelson de matemática e que paralelamente se preparava para o curso de engenharia.
Em Matemática, estudava pelo manual do catedrático Manoel Jairo Bezerra, potiguar formado pela Faculdade Nacional de Filosofia, no Rio de Janeiro. Química, por sua vez, supriu com autodidatismo as lacunas deixadas pelos docentes, aproveitando a rica biblioteca da escola, que reduzia a necessidade de adquirir livros próprios.
Seu interesse não se limitava às ciências exatas. Cultivava também apreço pela literatura, lendo autores nacionais e estrangeiros, inclusive títulos restritos aos alunos. Entre os livros marcantes, destacou “A Vida de Jesus”, de Plínio Salgado, obra que o impressionou pela profundidade religiosa e literária.
Sobre o livro escrito por Plínio Salgado durante seu exílio em Portugal (1939-1946), é uma obra central que interpreta a figura de Cristo sob uma ótica mística, filosófica e política, apresentando-o como o "Homem Integral" que unifica fé e razão. O livro serve como fundamento teológico para o lema integralista "Deus, Pátria, Família" e utiliza a trajetória de Cristo como um modelo de ordem e redenção para criticar as ideologias modernas (como o liberalismo e o socialismo), vistas por Salgado como "desintegradoras".
Ao fim da formação, o 'fim de rama' de João e Joana consolidara-se como exemplo de superação e mérito estudantil, símbolo da fé no poder transformador da educação. Entrementes, a passagem de José Pires Dantas pelo Colégio Agrícola Vidal de Negreiros permanece como capítulo luminoso de uma vida dedicada ao estudo e à perseverança.
Em seu percurso, soube transformar o sonho de aprender em instrumento de elevação pessoal e de esperança para os seus familiares, no rastro de uma geração que acreditou na força redentora da educação.
Seu antigo colega Filogônio Bezerra, por sua vez, retornou a Acari com o título de mestre, ingressando posteriormente na SANBRA (Sociedade Algodoeira do Nordeste Brasileiro), em Natal. Graduou-se em Economia, trabalhou no INCRA onde se aposentou e fixou residência em Brasília, mantendo prestígio junto à tradicional família Alves. Segundo notícias posteriores, encontra-se hoje na capital potiguar.
Parte 4 - Centro de Ciências Agrárias (CCA)
O Brasil vivia, então, um tempo de inquietação e incertezas. A inesperada renúncia de Jânio Quadros, mergulhara o país em profunda crise institucional, culminando na conturbada posse do vice-presidente João Goulart, o Jango. Entre grupos conservadores e reformistas, as tensões se acirravam, e mesmo o Seridó, distante dos grandes centros políticos, sentia os ecos desse clima de instabilidade.
José Pires, já amadurecido, mantinha-se fiel à simplicidade dos valores herdados do lar paterno: honestidade, trabalho e fé. Levava consigo não apenas o conhecimento técnico adquirido na Escola de Bananeiras, mas também a convicção de que o saber deve servir ao bem comum.
Sua passagem por Bananeiras havia sido transformadora. O acariense, antes introspectivo e reservado, tornara-se um homem disciplinado, consciente de suas responsabilidades e preparado para trilhar o caminho da vida acadêmica e profissional com dedicação e ética, virtudes que marcariam toda a sua trajetória.
Nas férias em Acari, reencontrava os irmãos, amigos e a namorada que conhecera no círculo familiar de Seu Bilé, e notava o orgulho com que todos acompanhavam sua trajetória. O retorno do “menino estudioso”, que partira anos antes rumo à serra paraibana, foi motivo de alegria para os pais, João Rafael Dantas e Joanna Petronilla de Medeiros, os quais, embora envelhecidos, mantinham-se tomados de orgulho pelo filho mais novo.
O ano de 1964 trouxe consigo ventos de mudança e apreensão. O movimento civil-militar que depôs o presidente João Goulart instaurou um novo regime político, marcando o início de um dos períodos mais longos e controversos da história nacional. Embora o interior não tenha vivenciado diretamente as agitações que tomaram as capitais, o clima de incerteza e vigilância alcançou também o Seridó e a região do Brejo Paraibano.
Esta última, em nítido contraste com o semiárido seridoense, é conhecida pelo seu clima ameno e pelas paisagens serranas. Trata-se de uma área de forte tradição cultural, rica gastronomia e engenhos de cachaça artesanal, cujo clima mais frio durante o inverno a torna um refúgio natural na paisagem nordestina.
José Pires, prudente e discreto, manteve-se afastado das discussões políticas inflamadas. Preferia concentrar-se naquilo que considerava o verdadeiro caminho do progresso, a sua formação acadêmica.
Pelas ondas do rádio, as vozes dos locutores anunciavam os acontecimentos entre 31 de março e 1º de abril daquele ano, o movimento militar que depusera João Goulart, instaurando um regime que se estenderia por vinte e um anos. A ação fora articulada por militares e apoiada por setores conservadores da sociedade, empresários, veículos da grande imprensa e grupos políticos, com respaldo internacional dos Estados Unidos.
O rapaz tímido do Sítio Volta do Rio e da Rua da Matriz percebia que o mundo ao seu redor estava em transformação. Com o diploma de técnico agrícola em mãos e a mente impregnada de ideais de serviço e progresso, preparava-se para um novo desafio: o vestibular de Agronomia na cidade de Areia, na Paraíba.
O próximo destino de José Pires seria o Centro de Ciências Agrárias (CCA), unidade vinculada à Universidade Federal da Paraíba (UFPB), localizada no Campus II, no município de Areia, integrante da microrregião do Brejo Paraibano, a cerca de 120 quilômetros da capital, João Pessoa.
