CURRAIS NOVOS DE OTHON FILHO
As cidades, longe de serem meros recortes espaciais definidos pela materialidade de suas ruas e edifícios, são, antes de tudo, produções humanas construídas no tear do discurso.
São as palavras que lhes conferem sentido, que narram suas origens e projetam seus futuros, desnaturalizando o espaço e revelando-o como um campo de disputas simbólicas.
É sob esta premissa que a análise de Fabiana Alves Dantas sobre a obra Meio século da roça à cidade: Cinqüentenário de Currais Novos (1970), de Antônio Othon Filho, se revela um exercício crítico fundamental.
A investigação desvela a tessitura discursiva através da qual uma memória local foi intencionalmente forjada, consagrando uma imagem de modernidade para Currais Novos em oposição a um passado rural, num processo que evidencia o poder dos intelectuais na legitimação de narrativas hegemónicas.
Publicado no cinquentenário da elevação do município à categoria de cidade, o livro de Antônio Othon Filho emerge não como um registro memorialístico ingênuo, mas como um monumento discursivo, erigido sob o patrocínio da Mineração Tomás Salustino.
O autor, diretor da empresa e sobrinho de seu fundador, posiciona-se como um "homem de letras" cuja autoridade para narrar a cidade emana diretamente de sua inserção na elite econômica e política.
O contexto de produção da obra é, portanto, indissociável das suas intencionalidades, revelando a aliança entre o capital e a produção intelectual na construção de uma memória oficial. A obra torna-se, assim, o veículo para uma visão de mundo específica, que celebra uma trajetória de transformação do espaço e, simultaneamente, consagra seus protagonistas.
A chave retórica de sua obra reside na dicotomia expressa já no título: a transição "da roça à cidade".
Othon Filho mobiliza um tom nostálgico para evocar a "vilazinha pacata do início do século", com suas festas, crenças e "preciosas tradições", apenas para melhor acentuar o caráter linear e progressista da modernização que se seguiu.
A narrativa adota uma teleologia onde o destino de Currais Novos era, inevitavelmente, o progresso, materializado na chegada de automóveis, bancos e na infraestrutura urbana que, em 1970, a definia como "uma bela cidade". A mudança, neste discurso, não é apenas uma transformação, mas uma inequívoca evolução.
O motor desta modernização, segundo a narrativa, é o ciclo da mineração, e seu herói é o Desembargador Tomás Salustino, fundador da empresa e figura monumentalizada como o "homem de maior envergadura e fôrça [sic] moral do Seridó".
A obra enaltece a Mineração como a força catalisadora do desenvolvimento, atribuindo à agência das "elites bem feitoras" a condução do município ao progresso. Esse agenciamento, contudo, não ocorre sem o seu reverso. O silenciamento e o apagamento das contribuições dos "populares".
Relegados a "figuras peculiares", dignas de nota apenas como curiosidades anedóticas, os sujeitos populares são desprovidos de agência histórica, tornando-se meros espectadores de uma história feita por outros.
Tal cultura histórica, personalista e ancorada numa noção de tempo progressista, dialoga de forma eloquente com o contexto político mais amplo do regime militar brasileiro.
O discurso de Othon Filho, que concilia a nostalgia por uma tradição ordeira com a celebração de um desenvolvimento material, espelha a ideologia de "segurança e desenvolvimento" da época, que promovia uma modernização económica conservadora, sem alterar as estruturas sociais de poder.
A memória das origens tradicionais, orquestrada pela elite, funciona como um elemento de identidade que se vincula ao processo modernizador, legitimando o presente através de uma leitura seletiva do passado.
Mesmo após mais de meio século e o declínio da própria mineração, a memória elaborada por Othon Filho permanece como parte vital do imaginário local, atestando a perenidade e a eficácia de tais construções discursivas.
O poder das palavras, como reitera a análise, revela-se em sua plenitude: os intelectuais, através da escrita, exercem um papel crucial na "produção da própria cidade", eternizando personagens e características específicas na memória coletiva e contribuindo para o senso de pertencimento.
A análise crítica de discursos que produzem cidades e memórias constitui, por isso, um campo promissor para a História, pois revela as intencionalidades e as estratégias utilizadas pelos agentes sociais na perene disputa pela narrativa do passado.

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