FAMÍLIA PIRES DO SERIDÓ
Major ANTÔNIO PIRES DE ALBUQUERQUE GALVÃO (1797/1857). Filho de Antônio Pires e de Teodora de Jesus. Esposo de GUILHERMINA FRANCISCA DE MEDEIROS ROCHA (1802/1840). Filha do Capitão-mor Manoel de Medeiros Rocha e de Anna Pereira de Araújo. Genitor de Antônio Pires de Albuquerque Galvão Júnior; Sérvulo Pires de Albuquerque Galvão; Teodora Maria de Jesus; Belino Pires de Albuquerque Galvão; Ana Maria de Jesus; Manoel Pires de Albuquerque Galvão; Bernadino Pires de Albuquerque Galvão.
Antes de adentrar nos relatos passados de geração em geração, é importante destacar o pensamento liberal que remontava o fim do século XVIII, quando tivemos a Revolução Francesa e a Independência dos Estados Unidos. Segundo os conceitos do liberalismo, o homem é naturalmente livre, então, buscou-se limitar-se o poder de atuação dos Estados para dotar de maior força a autonomia privada e deixar o Estado apenas como força de harmonização e consecução dos direitos.
O governo que estava submetido à Província pernambucana era experimentado em guerras, batalhas, saques aos povos subjugados. Época em que se deu a volta de D. João à Portugal. Ressaltada 'volta' era uma consequência direta da Revolução do Porto de 1820 e da convocação das Cortes, que idealizavam o retorno da família real e da Corte portuguesa, esta última entendida como o conjunto de órgãos públicos responsáveis pela administração do Estado.
As principais revoluções ocorridas durante o Período Joanino foram a Revolução Pernambucana (1817), movimento com influências iluministas, composto por senhores rurais e homens livres que se manifestavam contra aos altos impostos gerados pelos vultuosos gastos da Corte no RJ e que desejavam maior participação política; e Dessa forma, D. João VI foi para Portugal deixando D. Pedro, seu filho, como príncipe regente no Brasil. Por sua vez, o Governador de Pernambuco à época Luís do Rego Barreto (1778-1840) foi um militar português que lutou na guerra contra os franceses na ocupação napoleônica, ao lado dos ingleses e espanhóis.
Era um general deveras violento e autoritário. Chegou ao Brasil, nomeado pelo rei D. João VI, para reprimir o sentimento de rebeldia que caracterizava os pernambucanos. Nesse contexto ocorreu uma cisão política no Brasil: Partido Português (funcionários públicos, militares e comerciantes portugueses) que concordava com a política das Cortes de Portugal x Partido Brasileiro (grandes latifundiários) que defendia a manutenção do liberalismo comercial. Contudo, em Recife o clima era tenso, culminando na tentativa de morte do próprio governante da destacada Província de Pernambuco. Esta foi uma província do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, e posteriormente do Império do Brasil, tendo sido criada em 28 de fevereiro de 1821 a partir da Capitania de Pernambuco.
As prisões estavam cheias, o terror tomava conta do Recife, de Olinda e do interior da Província pernambucana. A urbe estava tensa e a população decidiu combater. Assim, como justificar o combate contra o governante opressor? Focando no objeto da nossa revelação, foi tirado a sorte dentre os jovens para saber quem iria efetuar o combate ao último administrador português. Já diz o dito popular, 'pode ser sorte ou pode ser azar' (...), o certo é que sobrou para ANTÔNIO PIRES DE ALBUQUERQUE GALVÃO e JOÃO SOUTO MAIOR, este, pagando com a própria vida. Reverenciado com nome de rua próximo à Ponte Boa Vista (local dos fatos).
No dia 20 de julho de 1821, os destinados sorteados dentre um grupo de jovens atentaram contra o supracitado Marechal, a qual utilizaram arma de fogo, quiçá uma garrucha. Perseguidos, JOÃO SOUTO MAIOR lançou-se ao rio e momentos depois foi encontrado morto. O marechal LUÍS DO REGO BARRETO, ferido, foi levado para restabelecimento na casa do senhor de engenho local. Já ANTÔNIO, teria que evadir-se do Recife e se enfurnou num Armazém que estocava sal.
