CARTAS PAULO BALÁ
A história do Seridó potiguar é feita de homens e mulheres que, com a força do trabalho e o vigor da palavra, souberam selar seu nome na memória de um povo. Entre esses vultos, destaca-se a figura do sertanista Paulo Bezerra Balá, médico, intelectual, político, escritor, poeta e memorialista, cuja vida se tornou uma ponte entre o passado e o futuro, entre a tradição seridoense e a modernidade, conforme bem apresenta o próprio filho mais velho do sertanista, o Cassiano Bezerra.
Nascido em Acari, em julho de 1933, e falecido no mesmo mês em 2017, Paulo Balá foi herdeiro de uma genealogia robusta, marcada pela honra e pela influência dos Bezerra Galvão e dos Pereira de Araújo.
Filho de Silvino Adonias Bezerra (1891–1959), conhecido popularmente como Silvino Balá, e de Maria Jesus Bezerra (1896–1964), herdava uma linhagem marcada por nomes de relevo na história regional. Entre seus ascendentes destacava-se Félix de Araújo Pereira Filho (1862–1937) — o célebre Félix da Pendanga, também lembrado pelo apelido pitoresco de Félix Maranganha, imortalizado na expressão “quando não morde, abocanha” — e sua esposa, Maria Getúlia Bezerra de Araújo (1863–1940).
Pela linha dos bisavós, encontrava-se ainda a figura de Félix de Araújo Pereira (1818–1905), conhecido como Félix dos Garrotes, casado com Maria Susana da Anunciação (1822–1877). Na mesma tessitura genealógica, figuravam o coronel Silvino Bezerra de Araújo Galvão (1836–1921) e sua consorte, Maria Febrônia Lopes Galvão (1838–1908), personalidades que, com sua presença marcante, consolidaram a memória e a tradição de uma família que se projetou para além de seu tempo, inscrevendo-se de forma indelével na história do Seridó.
Essa genealogia não se reduzia a uma sucessão de nomes: representava a permanência de valores, tradições e modos de ser sertanejos que se refletiriam no caráter e na obra de Paulo Balá. Em 1963, uniu-se em matrimônio a Zélia de Araújo, companheira de vida e guardiã de sua memória, com quem teve quatro filhos, perpetuando a linhagem e mantendo vivas as raízes familiares.
Entre as muitas atividades que desempenhou, Paulo Balá nunca deixou de ser um homem do campo, ligado visceralmente à terra. A Fazenda Pinturas, em Acari, herança de seus ancestrais, foi mais que um espaço de produção: era um território simbólico, cenário de memórias e de continuidade histórica. Ali, entre o gado, a caatinga e os ventos do Seridó, ele preservava o vínculo com a tradição vaqueira que moldou gerações.
Essa vivência do sertão não era apenas prática, mas também poética e intelectual. Como sertanista, soube traduzir em palavras a dureza e a beleza da vida no semiárido, revelando o quanto o Seridó é, ao mesmo tempo, espaço de luta e de resistência, mas também de afetos, fé e pertencimento.
Formado em Medicina, Paulo Balá se notabilizou como radiologista, fundando o Instituto de Radiologia do Rio Grande do Norte, instituição que conquistou prestígio em todo o Estado potiguar. Sua competência levou-o a integrar o Colégio Brasileiro de Radiologia e a Academia de Medicina do RN, além de atuar como professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, onde formou e inspirou gerações de médicos.
No exercício da profissão, unia rigor científico à sensibilidade humana, reconhecendo no paciente não apenas um corpo a ser tratado, mas uma vida a ser respeitada. Esse olhar humanizado revela a coerência entre o médico e o escritor: ambos atentos à profundidade da condição humana.
Sua trajetória também alcançou a esfera pública. Foi vice-prefeito de Acari e, entre 1996 e 2000, assumindo interinamente o cargo de prefeito em diversas ocasiões. Nesse período, destacou-se pela postura conciliadora, conquistando o respeito de adversários e aliados. Sua política não era movida por ambições pessoais, mas pelo compromisso com a comunidade e pelo desejo de servir à terra natal.
Entretanto, é na literatura e na memória que reside o maior legado de Paulo Bezerra Balá. Poeta, folclorista, genealogista, historiador e, sobretudo, memorialista. Seu estilo literário é marcado pelo sertanismo e regionalismo, trazendo à tona as vozes da terra, os costumes, as tradições e os dramas da vida sertaneja. Como observou o poeta Carlos Newton Júnior, suas obras compõem uma das mais importantes expressões da literatura memorialística não apenas do Rio Grande do Norte, mas do Brasil.
Entre 2000 e 2013, publicou cinco livros, cada qual prefaciado e comentado por figuras de relevo intelectual, como Woden Coutinho Madruga, Luís Carlos Guimarães, Osvaldo Lamartine de Faria, Vicente Serejo, Jessier Quirino, Sanderson Negreiros, Padre João Medeiros Filho e Frederico Pernambucano de Melo.
Em 2011, veio à luz a coletânea poética Rimas e outros versos vagabundos, que ampliou a percepção de sua sensibilidade literária. Seu último livro foi publicado sob a regência de sua esposa e filhos, num gesto que uniu família e memória em torno da perpetuação de sua obra. Destarte, a importância de Paulo Balá foi reconhecida pela Academia Norte-rio-grandense de Letras, onde foi eleito imortal e ocupou a cadeira 12, sucedendo Osvaldo Lamartine de Faria.