O CCA é composto por quatro departamentos, Fitotecnia, Zootecnia, Solos e Engenharia Rural, e Ciências Fundamentais e Sociais, além de cinco fazendas experimentais e diversos laboratórios. Suas instalações atendem aos cursos de graduação e pós-graduação, abrigando pesquisas básicas e aplicadas.
A instituição mantém, ainda, um importante papel social, pois oferece práticas de ensino voltadas às escolas públicas do município e presta apoio técnico ao setor agropecuário regional, consolidando-se como referência no desenvolvimento científico e educacional do campo paraibano.
A história da educação superior na Paraíba tem seu marco inaugural no ano de 1936, com a fundação da Escola de Agronomia do Nordeste (EAN), a primeira instituição desse nível no estado. Solenemente inaugurada em 15 de abril daquele ano pelo Dr. José de Sousa Maciel, então Governador do Estado, a instituição iniciou suas atividades com o Curso Médio.
Este curso, ao longo do tempo, desdobrou-se no Curso Agrotécnico e no Curso Colegial Agrícola, vindo a ser extinto em 1971, mas não sem antes deixar um legado de 417 Técnicos Agrícolas formados. Paralelamente, a vocação universitária da EAN consolidou-se com o primeiro vestibular para o Curso de Agronomia, realizado em 1937.
A primeira turma de Engenheiros Agrônomos, composta por oito formandos, colou grau em 1º de dezembro de 1940. Tal pioneirismo confere ao curso de Agronomia a primazia de ser o mais antigo da futura Universidade Federal da Paraíba (UFPB), antecedendo em muito os demais cursos, que surgiriam apenas em 1955 com a fundação do Campus de João Pessoa.
Dessa forma, consolidada em sua estrutura e missão, a instituição passou a colaborar decisivamente em atividades agrícolas e educacionais, engajando-se em projetos voltados à modernização das práticas rurais e ao incentivo do ensino nas comunidades interioranas.
Parte 5 – Da Trajetória Profissional
Desde muito cedo, José Pires Dantas sentiu o chamado da terra e da ciência, vocação que o conduziria por toda a vida à investigação dos solos e à formação de sucessivas gerações de agrônomos nordestinos.
O início de sua carreira profissional deu-se na Associação Nordestina de Crédito e Assistência Rural (ANCAR), marco decisivo na história da assistência técnica e da extensão rural no Nordeste. Criada em meados da década de 1950, a ANCAR tinha por missão difundir um modelo inovador de integração entre crédito e assistência técnica, voltado especialmente aos pequenos produtores rurais.
Essa iniciativa, que buscava aliar o conhecimento agronômico ao fortalecimento econômico do homem do campo, foi o embrião das atuais EMATERs, instituições de assistência técnica e extensão rural espalhadas pelos estados nordestinos, como a Emater-RN e a Emater-PB.
Posteriormente, ingressou na Universidade Federal da Paraíba (UFPB), iniciando ali uma longa e fecunda carreira no magistério. Foram vinte e quatro anos de dedicação ao ensino e à pesquisa na cidade de Areia, sede do antigo Centro de Ciências Agrárias (CCA), herdeiro direto da tradicional Escola de Agronomia da Parahyba, criada em 1934 e regulamentada em 1936.
Incorporada à Universidade Federal da Paraíba, a instituição tornou-se berço de uma geração de estudiosos comprometidos com a modernização do campo nordestino, entre os quais José Pires Dantas se destacou pela conduta exemplar e pelo compromisso inabalável com a ética e o conhecimento.
Conhecido por sua correção e moralidade, o Professor Pires era o primeiro a chegar à sala de aula e o último a deixá-la. Mantinha rígida disciplina, concedendo dez minutos de tolerância aos alunos e registrando, sem complacência, as ausências posteriores. Tal rigor, longe de ser mero formalismo, refletia seu profundo senso de dever e respeito ao saber. Para ele, a pontualidade era expressão de caráter e dignidade profissional.
Encerrada sua carreira na UFPB, foi convidado pelo catedrático Ivan Pereira, natural de Parelhas/RN, para lecionar Química Analítica na Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), onde permaneceu até a aposentadoria compulsória, aos setenta anos, em 2009. Levou consigo os mesmos princípios éticos e acadêmicos que nortearam sua trajetória na universidade federal, tornando-se também uma referência na instituição estadual.
De espírito inquieto e investigador, o doutor José Pires Dantas dedicou-se à pesquisa científica com entusiasmo notável. Entre os inúmeros estudos que realizou, destacou-se o trabalho sobre a faveleira ou faveleiro, também conhecida como mandioca-brava, planta da família das euforbiáceas, de flores brancas e frutos oleaginosos. Mapeou sua presença em todo o Nordeste e conduziu pesquisas que associavam suas propriedades ao potencial alimentício e medicinal.
De um desses estudos nasceu um episódio que se tornaria lendário. O pai de uma aluna, gravemente enfermo, teria se restabelecido após seguir a recomendação do professor de ingerir o chá da casca da faveleira. O caso, amplamente comentado na região, despertou o interesse de outros docentes, entre eles o professor Augusto, de Itabaiana, que o acompanhou em coletas realizadas no sítio Umbuzeiro, propriedade do senhor Juraci Maximiliano Nóbrega.
Dessa experiência resultou uma dissertação de mestrado vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente (Prodema/UFPB). A pesquisa aplicada ao semiárido sempre foi o eixo de seu pensamento científico.
O Professor Pires defendia com fervor a riqueza biológica e o potencial produtivo da caatinga nordestina, desenvolvendo estudos sobre variedades de feijão e sorgo sacarino, cujas amostras obteve na Paraíba e no Rio Grande do Sul. Apresentou seus resultados em congressos científicos por todo o país, firmando-se como referência nacional.