O ocorrido de per si, não os fez criminosos comuns, nem homicidas, nada disso. Para a população pernambucana era questão de limite à imposição abusiva e que fossem elevados os guerreiros. Como bem disse Câmara Cascudo: "Moço forte, bonito." (...) Chegou até o Armazém de Sal, que era um edifício na Rua da Conceição para a Rua do Hospício, que lhe ficava na parte posterior. No local estava o Capitão-mor MANOEL DE MEDEIROS ROCHA, filho de RODRIGO MEDEIROS ROCHA e genitor GUILHERMINA FRANCISCA DE MEDEIROS, que ao encontrá-lo passou a lhe dar proteção.
Ausência de Recife seria a única alternativa para salvaguardar a vida do predestinado. E nada poderia levar, nem mesmo as próprias roupas, dado o disfarce necessário em meio aos serviçais. Na madrugada, o "comboio" portando bruacas de couro contendo rapadura, mel, tecidos e alguns itens advindos da Europa se moveu pela antiga estrada rumo à Parayba, passando pela antiga estrada de GOIANA.
Vez por outra a história reaparece como a aurora diária em nossas vidas. É justamente da localidade ‘Boa Vista’ em Recife – Pernambuco, que ANTÔNIO PIRES D’ALBUQUERQUE GALVÃO (1797-1857) vai partir para construir uma numerosa prole no sertão seridoense ao matrimoniasse com a filha do Capitão-mor indo residir na Fazenda Glória próxima à Vila do Príncipe. A historiografia oficial deu pouco destaque ao incidente, contudo, não menos importante do que as revoltas eclodidas em todo o Brasil no ressaltado período monarquista.
Major SÉRVULO PIRES DE ALBUQUERQUE GALVÃO (1829/1918).
Filho de Antônio Pires de Albuquerque Galvão (1797/1957) e de Guilhermina Francisca de Medeiros Rocha (1802/1840). Esposo de Josefa Pires de Albuquerque Galvão (1841/1916) irmã do Cel. Silvino Bezerra de Araújo Galvão, vice governador do Rio Grande do Norte e líder político da cidade de Acari/RN. Genitor do Cel. Sérvulo Pires de Albuquerque Galvão Filho (1857/1927); Maria Jerônima de Albuquerque Galvão (1863–1916); Teodora Cândida de Albuquerque Galvão (1869/1947); Adonias Pires de Albuquerque Galvão; Francisco Braz de Albuquerque Galvão (1873/1938); Cipriana Galvão Bezerra (1874/1933).
Tenente-coronel ANTÔNIO PIRES DE ALBUQUERQUE GALVÃO (1849-1934) O 'major' Pires como era populamente mencionado, nasceu em 08 de Novembro de 1849 e faleceu em 24 de Maio de 1934. O seu pai faleceu moço, com apenas quarenta anos de idade das febres forte envolto em mantas e está sepultado no cemitério do Bico da Arara, que se encontra, atualmente, abandonado. O Major foi casado duas vezes, a primeira com Porphíria Alexandrina de Jesus e a segunda com Nathália Augusta Pires (Araújo, nome de solteira). Do primeiro consórcio matrimonial advém a seguinte prole: Enéas Pires Galvão; Cipriano Pires Galvão; Antônio Pires Galvão; João Deão Pires Galvão; Francisco Elviro Pires de Albuquerque Galvão; José Pires Galvão; Leônidas Pires Galvão; Horácio Pires Galvão; Terezinha Pires Galvão; Ana Pires Galvão.
Já do segundo casamento temos: de onde advém o famoso e destacado neto - poeta Dr. José Gonçalves de Medeiros.
JOSÉ BRAZ DE ALBUQUERQUE GALVÃO (1896 - 1983). Filho de Francisco Braz de Albuquerque Galvão e Isabel Bezerra de Araújo. Contraiu matrimônio em 28/11/1918 com CANTÍDIA AUDA PIRES GALVÃO, filha de João Alfredo Pires de Albuquerque Galvão e Cecília Celestina de Oliveira. Ambos bisnetos do Major Antônio Pires de Albuquerque Galvão e Guilhermina Francisca de Medeiros. Em sua biblioteca particular continha os livros: "COMO FAZER AMIGOS E INFLUENCIAR PESSOAS" de Dale Carnegie; Toda a coleção de José de Alencar e outros não menos raros. Neste espaço que abrigou ou, abriga, ressaltada biblioteca, contém aberturas nas paredes que direcionam para as 'entradas' que davam acesso às porteiras do terreiro do sobrado. Artimanha para focar as carabinas Winchester 44, armas fabricadas pelo Winchester Repeating Arms Company que comumente foi usada nos EUA. Importada pelos brasileiros na última metade do Séc. XIX e início do XX, para se protegerem de levantes ditos comunistas, ou empreitadas de bandos criminosos conhecidos como cangaço.
