MEMÓRIAS DO PADRE JOÃO MEDEIROS FILHO - UMA VIDA DE ENCONTRO, FÉ E CULTURA

 



A extensa produção do Padre João Medeiros Filho, um intelectual e sacerdote com vasta experiência, foi aqui contemplada, sendo uma oportunidade para discutir momentos cruciais de sua vida eclesiástica e secular. 

O padre participou como tradutor no Concílio Vaticano II, onde teve contato com figuras importantes da Igreja, incluindo São João XXIII e São Paulo VI. 

Ele também compartilhou anedotas sobre sua vida no Rio de Janeiro, sua carreira acadêmica e seu envolvimento com a política cultural brasileira, destacando seu trabalho na codificação da literatura de cordel e sua passagem pelo Ministério da Educação. 

Finalmente, a conversa explora suas memórias de infância e a história cultural da região do Seridó, enfatizando a importância de preservar a gastronomia e o legado holandês da área.

A trajetória do Padre João Medeiros Filho é um testemunho de fé, coragem e dedicação tanto à Igreja Católica quanto à cultura brasileira, especialmente à memória do Seridó, sua terra natal.

Nascido em 1941, no mesmo dia em que Dom Delgado foi nomeado Bispo de Caicó, veio ao mundo sob o signo da seca e da esperança. Sua família projetava sobre ele expectativas distintas: o pai desejava um filho político, enquanto a mãe sonhava com um filho sacerdote. A história seguiria, contudo, o caminho materno.

Ainda criança, ingressou no Seminário Santo Cura de Ars, em Caicó, com apenas onze anos, em 1952. Dali partiu para outros seminários em Mossoró, Natal, João Pessoa e Olinda, consolidando sua vocação.

O destino o levaria ainda mais longe: por meio de uma bolsa de estudos concedida pelo governo belga, viveu cinco anos na Bélgica, onde realizou mestrado e doutorado em Teologia, sendo acólito de grandes nomes da Igreja, como o Cardeal Cardijn, e convivendo com importantes teólogos do Concílio Vaticano II.

Sua redação para o processo de seleção, na qual destacou os vínculos históricos entre a família real belga e o Brasil, foi decisiva para abrir-lhe as portas do continente europeu. Sua participação no Concílio Vaticano II (1962–1965) marcou definitivamente sua vida.

Na condição de tradutor, auxiliava bispos nordestinos a compreender os documentos promulgados em latim e francês, atuando como um verdadeiro “perito”, ainda que com humildade se definisse apenas como “simples tradutor”. Nesse ambiente de efervescência espiritual e renovação eclesial, teve encontros significativos com figuras que se tornariam santos, como João XXIII, Paulo VI e João Paulo II.

Recorda, com humor, a resposta espirituosa do Papa João XXIII à sua pergunta sobre o número de funcionários no Vaticano: “Aqui é como em Brasília: trabalha menos da metade.” Este episódio simboliza o espírito de simplicidade e humanidade que marcou aqueles dias. Também conheceu São Pio de Pietrelcina, incentivado por Dom Delgado a beijar-lhe a mão como sinal de reverência.

Embora profundamente identificado com o espírito de abertura e diálogo do Concílio, não deixou de criticar posturas que considerava intransigentes, como a de Frei Damião, a quem chegou a interpelar publicamente, revelando desde cedo uma postura crítica e progressista.

Sua vida, porém, não se restringiu ao âmbito eclesiástico. Um diagnóstico severo de síndrome de Hodgkin o levou ao Rio de Janeiro, sob a previsão médica de apenas seis meses de vida. Contra todas as expectativas, sobreviveu e transformou essa adversidade em ponto de partida para uma nova fase de atuação. No Rio, tornou-se professor universitário e iniciou uma carreira de destaque na vida cultural e administrativa do país.

Na Fundação Casa de Rui Barbosa, dedicou-se à catalogação da literatura de cordel, então alvo de grande interesse de pesquisadores estrangeiros. Em seguida, assumiu a Secretaria Executiva do Conselho Federal de Cultura, de onde teve contato privilegiado com o universo artístico e literário brasileiro.

Trabalhou ao lado de nomes expressivos como Celso Furtado, primeiro Ministro da Cultura, e Hugo Napoleão, de quem foi assessor direto. Sua atuação como delegado do Ministério da Educação no Rio de Janeiro revelou um lado combativo e destemido: enfrentou a corrupção que grassava em faculdades particulares controladas por grupos ilícitos, mesmo sob ameaça. Também elogiou publicamente a integridade do ministro Marco Maciel, a quem considerava um dos mais honestos estadistas que conheceu.

Paralelamente, manteve intensa atividade pastoral: foi mestre da comunidade jesuíta, vigário paroquial em São João Batista da Lagoa e em Nossa Senhora das Dores, além de auxiliar em missas carismáticas. Atuou ainda como interventor em instituições voltadas a cegos e surdos, enfrentando com firmeza as dificuldades e acusações infundadas que surgiram nesse campo.

A vida de Padre João também se enriqueceu de encontros com grandes nomes da cultura. Em Paris, conheceu Vinícius de Moraes e Tom Jobim, registrando a célebre frase de Vinícius: “Se o céu não existisse, a vida seria uma molecagem e a morte a última piada dessa molecagem.” Anos depois, no Rio, reencontrou Vinícius em um hospital, já debilitado, ocasião em que exerceu seu ministério como capelão.

Apesar das décadas no Rio de Janeiro, nunca rompeu os vínculos com o Seridó. Retornou ao Rio Grande do Norte em 2004, acolhido pelo amigo Dom Nivaldo Monte, que lhe doou um terreno. Seu amor pela terra natal manifestou-se também na valorização da cultura local: exaltava a gastronomia típica, como a carne de sol e os queijos de manteiga e coalho; defendia a preservação dos bordados de Caicó e Timbaúba dos Batistas, herança dos Países Baixos; e destacava a influência holandesa na economia, na linguagem e nos costumes regionais. Para ele, o Seridó não era apenas um espaço geográfico, mas um verdadeiro estado de espírito.

Seu retorno coincidiu com a entrada na Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, em 2011, para ocupar a cadeira antes pertencente a Dom Nivaldo. O processo de candidatura surgiu por iniciativa de amigos, e sua eleição consolidou o reconhecimento público de sua contribuição intelectual.

Em suas memórias, Padre João reitera o compromisso de resgatar e preservar a história do Seridó, entendendo que a identidade de um povo se funda na sua cultura. Sua vida, marcada pela fé, pela superação e pelo diálogo constante com a cultura e a sociedade, constitui não apenas um relato pessoal, mas um patrimônio coletivo, digno de ser guardado e celebrado pelas gerações futuras.

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