Sua produção acadêmica ultrapassou duzentos trabalhos orientados e mais de noventa dissertações de mestrado, todas apoiadas por instituições de fomento como o CNPq e o Banco do Nordeste. Atuou ainda em cooperação com a EMBRAPA, realizando pesquisas no Piauí e conduzindo excursões periódicas com grupos de alunos.
Figura respeitada e admirada, o doutor e professor universitário era presença constante em rádios, emissoras de televisão e instituições acadêmicas, onde discorria com eloquência, clareza e profundidade sobre temas da agronomia e do desenvolvimento regional.
Possuía mestrado em Solos e Nutrição de Plantas e doutorado em Agronomia, ambos obtidos na Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”, em Piracicaba, berço da moderna agronomia brasileira.
Ao longo da carreira, recebeu diversas homenagens, sendo especialmente lembrado pela turma de 1974 do curso de Agronomia. Muitos de seus ex-alunos se espalharam pelo Brasil e pelo exterior, ocupando posições de destaque na EMBRAPA, nas Secretarias de Agricultura, nas EMATERs, no Ministério da Agricultura e em outras instituições públicas e privadas.
Em 2005, foi agraciado com o título de Professor Emérito pela UFPB e, anos antes, com o Selo de Gratidão da Escola Agrícola Assis Chateaubriand (UEPB), em reconhecimento aos relevantes serviços prestados à educação.
As manifestações de carinho de ex-alunos comoviam-no profundamente. Guardava com emoção as mensagens recebidas: “Professor Pires, reconheço o quanto o senhor lutou por nós. Hoje estou aprovado no concurso da Embrapa e desenvolvo o trabalho para o qual o senhor nos preparou.”
Outras homenagens vieram em forma de placas e cerimônias solenes, como a que registrava: “Estimado Professor Pires, as suas lições de sabedoria serviram de alicerce para nossa formação pessoal, moral e profissional. A sincera gratidão da turma de 1967. CAVN, 30 de abril de 2017.”
Em 7 de setembro de 2024, por ocasião do centenário do Colégio Agrícola Vidal de Negreiros, o diretor Edvaldo Mesquita Beltrão Filho concedeu-lhe menção honrosa como ex-aluno e ex-professor, reconhecendo sua contribuição à instituição e à comunidade acadêmica.
Já em 15 de abril de 2011, durante as comemorações do Jubileu de Diamante do Centro de Ciências Agrárias da UFPB, foi igualmente homenageado por sua inestimável contribuição à história da universidade.
Residiu por longos anos na cidade de Areia, Paraíba. Somente quando os filhos alcançaram idade escolar para cursar o ensino secundário transferiu-se para Campina Grande, fixando-se na Rua Siqueira Campos, no bairro da Prata. Mesmo após a mudança, continuava a deslocar-se frequentemente para Areia, muitas das vezes pernoitando no próprio campus.
O doutor José Pires Dantas construiu uma trajetória exemplar. Da Ribeira da Acauã à cátedra universitária, soube unir a sabedoria prática do homem do campo ao rigor científico do pesquisador. Homem de hábitos simples e ideias elevadas, foi, antes de tudo, um educador no sentido pleno, aquele que semeia valores, cultiva saberes e colhe, nas gerações vindouras, os frutos de sua dedicação.
Seu legado permanece vivo na memória da universidade, nos laboratórios e nas salas de aula, nas paisagens do Nordeste e, sobretudo, nas vidas que ajudou a transformar pela força da ciência, do exemplo e da ética.
Parte 6 - O Recordar de José Pires
A mãe de José Pires Dantas, Joann Petronila de Medeiros (1897–1980), descendia de antigas estirpes que, ao longo de gerações, contribuíram para moldar a formação histórica, cultural e humana do Acary antigo. Era filha de José Thomaz de Araújo (1845–1930), o Thomaz Bumba, e Maria Thereza de Jesus (1870–1952), e neta, pelo ramo paterno, de Tomás Lopes de Araújo (1818–1856) e Maria Edeltrudes de Medeiros (1821–1856); pelo ramo materno, de Joaquim Simplício Dantas (1830–1913) e Thereza Maria de Jesus (1839–1918).
A história dessa família, como tantas outras do Seridó, é entrelaçada por fatos documentados e por narrativas transmitidas pela tradição oral, nas quais o real e o lendário convivem em tênue harmonia. Entre essas memórias, destaca-se a figura do avô de sua mãe Joanna Petronila e, portanto, seu bisavô, Tomás Lopes de Araújo, personagem cuja vida se confunde com o imaginário regional.
Conhecido como “Tomás Francês”, seu nome atravessou gerações envolto em fascínio, controvérsia e mistério. Filho de Manoel Lopes Pequeno (1794–1881) e Ana Maria da Circuncisão (1795–1835), Tomás nascera em 1818, juntamente com seu irmão gêmeo, Manoel Lopes de Araújo (1818–1892), netos paternos do Capitão Félix Gomes Pequeno (1766–1845), o terceiro, e de Anna Lins de Holanda Vasconcelos (1773–1879); e, por parte materna, do presidente da Província do Rio Grande do Norte, Tomás de Araújo Pereira (1765–1847).
De acordo com o relato do professor e descendente ora retratado, o tetravô Tomás de Araújo Pereira, não tendo filhos homens, assumiu pessoalmente a educação dos dois netos, dispensando-lhes particular zelo e afeição. Homem culto, de sólida formação e espírito ilustrado, teria desejado proporcionar aos jovens uma instrução condizente com o prestígio de sua casa e, para tanto, enviou-os à França, o epicentro da cultura e da erudição europeia do século XIX.
A tradição oral regional sustenta que ambos os irmãos teriam estudado no prestigiado Collège Louis-le-Grand, em Paris, instituição reservada à elite intelectual e política da Europa. Foi nesse ambiente que, segundo a lenda, se iniciaram os episódios que dariam origem à fama trágica de “Tomás Francês”.