ARNAULD PIRES FERNANDES (1911 - 1986). Nasceu em Acari/RN. Filho de Aurélio Pires de Albuquerque Galvão e de Emérita Fernandes Pires. Neto do Juiz Manoel José Fernandes pela linha materna e bisneto do Major Antônio Pires de Albuquerque Galvão. Casou com Elza Clarindo Pires Fernandes (1918/2014) em Altos/PI. Ela nasceu em Nova Russas/CE . Desse enlace matrimonial adveio a seguinte descendência: Charles Arnaud Pires Fernandes, Maria Emérita Fernandes Brito, Maria dos Remédios Pires Fernandes, Sônia Maria Pires Fernandes, Helena Maria Pires Fernandes, Gilda Maria Pires Fernandes, Lêda Maria Pires Fernandes, Iêda Maria Pires Fernandes e José Aurélio Pires Fernandes. Além de 20 (vinte) netos e outros tantos bisnetos.
ADONIAS PIRES DE MEDEIROS (1923/2005). Nasceu em Currais Novos/RN (Galvanopólis). Neto de Manoel Sérgio Dantas e, bisneto de Maria Benta de Albuquerque que veio do município de Acari/RN para a Fazenda Marcação. Pentaneto do Presidente da Província do Rio Grande Tomás de Araújo Pereira (terceiro) e tetraneto de Antônio Pires de Albuquerque Galvão (Primeiro). Seu aspecto físico muito se assemelha ao do seu tio: Vigário Tomaz Pereira de Araújo, deputado provincial por quatro legislaturas no Século XIX. Casou-se com Maria Costa Medeiros, também natural da mesma cidade Galvanopólis/RN. Só que o encontro dos dois foi em terras mineiras. Ele veio de navio pelo Rio de Janeiro e ela, em "pau-de-arara". Dessa união, tiveram dez filhos: Nilson, Maria de Lourdes, José Divino, Carlos Humberto, Marcivan, Elcio, Lucimar, Lunalva, Eliene e Elvio. Goiás e Minas Gerais, são terras desbravadas por esta família. O maior legado de Adonias Pires de Medeiros foi a alegria e a honestidade transferida aos descendentes. Exímio contador de "causos", rimas e trovas conseguia prender a atenção de todos. Partiu para a morada celeste aos 13 de março de 2005, em Tupaciguara-MG.
Filhos, netos e bisnetos
Dr. PAULO GONÇALVES PIRES DE MEDEIROS (1921/2007). Nasceu em Acari/RN. Filho de Mário Gonçalves de Medeiros e de Porfíria Euzébia Pires de Medeiros. Ainda muito moço foi estudar em Recife/PE, concluindo curso de Medicina no ano de 1947. Formado, encaminhou-se para Jardim do Seridó/RN, convidado pelo Cel. João Medeiros para exercer a profissão nesta cidade, onde fixou residência em substituição ao então Dr. Ruy Mariz. Casando-se com a jardinense, Maria dos Milagres Medeiros. Do casal nasceram: Drª Fabíola Gonçalves de Medeiros; Drª Patrícia Gonçalves de Medeiros; Dr. Paulo Gonçalves de Medeiros Filho e Dr. Sérgio Gonçalves de Medeiros. Seus primeiros anos foram de muitas dificuldades, pois não dispunha de recursos nem mesmo para montar um consultório. Dois anos depois já tinha clinicas com clientes espalhados em diversos municípios, tais como: Ouro Branco, São Jose do Seridó, Carnaúba dos Dantas, Equador, Junco e Cruzeta. Exerceu a profissão de médico, em contato direto com o sofrimento do povo, com o drama das populações pobres, numa região sofrida como o Seridó, procurando atender e clinicar a quantos o procurassem, numa época em que tudo era escasso. Essa frente de luta lhe despertou o interesse pela política. Ingressou na política como Prefeito de Acari, sua terra natal, onde conseguiu realizar obras importantes como a pavimentação de 50% da cidade e construção de praças. Segundo relatos foi em sua administração que a cidade de Acari conquistou o titulo de Cidade mais Limpa do Brasil. Daí partiu em 1961 para a Assembléia Legislativa, representando o Seridó, como candidato a deputado estadual indicado pelo Cel João Medeiros, tendo sido eleito no dia 03 de outubro de 1962. Dr. Paulo