VISITA AO HISTORIADOR SÉRGIO ENILTON Sob a égide do sol inclemente e das águas perenes do Rio Acauã, a cidade de Acari ergue-se no coração do Seridó potiguar não apenas como um aglomerado urbano, mas como um palimpsesto vivo onde camadas geológicas, antropológicas e sociais se sobrepõem para narrar a epopeia do povo seridoense. 

A etimologia que batiza o município, oriunda do tupi zacaris, revela de imediato a simbiose entre o homem e o ambiente: Acari é o peixe cascudo, criatura resiliente e abundante naquelas águas, cuja existência prefigura a tenacidade dos que ali habitariam. O percurso histórico e museológico, guiado pela explicação de Sérgio Enilton no Museu Histórico de Acari, transcende a mera exposição de objetos para se tornar uma análise profunda sobre a formação de uma identidade forjada na pedra, na fé, no couro e no algodão.

A ocupação humana neste território antecede em milênios a colonização lusitana, remetendo a uma era em que a nação Tapuia, especificamente os indígenas Tarairiús, dominava a paisagem.  Vestígios arqueológicos datados de mais de nove mil anos atestam a presença de uma civilização complexa, cujos integrantes, diferentemente da imagem estereotipada do indígena com arco e flecha, eram guerreiros de combate próximo, munidos de lanças e tacapes, e caçadores adaptados à aridez. 

Estes povos, que deixaram sua cosmogonia gravada em pinturas rupestres elaboradas com minerais e gordura animal nas rochas da região, protagonizaram a feroz resistência conhecida como a Guerra dos Bárbaros ou Confederação dos Tapuias, transformando o vale do Rio Acauã em um epicentro de beligerância contra o invasor europeu. A pacificação, selada tardiamente através de acordos como os do Rei Janduí, permitiu o avanço da frente colonizadora que viria a redesenhar a demografia local.

A gênese da urbe acariense, contudo, entrelaça o pragmatismo geográfico à devoção religiosa. O local, inicialmente conhecido como Poço do Felipe, servia de ponto estratégico de paragem para as tropas que transitavam entre Pernambuco e o Ceará. Todavia, a fixação definitiva e a nucleação urbana devem-se a Manuel Esteves de Andrade pela construção da primeira capela por motivo de promessa feita à Nossa Senhora Da Guia por tê-lo salvo da perseguição feroz do gentio hostil. Assim, o povoado nasceu sob o signo da fé, crescendo ao redor do templo sagrado, consolidando-se como um bastião civilizatório no interior da capitania.

A evolução socioeconômica de Acari, e por extensão do Seridó, pode ser compreendida através da dicotomia de dois grandes ciclos econômicos que moldaram não apenas a riqueza, mas a própria arquitetura e o tecido social: o ciclo do couro e o ciclo do algodão. O primeiro, caracterizado pela pecuária extensiva destinada a abastecer os engenhos litorâneos, inaugurou a era das grandes fazendas e solidificou a figura do coronel. Foi neste período que a paisagem foi cortada pelas monumentais cercas de pedra — as muralhas do sertão — e a vida social restringia-se aos alpendres das casas térreas e aos ritos eclesiásticos. 

A autoridade dos coronéis era tamanha que transcendia a lei oficial, como ilustra o episódio em que o cangaceiro Antônio Silvino, ao interceptar as filhas do Coronel Silvino Bezerra, ordenou respeito reverencial ao seu bando, reconhecendo uma hierarquia de poder que nem o banditismo ousava violar. Subsequentemente, a introdução do algodão Mocó, o "ouro branco", desencadeou uma revolução urbanística e demográfica. A necessidade de escoar a produção exigiu o alargamento das vias para o tráfego de caminhões, alterando a morfologia das ruas antes desenhadas para o passo do gado. 

A prosperidade do algodão elevou as edificações, fazendo surgir os sobrados de dois andares como símbolos de status, e deslocou a sociabilidade para a praça pública, onde o coreto passou a ser o palco da vida mundana. Demograficamente, a demanda por mão de obra na colheita incentivou a prole numerosa, consolidando as vastas famílias patriarcais que até hoje dominam a genealogia local. O guardião material dessa trajetória é o Museu Histórico de Acari, instalado no imponente prédio da antiga Casa de Câmara e Cadeia. Tombada pelo IPHAN desde 1964, a edificação é um monumento à dualidade do poder colonial e imperial: o pavimento superior, outrora sede da administração e da Câmara, representava a ordem e a lei, enquanto o térreo, com suas enxovias de paredes espessas, destinava-se à punição e ao encarceramento. 

Hoje, ressignificado, o edifício converteu as antigas celas em módulos expositivos que narram a vida laboral e doméstica do sertanejo. Onde antes se privava a liberdade, agora se expõe a liberdade da criação humana: o ciclo do algodão ocupa a cela maior; a antiga cela feminina abriga a história da pesca e do Rio Acauã; e outros espaços detalham a produção do queijo de coalho e de manteiga, bem como a vida na "casa de taipa".

O acervo é de uma riqueza antropológica ímpar, contendo desde os ferros de marcar gado, que serviam como brasões das famílias fundadoras, até o "búzio", instrumento de sopro utilizado para convocar os trabalhadores no campo.  No andar superior, o museu preserva a memória política e genealógica, com destaque para a figura de Thomaz de Araújo Pereira, considerado o "Adão do Seridó", e para a influência da Igreja, personificada no Cardeal Dom Eugênio Sales.  A exposição não omite os aspectos da vida privada colonial, revelando curiosidades linguísticas e comportamentais, como a origem do termo "alcoviteira" associado aos quartos sem janelas (alcovas). 

Portanto, ao percorrer os corredores deste edifício que já foi símbolo de repressão, o visitante depara-se com a alma de Acari, uma cidade que, orgulhosa de seu título de "a mais limpa do Brasil", preserva com zelo historiográfico a memória de suas águas, de suas pedras e de sua gente, mantendo vivo o legado de uma civilização que floresceu contra todas as probabilidades no coração do semiárido.

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