Conta-se que, de temperamento irascível e vida boêmia, o jovem Tomás envolveu-se em uma violenta altercação com um lente, a quem teria ferido mortalmente com uma faca. O escândalo foi tal que as autoridades francesas teriam decretado sua prisão e o condenado imediatamente à morte pela guilhotina.
Para escapar à execução, narra-se que os gêmeos fugiram clandestinamente, escondidos em tonéis de vinho, cruzando o Atlântico até alcançar terras sul-americanas. Após breve passagem pela Argentina, regressaram ao Brasil, aportando finalmente no Seridó.
A partir de então, seguiram destinos distintos. Manoel Lopes, o mais prudente e reservado, adotou o sobrenome Cananéa, fixando-se como fazendeiro e homem de largo prestígio em Acari, vindo a ser o tronco de uma descendência numerosa e respeitada.
Já o outro irmão, Tomás, assumiu definitivamente o epíteto que o tornaria lendário, “Francês” e, teria enveredado por caminhos de rebeldia e violência, chegando, segundo o imaginário popular, a integrar o bando de outro Tomás, o Cazumbá, não menos lendário e espécie de precursor do cangaço.
Durante anos, Tomás Francês foi pronunciado com temor em todo o Nordeste. Acusado de crimes e desmandos, teria sido finalmente capturado, mas absolvido graças à intervenção do influente avô, o ex-presidente da Província. Viveu, então, seus últimos anos em reclusão discreta, vindo a falecer em 1856, vítima da epidemia da cólera, a mesma que ceifou a vida de sua esposa, Maria Edeltrudes de Medeiros (1821-1856).
A lenda, entretanto, não se sustenta apenas na imaginação popular. Registros históricos atestam a existência concreta de Thomaz Francês de Araújo, filho legítimo de Manoel Lopes Pequeno e Ana Maria da Circuncisão, casado em 26 de novembro de 1838, no sítio Remédio, pelo padre Joaquim Félix de Medeiros, com licença do vigário Thomaz Pereira de Araújo (1809–1893), primo do noivo e membro do mesmo clã.
Esses documentos, preservados nos livros paroquiais de Acari, reforçam a base genealógica do personagem e o inserem na trama real da história local. Ainda assim, estudiosos modernos manifestam reservas quanto à veracidade de certos episódios. Entre o mito e o documento, a figura de Tomás Francês conserva-se como uma expressão viva do entrelaçamento entre a memória familiar e a imaginação regional. O sobrenome Cananéa, adotado pelo irmão de temperamento mais prudente, inscreve o seu ramo na esfera da respeitabilidade e da continuidade.
Já o apelido “Francês”, embora ainda ecoe no segmento familiar conhecido por “Bumba”, remete antes à transgressão e ao esquecimento do que à tradição estabelecida. Esses dois nomes, mais do que simples epítetos, representam a tensão fundante entre o ideal e o desvio, entre a honra e a fábula, uma dicotomia que atravessa e configura, de modo profundo, a alma histórica do seridoense.
Na convivência entre o registro documental e a narrativa lendária constrói-se, entrementes, a história local e a identidade de suas gentes. Mas compreender a lenda de Tomás Francês é também compreender a origem de seu avô, Capitão Thomaz de Araújo Pereira (1765-1847), uma das figuras fundadoras do Acary e da política potiguar.
Nascido em Acari, em 1765, descendente de antigos colonizadores, foi filho do Sargento-mor Tomás de Araújo Pereira Filho (1735–1802) e de Tereza de Jesus Maria (1744–1835).
Homem de caráter severo, educação sólida e profunda religiosidade, foi nomeado, por Carta Imperial de 25 de novembro de 1823, o primeiro Presidente da Província do Rio Grande do Norte, tomando posse em 5 de maio de 1824, em pleno alvoroço da Confederação do Equador.
Seu mandato, de apenas quatro meses, foi marcado por tensões políticas e pela defesa da integridade do Império. Descrito por ele mesmo como homem idoso, cego e fiel ao trono de D. Pedro I, governou com austeridade e paternalismo, à maneira dos grandes chefes rurais de sua geração.
Exigia disciplina e trabalho, chegando a fazer soldados cultivarem a terra para assegurar o abastecimento da cidade do Natal.
Em sua casa, mantinha uma pequena prisão doméstica, a temida “cafua”, símbolo de uma educação moralizante e rígida. Curiosamente, ao final da vida, após confessar-se com o seu neto sacerdote Thomaz Pereira de Araújo (1809–1893), decidiu pela demolição da inditosa cela de isolamento, gesto que o descendente José Pires Dantas transmite na releitura como “um ato de reconciliação entre a autoridade e a consciência da própria humanidade”.
Durante a crise da Confederação do Equador, sua prudência evitou confrontos sangrentos entre tropas imperiais e insurgentes. Mesmo assim, diante do avanço dos revoltosos, viu-se forçado a fugir de Natal, escondido em um barril, episódio este que uniu o trágico ao pitoresco e se inscreveu na memória local como metáfora da vulnerabilidade do poder diante da força imprevisível do sertão.
Refugiado em uma de suas propriedades em Acari – atualmente inserida no mapa cruzetense –, o ex-presidente redigiu de próprio punho sua defesa. Dedicou-se, então, à vida familiar até sua morte, em 1847, cercado pelos filhos e netos, entre eles o famigerado Tomás Francês, cujo destino turbulento perpetuaria a herança do nome.
Hoje, poucas relíquias de seu tempo subsistem. Exsurge, entre elas, uma bengala de madeira com cabo de prata, preservada ao longo de gerações e doada ao Museu Histórico de Acari pelo Instituto Tavares de Lyra, instituição esta, pari passu, presidida pelo autor do presente escrito. O objeto sobrevive como símbolo de sua autoridade e de seu legado; é, em nossas palavras, "um bastão que sustentou o corpo de um homem e, simbolicamente, o peso de uma província em formação”.