conseguiu cinco vezes consecutivas a cadeira de Deputado Estadual: de 1963 a 1967; de 1967 a 1971; de 1971 a 1976; de 1976 a 1980 e de 1980 a 1984, tendo sido eleito primeiro Vice-Presidente e depois Presidente da Assembléia. Sua trajetória política foi marcada na luta pelos direitos dos agricultores. Como deputado, fez parte de várias comissões, como as relativas ao crédito rural, à saúde e aos problemas advindos de estiagem. Seu último cargo público foi o Tribunal de Contas, escolhido no então governador Lavoisier Maia. Sua efetiva liderança é atribuída, primeiro a seu prestígio alicerçado em trabalho como médico; segundo ao apoio que sempre recebeu de lideranças expressivas, como o Deputado Federal Ulisses Bezerra Potiguar e a família Medeiros; e pelo seu trabalho parlamentar, foi um dos mais sérios na abordagem de problemas em nosso Estado, numa vigorosa afirmação de atitudes a serviço de grandes campanhas, às quais se entregava com ardor. O Deputado Paulo Gonçalves, durante seus mandatos na Assembléia, sempre atuou com o máximo de eficiência e serenidade. Seus pronunciamentos atraíam a atenção do plenário e da imprensa porque se prendiam a temas ligados aos problemas econômicos e sociais, principalmente, os ligados à pecuária e ao algodão. Vale salientar que o homem do campo em nosso Estado tem no Dr. Paulo, uma voz em defesa dos seus interesses e na busca permanente de soluções ao Governo de como enfrentar suas dificuldades. Cabe destacar sua marcante atividade em nossa vida intelectual e cultural, sua atuação como professor na antiga Escola Normal Regional e, sobretudo o generoso e efetivo apoio dado à Festa dos Negros do Rosário. Em 7 de agosto de 1972 recebeu da Câmara Municipal o título honorífico de “Cidadão Jardinense”.
FRANCISCA PIRES GALVÃO (1936-) Esposa de Antônio Pires Galvão. Filha de João Raphal Dantas e de Joana Petronila de Medeiros. Neta de Pedro Paulo de Medeiros Dantas e de Maria Benta de Albuquerque. Bisneta de Antônio Pires de Albuquerque Galvão Júnior e de Porphíria Alexandrina de Jesus. Lembro na sua vereança de seis anos 1976-1982), onde apresentou projetos de pavimentação da estrada Acari- Gargalheiras. Requerimento para implantação do transporte escolar na zona rural, reativação do clube de mãe, incentivo ao artesanato local dentre outros. Sempre muito atuante nas aprovações de projetos de importância para o município e exercendo o papel de fiscalizar o Poder Executivo, acompanhando as ações e políticas públicas desenvolvidas pelo prefeito e seus secretários e ao detectar falhas tornava pública nas reuniões da câmara e contava sempre com a presença e apoio popular.
O doutor Paulo Bezerra, que está se preparando para ser entrevistado no Programa Memória Viva, o que deve acontecer no decorrer desta semana, me mandou carta ainda com data de setembro (dia 22), mas que me chegou às mãos somente na véspera do feriado dos mártires de Cunhaú e Uruaçu. Um feriado, aliás, sem graça, mesmo com todo o respeito que me merecem os beatos trucidados por Jacob Rabi. Bom, mas isso é uma outra história, e voltemos à carta do doutor Paulo Balá, onde é contado quando e como o primeiro jumento apareceu nos sertões do Seridó. Atrás do coice da jumentada o ilustre missivista entra pelas veredas da etnografia e, naquele seu jeitão, estilo e linguagem inconfundíveis, próprios do verdadeiro escritor que ele é, vai enfileirando preciosas revelações em torno da arte e do ofício de se fazer cangalhas e todos os apetrechos que se botam em cima do animal que tanto serviço prestou - e ainda presta - à civilização sertaneja. Vejamos:
Ipueira, 22 de setembro de 2007.