Portanto, a saga do Capitão Thomaz de Araújo Pereira (1765-1847) e de seus descendentes, entre o fato e a fábula, entre o poder e a paixão, constitui não apenas uma genealogia familiar, mas um espelho da própria formação histórica do Seridó.
É nessa gama de memórias, em que a verdade se entrelaça ao mito, que pulsa a alma do acariense, fiel à máxima antiga segundo a qual, no Seridó, “a verdade que se conta vale mais que a verdade que se prova”.
João Rafael Dantas (1888–1975), pai de José Pires Dantas, que o recorda em meio a um ambiente familiar marcado pela harmonia, afeto, disciplina e uma boa dose de 'dedo de prosa' sob o teto do alpendre...
Pai e filho partilhavam o cotidiano simples e laborioso da vida rural, especialmente nas idas à Serra, situada dentro das propriedades Volta do Rio e Carnaubinha. Durante o trajeto, João Rafael narrava ao pequeno ‘Zinha’ histórias antigas, fatos marcantes e causos dos tempos de outrora. Enfim, memórias que, mais tarde, se tornariam valiosas reminiscências de uma época e que, lamentavelmente, muitas transformadas em poeira no tempo.
Entre as lembranças que guarda com nitidez, ‘Zinha’, o nosso José Pires, recorda também o historiador Antônio Quintino Filho, que, aos noventa e oito anos, lançou o livro História de Currais Novos. Para a elaboração dessa obra, debruçou-se sobre minuciosas pesquisas e, não raro, recorria ao pai de José Pires em busca de informações precisas sobre fatos pretéritos.
A primeira edição da obra, publicada em 1987, é fruto de uma pesquisa longa e exaustiva, pois Antônio Quintino garimpou documentos, colheu depoimentos, organizou registros e redigiu com notável precisão os relatos de sua terra, revelando um trabalho de profunda dedicação e amor à historiografia regional.
A redação, conduzida pela mão experiente do professor, mestre da língua portuguesa e estudioso meticuloso, reflete a seriedade e o zelo de seu autor. Dessa forma, tanto a figura de João Rafael Dantas, homem de saber e retidão, quanto a de a Félix Eufrásio de Araújo (1899-1979), o 'Tio Félix', outro memorialista incansável, entrelaçam-se na recordação e na tradição do Seridó, perpetuando-se como exemplos de devoção à verdade e ao patrimônio histórico de sua gente.
O historiador Antônio Quintino Filho, por sua vez, registra em sua obra acima especificada ter estado na residência de João Rafael, no município, por volta de 7 ou 8 de julho de 1962, ocasião em que colheu informações “notadamente genealógicas e históricas”. Conhecido por sua honestidade intelectual e pelo rigor metódico, consultava diversas pessoas em toda a região, hospedando-se, não raras vezes, na casa-sede da Volta do Rio e na residência situada à Rua da Matriz, nº 92.
Ademais, esses encontros também se repetiam na casa do 'Tio Félix', lá na Fazenda Acauã Velha, outrora morada de Antônio Pereira de Araújo (1848–1904), o ressaltado Antônio Pereira “Gordo”, seu pai, o qual contraiu matrimônio por três vezes, sendo, para tanto, reconhecido pelos genealogistas como o “Adão da Acauã”.
Nesse cenário de histórias efervescentes do Seridó, impõe-se nessa ênfase, destacar a figura do primo e grande amigo de João Rafael, cuja presença foi fundamental na preservação da memória regional, sobretudo por se revelar seu principal parceiro de prosa e pesquisa. Juntos, formavam um verdadeiro núcleo de salvaguarda das tradições locais, acolhendo, em suas casas, estudiosos, curiosos e escritores interessados na história da região.
Essa dedicação à história, entretanto, em que pese a boa vontade e cordialidade na recepção dos visitantes, gerava protestos corriqueiros de suas esposas. Elas argumentavam que as aparições repentinas atrasavam as atividades do cotidiano e aumentavam os afazeres domésticos, tudo por conta de conversas que, segundo a pragmática ótica feminina da época, pareciam não gerar resultados práticos, trocando em miúdos, coisa ‘sem futuro’.
Mas, ainda sobre Félix Eufrásio de Araújo (1899-1979), pode-se afirmar que foi um dos últimos patriarcas da tradicional família da Acauã. Nascido em Acari, em 6 de agosto de 1899, e falecido em 2 de novembro de 1979, era filho de Antônio Pereira de Araújo (1848–1904) e de dona Thereza Pires de Albuquerque (1865–1915), esta última prima legítima de Maria Benta, mãe de João Rafael Dantas.
Casado com dona Júlia Medeiros (1911–?), deixou numerosa descendência. Foram seus filhos: João Bilro Pereira — in memoriam —, cujo nome homenageia um sacerdote que passou pela cidade de Acari na década de 1920. Apesar do nome de padre, tornou-se um jovem inquieto, atuando como comerciante e depois como vereador em Acari por duas legislaturas, casado com Célia Meneguine Pereira; Antônio Pereira de Araújo, o 'Totonho' caminhoneiro, casado com a professora Maria do Socorro Azevedo Pereira, residentes em Acari, pais de Sânzia (esposa do agropecuarista Gustavo Braz, neto de José Braz de Albuquerque Galvão), de Sueni e de Suézia.
Figuravam, ainda, entre os filhos de 'Tio Félix': Geraldo Pereira de Araújo, industriário, casado com a auxiliar de enfermagem Maria Aparecida Guimarães de Araújo, residentes em São Paulo; Silvino Pereira de Araújo, funcionário autárquico, casado com Iraci Pereira de Araújo, residentes em Natal; e Tereza Pires de Araújo, a “Tequinha”, funcionária pública aposentada, a quem o pai recorria com insistência para transcrever suas falas e anotações, tarefa da qual, todavia, frequentemente se esquivava.
O casal também teve o filho Ivo Pereira de Araújo, nascido na década de 1930, que faleceu prematuramente, aos quatro anos de idade, na Fazenda Acauã. Conta-se que, pouco antes de sua morte, o menino teve uma premonição, apontando para o alto enquanto balbuciava as palavras “mamãe - céu”, gesto que marcou profundamente sua mãe.
Homem de probidade, 'Tio Félix' foi um católico fervoroso, colaborador assíduo nos movimentos religiosos de sua cidade e integrante de diversas entidades pias. Na vida profissional, embora fosse agricultor e pecuarista, exerceu por muitos anos o cargo de Tesoureiro da Casa da Lavoura em Acari, pautando-se sempre pela honestidade e pontualidade absoluta, tendo solicitado demissão por vontade própria em 1958.
'Tio Félix' faleceu aos oitenta anos, conservando plena lucidez até os últimos dias, deixando um legado que se entrelaça com a própria história da Acauã, sustentado, em grande parte, por sua preocupação em preservar as memórias familiares e regionais, ainda que nem sempre tenha encontrado quem as registrasse como desejava. Sua maior contribuição, no entanto, repousava em seu intelecto. E, como dito alhures, era um profundo conhecedor da genealogia das famílias do Seridó e um atento observador de tudo o que se passava na região.
Por essa razão, tornou-se também uma fonte de consulta indispensável para quantos se dedicavam à pesquisa de fatos, personagens e tradições, não apenas de Acari, mas de todo o Seridó potiguar. Foi, inclusive, biografado e reconhecido na briosa obra literária ‘Relembrando o Passado’, de José Pires Fernandes e Luiz G. M. Bezerra, prefaciada por Celestino Alves.
Efetivamente, no relato dos primos, encontraram muitas figuras proeminentes num retrato fidedigno do folclore e dos costumes seridoenses, oriundo da confiança e nutrido pela lembrança. No seio destes, contam-se, ao lado de Antônio Quintino Filho e Celestino Alves, outros vultos notáveis, a saber: José Augusto Bezerra de Medeiros (1884-1971), Juvenal Lamartine de Faria (1874-1956) e Luís da Câmara Cascudo (1898-1986).
O primeiro destes, José Augusto Bezerra de Medeiros, era caicoense de nascimento. Filho de Manoel Augusto Bezerra de Araújo e de Cândida Olindina de Medeiros, notabilizou-se como escritor, historiador, genealogista, advogado e político de notável envergadura. Exerceu o governo do Rio Grande do Norte, vindo a representá-lo, ademais, na Câmara Federal por diversas legislaturas.
Era visto em Acari nos períodos eleitorais, em busca de sufrágios e nessas ocasiões, invariavelmente trazia à baila assuntos correlatos à genealogia. Conquanto reeleito Senador da República em 1930, viu seu mandato interrompido pela convulsão revolucionária que eclodiu no país naquele ano, a qual dissolveu o Congresso Nacional. Veio a falecer na cidade do Rio de Janeiro, a 28 de maio de 1971, quatro anos antes de João Rafael e oito de 'Tio Félix'.
O segundo intelectual, evidenciamos Juvenal Lamartine de Faria (1874-1956), que tinha por berço Serra Negra do Norte, foi um polígrafo, atuando como advogado, jornalista, magistrado, político etc.. No início do século XX, serviu como juiz de paz em Acari. Ali, desposou D. Silvina Bezerra de Araújo Galvão (1880-1961), vindo a residir na Fazenda Ingá, que lhe coube em dote e que fora de domínio de seu sogro, o coronel Silvino Bezerra de Araújo Galvão (1836-1921).
Sua carreira política incluiu a Câmara Federal e o Senado, culminando na governança do estado do Rio Grande do Norte no final da década de 1920. Contudo, seu mandato foi interrompido após dois anos e nove meses, ao ser destituído pela Revolução de 1930. Forçado ao exílio na França, rogou a João Rafael que o amparasse, incumbindo-o de zelar pela referida fazenda enquanto perdurassem as incertezas políticas.
A época era de extrema gravidade, marcada por agudas turbulências políticas e pelo assassinato de Octávio Lamartine na própria fazenda, em 13 de fevereiro de 1935. Incidente este pormenorizado em outra obra de nossa autoria, publicada em 1924.
Nesse passo, José Pires, evoca em seu imaginário pela lembrança transmitida por seu pai, João Rafael o vulto de OCTÁVIO LAMARTINE DE FARIA (1903-1935).
Neto do Coronel Silvino Bezerra de Araújo Galvão (1836-1921) e de Dona Maria Febrônia de Araújo Galvão (1838-1908), Octávio Lamartine notabilizou-se como o primeiro engenheiro agrônomo formado no Rio Grande do Norte. Tal privilégio pioneiro reverteu em benefício direto para o Seridó, região onde pôde atuar com sólida base acadêmica.
Sua formação foi exemplar, pois graduou-se pela Escola Agrícola de Lavras, em Minas Gerais, e realizou um curso de especialização na Geórgia, Estados Unidos. Este preparo o credenciou a dirigir o Campo de Pesquisas do Algodão “Mocó”, em Bulhões, Acari que posteriormente foi transferido para a Estação Experimental de Cruzeta, e a assumir a diretoria do Serviço de Algodão do Rio Grande do Norte, sua área de especialidade.
Além de sua atuação técnica, Octávio Lamartine exerceu o cargo de prefeito de Acari, embora seu mandato tenha sido interrompido pela ditadura Vargas. Consoante os relatos paternos evocados por José Pires, possuía elevado espírito público e vocação para o serviço, chegando a ceder parte de seus próprios proventos às escolas do município, por considerar insuficientes as verbas públicas destinadas às despesas necessárias.