Sede da Fazenda Acauã onde Maria Beatriz Pereira de Medeiros passou toda a sua infância. Ela, neta do Deputado Estadual Enéas Pires Galvão (1889 - 1961). Hoje esta casa sede se encontra fechada, sendo acolhida e protegida pelo IPHAN, não obstante propriedade privada pertencente a um primo de Enéas Pires Galvão. A atuação do Iphan no Rio Grande do Norte teve início com o primeiro tombamento, a Fortaleza dos Reis Magos, em 1949. Antes de ser criada a Superintendência - em 2009 - havia o Escritório Técnico vinculado a então coordenadoria do Ceará, na década de 1960. A atual sede serviu para diferentes finalidades, inclusive de residência do santo popular de Natal, o padre João Maria, cuja beatificação encontra-se em andamento. Porém, sua utilização mais remota data do início do século XVII, quando o imóvel foi construído para abrigar o Armazém Real da Capitania do Rio Grande. O primeiro marco de posse erguido no Brasil pelos portugueses, datado de 1501, está no Rio Grande Norte, e é conhecido como o Marco Quinhentista de Touros. Foi fincado no local onde aportou a expedição comandada por Gaspar Lemos, na praia de Touros, no Cabo São Roque. Mais tarde, foi considerada como uma pedra milagrosa pelos habitantes que começaram a retirar pedaços para fazer um chá que, supostamente, ajudava na recuperação de doentes. O Marco foi transferido para Natal, a capital do Estado, e está na Fortaleza dos Reis Magos desde 1976, protegido pelo Iphan. São 47 bens tombados em nove municípios Rio Grande do Norte, dentre os quais 37 imagens sacras, nove edificações, e um bem de natureza imaterial - a Festa de Santana de Caicó. Nas páginas 79 e 80, da lista de bens materiais tombados e processos em andamento (1938 a 2015) que reúne informações sobre todo o Brasil, estão os bens tombados pelo Iphan, no Estado do Rio Grande do Norte.
VICENTE APRÍGIO DE ARAÚJO GALVÃO (1940 - 2014). Filho de Manoel Aprígio de Araújo Galvão e de Tereza Pires Galvão. Neto de Joaquim Theotônio de Araújo Galvão, sendo bisneto de Ana Marcolina de Jesus (Aninha do Ingá). Neto pela linha materna Tenente-Coronel Antônio Pires de Albuquerque Galvão (Major Pires). Esposo de Benedita Dantas de Araújo. Genitor de Manoel Aprígio de Araújo Neto (Neto Veterinário), Bianca e Betânia.
Fotos: Renato de Melo Medeiros e arquivo pessoal
A ESTILISTA SERIDOENSE
Ela é natalense, seridoense de origem (Acari e Currais Novos) e desde pequena se interessou pelo mercado de moda, quando enchia o quarto com coleções e coleções de revistas especializadas. Foi morar em Belo Horizonte, virou estilista de verdade, e hoje, de volta ao RN, produz para a Anna Marcolina, grife própria que ela vende em todo o Brasil e na loja A Villa, em Currais Novos, onde mora a mãe e onde ela se instalou num casarão antigo que chama atenção dos fashionistas de plantão. Sobrinha da poetisa Zila Mamede, Luciana une o fashionismo que corre nas suas veias, com a cultura que herdou. De Zila e da família, dedicada às letras. Luciana Mamede Galvão, que no próximno dia 31, lança em Natal a coleção Verão 2011, na Marial Modas, é a entrevistada de hoje do Fim de Semana.
Há cidades cuja história se escreve com a firmeza das pedras, e outras que se moldam pela delicadeza das mãos que lhes ensinaram a ler o mundo. Acari, no coração do Seridó potiguar, nasceu entre ambas as forças: a dureza do chão sertanejo e a ternura persistente de suas educadoras. Entre os nomes que permaneceram gravados na memória do município, três mulheres da família Pires Galvão erguem-se como marcos de uma longa travessia educacional: Cantídia Auta Pires Galvão, Porfíria Pires Galvão e Terezinha de Lourdes Galvão. São figuras distintas na forma e no tempo, mas unidas por um propósito comum — a construção do saber como ferramenta de vida, liberdade e futuro.
A primeira delas, Cantídia Auta Pires Galvão, nascida em 5 de agosto de 1902, filha de João Alfredo Pires Galvão e Cecília Pires de Oliveira, não empunhou o giz nem exerceu o magistério, mas construiu, dentro das paredes de sua casa, a base moral, afetiva e intelectual que moldaria duas gerações de educadores e gestores públicos. Casada em 1918 com José Braz de Albuquerque Galvão, Cantídia enfrentou o ciclo da maternidade com uma coragem quase épica: foram vinte e um filhos, dos quais oito sobreviveram. É pelas mãos desses filhos — e, sobretudo, por suas trajetórias públicas — que seu nome se projetaria para além da memória familiar.
De sua descendência nasceriam dois pilares para a história educacional de Acari. José Braz Filho, fazendeiro, vereador e prefeito por dois mandatos, tornou-se reconhecido como o gestor que mais construiu escolas no município. Em seu governo, a educação adquiriu novas paredes, novos pátios, novos horizontes. Sua irmã, Natércia Galvão, ofertou à cidade uma vida inteira dedicada ao magistério e à administração educacional, chegando a ocupar o cargo de Secretária de Educação por vários anos. Hoje, com mais de noventa anos, permanece lúcida, testemunha viva de um século em que a educação acariense se fez e refez tantas vezes.
É natural, portanto, que a homenagem a Cantídia tenha vindo por linhas que, embora indiretas, revelam um profundo reconhecimento comunitário. Em 8 de abril de 2003, pela Lei Municipal nº 772, o então prefeito Dr. Juarez Bezerra de Medeiros instituiu a Escola Municipal Cantídia Auta Pires Galvão. A criação da escola não apenas eternizou o nome da matriarca, mas consolidou o tributo às benfeitorias educacionais promovidas por seus filhos, especialmente por José Braz Filho e Natércia Galvão. E o gesto foi também, ainda que de modo silencioso, uma retificação histórica: esclareceu-se, enfim, que aquela instituição não devia ser confundida com a creche que funcionou por volta de 1989 na Rua Vicente de Moura, nem com a Escola Municipal Professora Raimunda Rosália Ramalho, criada pela Lei nº 616 de 16 de fevereiro de 1994, instalada no antigo matadouro público.
Se a história de Cantídia se constrói pelo legado que brotou dos outros, a trajetória de Porfíria Pires Galvão, nascida em 1881, filha de Manuel Pires de Albuquerque Galvão e Maria Collecta de Albuquerque, revela uma força íntima, individual, que o destino tentou interromper, mas não conseguiu silenciar. Conhecida na cidade como “Porfíria Aleijada” — alcunha dura, que perdura como marca do imaginário popular — foi antes de tudo uma jovem descrita como alegre, bonita, frequentadora dos bailes e festas sociais que animavam Acari no início do século XX. Foi aluna de seu tio materno, o professor Thomaz Sebastião, em um tempo anterior até mesmo à existência de escolas formais na cidade.
Uma febre tifoide, porém, alterou radicalmente o curso de sua vida. As sequelas transformaram-se em um reumatismo crônico que a condenou à cadeira de rodas. E é justamente nesse limite físico que sua vocação para o magistério encontra seu caminho mais luminoso. Incapaz de se locomover com liberdade, converteu a própria casa em sala de aula, ensinando por mais de trinta anos a crianças acarienses que a visitavam diariamente. Sua dificuldade de locomoção, que a impediu de frequentar a igreja sem o auxílio de dois homens que carregavam sua cadeira de madeira, nunca lhe tolheu o ímpeto de ensinar. Foi uma educadora de grande ternura, carinhosa e tolerante, tratada por seus alunos com o nome afetuoso de “Madrinha”. Também era Irmã Franciscana Secular, vivendo intensamente a fé que lhe moldava o caráter.
O reconhecimento institucional veio ainda durante a década de 1930, quando, em 10 de abril de 1931, o prefeito Cel. Cipriano Bezerra Galvão Santa Rosa criou a Escola Municipal Manoel Augusto Bezerra, nomeando Porfíria como mestra. A escola funcionou em duas salas de sua residência, em um gesto que unia o espaço doméstico e o espaço do ensino, convergidos pela necessidade e pela vocação. Décadas depois, em 11 de maio de 1992, o nome de Porfíria foi eternizado na criação da Escola Municipal Professora Porfiria Pires Galvão, por meio do Decreto nº 127-A, também durante a gestão do prefeito Dr. Juarez Bezerra de Medeiros. A instituição funcionou primeiro na Rua Pedro Estevam de Medeiros e, posteriormente, na Rua Desembargador Silvino Bezerra, ocupando o antigo prédio da Escola Estadual Cônego Ambrósio, fundada em 1967 pelo Governador Monsenhor Walfredo Gurgel.