Era, portanto, um homem preparado para as letras e para a ciência, dotado de carisma para o exercício da liderança e profundamente ligado às causas seridoenses. Seu assassinato, ocorrido em 13 de fevereiro de 1935, deu-se por razões estritamente políticas, inserido num contexto de violência que vitimou outras figuras ilustres da política norte-rio-grandense.
Exemplo notório dessa mesma onda de perseguição foi o do Coronel Felinto Elísio de Oliveira Azevedo. Em 1935, numa flagrante demonstração de abuso de poder, este teve sua residência na fazenda Sombrio invadida pelo delegado Francisco Efraim, movido por ódio partidário, o delegado espancou-o e prendeu-o, unicamente por sua oposição ao governo estadual.
Note-se que, com o processo de reconstitucionalização do país, Felinto Elísio filiou-se ao Partido Popular, fundado e dirigido por José Augusto, contribuindo decisivamente para a vitória dos candidatos populares à Assembleia Estadual Constituinte em 1935.
O destino de Octávio Lamartine foi selado em sua própria casa, a Fazenda Ingá. Ele ali se encontrava na companhia da família quando uma famigerada volante policial, comandada pelo tenente Oscar Rangel e guarnecida pelos sargentos José Galdino de Souza, José Albuquerque dos Santos e mais oito soldados, chegou ao local.
O objetivo não era a captura, mas a execução. O ato foi consumado covardemente diante de sua esposa, Dona Maria Dinorah Cavalcanti Lamartine de Faria, que em vão suplicou pela vida do marido. Embora alertado sobre o perigo iminente e aconselhado a deixar a cidade, Octávio recusara-se terminantemente a abandonar a Fazenda Ingá. Confiara em um salvo-conduto expedido por Tomás Salustino, acreditando, erroneamente, estar protegido de semelhante infortúnio.
Na observação de José Pires, o Rio Grande do Norte perdeu, com Octávio Lamartine, uma inteligência promissora, que já contribuía ativamente para iluminar a vida do Seridó, tanto pelo conhecimento acadêmico quanto pela liderança regional que exercia.
Confirma-se, assim, a tragédia de um dos vultos de maior destaque da região, um líder cuja ascensão foi brutalmente abortada pela nefasta perseguição política da época.
João Rafael assumiu plena responsabilidade pelo Sítio Ingá, seus rebanhos e a vacaria. Para tal, mudou-se com toda a família da Volta do Rio, estabelecendo-se no lugar. Fê-lo por um período que antecedeu em três ou quatro anos o nascimento de José Pires Dantas; de fato, a irmã deste, Francisca Pires, nasceu no Ingá em 1936, sendo apadrinhada por Juvenal Lamartine e Silvina Bezerra.
Dessa maneira, devotou-se por completo à demanda do compadre, preterindo os cuidados de sua própria terra para ter que zelar pela propriedade dos Lamartines. Os dois amigos e compadres despendiam longas horas em conversas sobre os assuntos históricos e genealógicos supracitados, os quais renderam a Juvenal a produção de exímias obras sobre temas diversos, mormente acerca das famílias e genealogia do Seridó.
Por fim, o terceiro intelectual em diligência pelo Seridó em busca dos informes dos 'antigos' é Luís da Câmara Cascudo, nascido em Natal, destaca-se entre os mais célebres do país. Historiador, sociólogo, antropólogo, folclorista, professor e jornalista, este erudito dinâmico formou-se pela Faculdade de Direito do Recife em 1928, embora tenha passado toda a sua vida em Natal.
Parte 7 - Da Memória Fraterna: Breve Recordação
No curso de suas reminiscências, José Pires volta-se agora para a memória de seus irmãos: José Saturnino Pereira de Medeiros (1924–2014); Francisco Pires de Medeiros (1928-2007); Antônio Pires de Albuquerque Galvão (1926-1998); Tereza Pires Dantas (1932-); Maria Benta de Albuquerque (1930-) e Francisca Pires Galvão (1936-).
O destino dos irmãos de José Pires Dantas tomou rumos diversos. Francisco, por exemplo, partiu ainda jovem para as terras de Minas Gerais, de onde só retornou ao torrão natal, Acari, na idade senil e já enfermo. Ali veio a falecer e encontra-se sepultado.
Antônio também trilhou o caminho da migração, elegendo como destino o Rio de Janeiro. Na então capital federal, logrou êxito no setor da construção civil. Ao retornar, na década de 1990, adquiriu as partes dos demais herdeiros no Sítio Volta do Rio, investindo na propriedade e convertendo-a numa produtiva fazenda. Sabe-se que, de sua união, resultou um casal de filhos, os quais, contudo, não mantêm contato com os primos seridoenses.Maria Benta de Albuquerque, nascida em 1930, devotou grande parcela de sua existência à vida religiosa e à educação. Permaneceu solteira e não deixou descendência. Faleceu em 1 de fevereiro de 2020.
Teresa Pires Dantas, por sua vez, nasceu em 1932 e é recordada como outra zelosa guardiã das memórias e da genealogia familiar. Ela foi a segunda esposa do viúvo Agenor Pereira de Araújo (1904-2004), antigo proprietário da Fazenda Soledade, em Acari, antes que esta pertencesse a Zé Braz. Deste matrimônio, Tereza deixou um filho homônimo ao pai. Faleceu em 22 de julho de 2020.
Maria Benta de Albuquerque.