Se Porfíria representa a resistência do espírito sobre o corpo, Terezinha de Lourdes Galvão — ou simplesmente “Lourdinha” — traduz a intensidade de uma vida vivida com urgência, sensibilidade e propósito. Nascida em 1944, filha de João Bezerra Neto e Francisca Pires Galvão, iniciou os estudos aos seis anos na Escola Enéas Pires Galvão, no Sítio Cabeço Branco, propriedade do avô materno. Após concluir o primário no Grupo Escolar Thomaz de Araújo, interrompeu a trajetória escolar para dedicar-se à família. Casada com Airon Pires Galvão, tornou-se mãe de sete filhos, aos quais ofereceu o mesmo zelo com que mais tarde dedicaria à escola.
Quando decidiu retomar os estudos, sua coragem tornou-se exemplo. Em 1972, reiniciou a formação no Ginásio Supletivo. Em 1975, ingressou no curso de Magistério. Em 1978, foi aprovada no vestibular para Letras e, seis meses depois, transferiu-se para Pedagogia, curso que abraçava sua verdadeira vocação, embora não chegasse a concluí-lo. A intensidade com que voltou à educação refletiu-se em uma carreira multifacetada: foi professora no Sítio Sobradinho, na Escola Municipal Dr. Odilon Guedes e na Escola Normal de Acari; assumiu funções administrativas como auxiliar de biblioteca, datilógrafa da Secretaria de Educação e supervisora da Educação Integrada do Mobral; foi vice-presidente do Centro Cívico Marechal Rondon; atuou como diretora substituta da Maternidade de Acari e vice-diretora da Escola Estadual Dr. José Gonçalves de Medeiros. Em todas as funções, deixou a marca da serenidade, da compreensão, da lealdade e da correção ética que todos reconheciam como traços fundamentais de sua personalidade.
Terezinha faleceu prematuramente aos 37 anos, em 1981, mas sua vida curta ressoou com uma força que só as existências intensas conseguem emitir. Em 1º de dezembro de 1986, pela Lei nº 518, instituída pelo então prefeito José Braz Filho — sobrinho de Lourdinha por casamento — a Escola Municipal Professora Terezinha de Lourdes Galvão foi criada em sua homenagem, selando um elo comovente entre duas gerações de uma mesma família: a matriarca que formou o prefeito e a educadora que inspirou sua gestão.
As histórias de Cantídia, Porfíria e Terezinha se entrelaçam com o próprio caminho da educação em Acari, cuja institucionalização remonta ao início do século XX. O Grupo Escolar Thomaz de Araújo, considerado a primeira escola do município, começou a funcionar em 1908 por iniciativa de Francisco Bezerra de Araújo Galvão e com doações de fazendeiros locais, ocupando o prédio onde hoje está a Câmara de Vereadores. Foi oficializado pelo decreto nº 193 de 13 de março de 1909, tornando-se o segundo grupo escolar do Seridó. Em 19 de abril de 1941, a pedido do prefeito Ângelo Pessoa, iniciou-se a construção de um novo edifício ao lado da Matriz, inaugurado em 1º de agosto de 1942. É crença viva na memória local que o primeiro professor a ensinar na instituição, ainda em 1908, tenha sido Thomaz Sebastião — o mesmo mestre que formou Porfíria no tempo anterior às escolas formais.
Assim, as três mulheres da família Pires Galvão — Cantídia, Porfíria e Terezinha — ocupam, cada qual à sua maneira, lugar definitivo no gesto contínuo de alfabetizar e iluminar Acari. A educação, que nelas se revelou ora pela força íntima da vocação, ora pela maternidade capaz de formar líderes educacionais, ora pela coragem de recomeçar, tornou-se o fio que costura suas histórias às da cidade. São lembradas não apenas pelas escolas que levam seus nomes, nem apenas pelos votos de reconhecimento público, mas pelas vidas que moldaram, pelos filhos e alunos que formaram, pelos exemplos que deixaram em suas trajetórias singulares.
Acari hoje lê, escreve e se reinventa também porque essas três mulheres, em tempos e condições tão diferentes, acreditaram que ensinar — no lar, na memória, na sala de aula ou mesmo sobre uma cadeira de rodas — era uma forma de plantar futuro no chão seco do Seridó. E esse futuro, teimoso como o mandacaru, continua a florescer.
Foi comemorado em grande estilo o centenário (1923/2023) da Fazenda YPIRANGA . Os herdeiros ADONIAS GALVÃO E DEMAIS FAMILIARES promoveram como bons seridoenses uma belíssima recepção.
















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