André Pires de Medeiros que era esposo de Francisca "Francisquinha" Martins de Medeiros. Genitor de Terezinha Zélia, José, Maria do Céo e Antônio Omar.A história e a genealogia da família conhecida como “os Paulos da Marcação” foram evocadas e sistematizadas a partir de uma apresentação realizada por Ivan Medeiros durante o primeiro encontro familiar ocorrido em Currais Novos, no Rio Grande do Norte, ocasião que se converteu em verdadeiro rito de memória, pertencimento e reconciliação com as origens. O epíteto que singulariza esse vasto tronco familiar tem sua gênese em Pedro Paulo de Medeiros Dantas, nascido por volta de 1844 e falecido em 1896, personagem central na fixação da linhagem na Fazenda Marcação, propriedade rural situada a cerca de oito quilômetros da sede municipal. Ao ali se estabelecer com esposa e filhos, Pedro Paulo deu início a uma tradição onomástica e identitária que, com o tempo, ultrapassou o registro civil e se consolidou no imaginário popular da região, fazendo com que seus descendentes fossem reconhecidos, de modo pitoresco e afetuoso, como “os Paulos”, independentemente de ostentarem ou não tal prenome em seus assentos batismais.
A linhagem dos Medeiros no Seridó potiguar remonta a antigos colonizadores portugueses, descendentes de uma nobre família lusitana cuja origem é atribuída a Rui Gonçalves de Medeiros. No âmbito regional, os ancestrais diretos dessa estirpe foram os portugueses Sebastião de Medeiros Matos e Antônio de Medeiros, cujos descendentes se enraizaram no sertão norte-rio-grandense, participando ativamente do povoamento, da vida econômica e da formação social da região. A narrativa genealógica apresentada no encontro teve como ponto de partida o matrimônio do Capitão Pedro Paulo de Medeiros com Maria Renovata de Medeiros, celebrado em agosto de 1813, na Matriz de Santana do Seridó. O casal residiu inicialmente em Pilar, na Paraíba, e posteriormente na antiga Vila de Acari, território que mais tarde integraria o atual Rio Grande do Norte, lançando as bases da presença familiar no Seridó.
Dessa união nasceu, entre outros filhos, o Tenente-Coronel Manuel Salustiano de Medeiros, figura de relevo na segunda geração. Manuel Salustiano contraiu primeiro matrimônio, em Pilar, com Cândida Esmeraldina Lúcia Dantas, com quem teve cinco filhos, entre eles Pedro Paulo de Medeiros Dantas, aquele que viria a ser reconhecido como o fundador dos Paulos da Marcação. Após o falecimento da esposa, em 1857, Manuel Salustiano voltou a casar-se, no mesmo ano, com Maria Digna de Araújo Dantas, não havendo registros de descendência dessa segunda união. Coube, portanto, a Pedro Paulo de Medeiros Dantas perpetuar e singularizar o ramo familiar que se tornaria amplamente conhecido na região.
Pedro Paulo nasceu em Pilar, na Paraíba, e faleceu em Currais Novos, aos cinquenta e dois anos de idade. Em viagem a Acari, conheceu Maria Benta de Albuquerque, com quem se casou em 1873. Maria Benta era viúva de Belino Pires Albuquerque Galvão, tio paterno de Pedro Paulo, e trazia do primeiro matrimônio quatro filhos. Da união entre Pedro Paulo e Maria Benta nasceram dez filhos, que cresceram e constituíram família na Fazenda Marcação, consolidando o sobrenome e o apelido que marcariam gerações. Entre esses descendentes destacam-se figuras conhecidas pelo uso consagrado do cognome “Paulo”, como Francisco Sátiro de Medeiros, lembrado como Chicó Paulo, Antônio Rafael Dantas, chamado Antônio Paulo, e André Pires de Medeiros, universalmente conhecido como André Paulo, exemplos eloquentes de como a tradição oral e comunitária se sobrepôs à nomenclatura oficial.
Dentre os filhos de Pedro Paulo, Manuel Sérgio de Medeiros, conhecido como Manuel Paulo, ocupa posição central na história mais recente da família. Nascido em 1877 e falecido em 1960, ele foi o construtor da casa grande onde se realizou o encontro familiar e avô do apresentador Ivan Medeiros. Sua trajetória familiar foi marcada por dois matrimônios. No primeiro, com Ana de Albuquerque, carinhosamente chamada Naninha, teve dez filhos, cujos descendentes hoje se espalham por diversas regiões do país. Após enviuvar, aos quarenta e oito anos, Manuel Sérgio contraiu novas núpcias com Teresa Moraes de Albuquerque, conhecida como Vó Teca, com quem teve outros filhos, ampliando ainda mais o tronco genealógico e fortalecendo os laços entre diferentes ramos familiares que se reconhecem sob a mesma designação identitária.
O primeiro encontro da família os Paulos, idealizado por Antônio Carlos Cavalcante, o Tonio Paulo, neto de Manuel Sérgio de Medeiros e filho de Maria das Neves de Medeiros, reuniu cerca de duzentos e setenta parentes oriundos de diversos estados brasileiros, como Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná e Santa Catarina. O evento foi apresentado por Márcia Medeiros e Ivan Medeiros e representou não apenas uma celebração afetiva, mas também um exercício de reconstrução histórica, ancorado na pesquisa documental e, sobretudo, na valorização da memória oral. Nesse contexto, destacou-se a presença de um primo nonagenário, descrito como verdadeira memória viva e biblioteca ambulante da família, cuja contribuição, por meio de relatos, lembranças e esclarecimentos, mostrou-se fundamental para a recomposição das trajetórias individuais e coletivas.
Mais do que um simples reencontro, a celebração assumiu o caráter de um compromisso com a preservação da história familiar e com a transmissão desse legado às gerações futuras. O desejo manifestado pelos organizadores e participantes é que aquele tenha sido apenas o primeiro de muitos encontros, capazes de fortalecer os vínculos entre netos, bisnetos, trinetos e pentanetos, assegurando que a memória dos Paulos da Marcação permaneça viva, não apenas nos documentos e registros, mas sobretudo na consciência histórica e afetiva de seus descendentes.




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