Não bastasse a palavra, Paulo Balá também utilizou a fotografia como instrumento de preservação histórica. Reuniu e expôs imagens antigas, como na mostra realizada no Museu Histórico de Acari em 1995, durante a tradicional festa de agosto. Para ele, a fotografia era mais que documento: era extensão da escrita, elo vivo com o passado, capaz de ilustrar e enriquecer a narrativa memorialística.
Portanto, a vida de Paulo Bezerra Balá sintetiza o encontro entre tradição e modernidade, entre ciência e cultura, entre a vivência do sertão e a universalidade da palavra escrita. Médico respeitado, político conciliador, fazendeiro tradicional ligado à terra, mas, sobretudo, intelectual comprometido com a preservação da memória, ele deixou um legado que ultrapassa fronteiras geográficas e temporais.
Sua obra literária e saudosista, estudada em universidades e comparada a nomes como José Lins do Rego, coloca o Seridó em diálogo com a literatura brasileira, reafirmando que a riqueza de uma região está na força de seus intérpretes. Paulo Balá permanece como um símbolo da identidade seridoense, exemplo de como a escrita pode eternizar vidas, resguardar tradições e inspirar novas gerações.
Seu nome, inscrito na história e na memória do povo, ecoa como testemunho da vitalidade cultural do sertão, lembrando-nos que o homem pode se tornar imortal não apenas pela duração da vida, mas pela permanência de sua obra. E assim, neste ato de reverência e gratidão, podemos dizer que o doutor Paulo Balá permanece vivo – não na cronologia dos dias, mas na eternidade da memória.
As cartas-crônicas de Paulo Bezerra erguem, ao longo de quase duas décadas de escrita contínua, um vasto painel de representações dos sertões do Seridó, no qual memória, experiência vivida e imaginação histórica se entrelaçam para dar forma a um território que ultrapassa o mero espaço geográfico e se afirma como construção cultural, social e afetiva. Através dessas narrativas, o autor molda uma percepção do Seridó e de seu povo que se afasta, em muitos momentos, dos estereótipos consagrados, ao mesmo tempo em que dialoga com eles, compondo um sertão múltiplo, contraditório e profundamente humano. Suas cartas, publicadas inicialmente em jornais potiguares e posteriormente reunidas em livros, nascem de lembranças pessoais e de histórias ouvidas, transformadas em escrita de si, na qual o autor eterniza a infância, a juventude, os laços familiares, os costumes e os acontecimentos que marcaram sua trajetória e a de sua terra natal.
Nascido em Acari, em 1933, Paulo Bezerra escreve a partir de um lugar social específico, marcado por uma origem familiar estruturada e por condições materiais que lhe permitiram acesso à educação superior em um tempo em que tal privilégio era restrito a poucos. Formado em Medicina no Recife e especializado em Radiologia no Rio de Janeiro, tornou-se o primeiro professor dessa área na universidade potiguar, trajetória que o distancia da maioria dos sertanejos que descreve, mas que, paradoxalmente, não o afasta afetivamente do sertão. Essa posição social influencia suas representações, seja no olhar orgulhoso lançado sobre a história de sua família, seja na exaltação de uma linhagem que ele vincula aos primeiros colonizadores da região, como o português Thomaz de Araújo Pereira, figura evocada como símbolo de antiguidade, prestígio e pertencimento. Tal orgulho da descendência branca e europeia atravessa sua escrita, embora não o impeça de reconhecer a formação mestiça do povo seridoense, resultante do encontro das três raças, numa mistura que ele admite como fundamento da identidade regional.
Entre os cenários recorrentes de suas cartas, a Fazenda Pinturas ocupa lugar central, não apenas como espaço físico, mas como emblema de memória, poder e tradição. Herdada da família, a propriedade surge como objeto de devoção e orgulho, descrita com minúcia na arquitetura da casa-sede, construída com materiais caros e inspirada em modelos de influência espanhola, sinal evidente da posição social elevada que a família ocupava em Acari. A fazenda aparece também como espaço produtivo, associado ao cultivo do algodão mocó, do feijão, do milho, da batata e da banana, bem como à criação de gado, compondo um retrato do sertão trabalhador e economicamente ativo, distante da imagem de improdutividade que tantas vezes lhe foi atribuída. Nesse universo, Bezerra presta homenagens a parentes, amigos, figuras políticas, religiosas e personagens anônimos, inscrevendo-se numa tradição de memorialistas seridoenses que utilizam a escrita como instrumento de preservação da identidade sertaneja e de afirmação de pertencimento.
As cartas de Paulo Bezerra não se restringem ao âmbito privado. Embora escritas sob a forma epistolar, destinam-se à publicação em jornal, o que lhes confere natureza pública e as transforma em cartas abertas, dirigidas a todos e a cada um. A circulação inicial no periódico, seguida da reunião em livros, altera o alcance, o público e os sentidos do texto, permitindo novas leituras e apropriações. O jornal, de circulação mais imediata e restrita, dialogava com leitores do cotidiano; o livro, ao contrário, projetava as cartas para bibliotecas, escolas e universidades, ampliando sua permanência no tempo. Essa mudança de suporte não é neutra, pois redefine a recepção da obra e reforça seu valor literário e documental. O estilo de Bezerra, marcado por uma prosa sedutora, saborosa, rica em arcaísmos e expressões de forte densidade regional, contribui para essa permanência, conferindo à língua um sabor antigo e, ao mesmo tempo, vivo, capaz de encantar leitores de diferentes gerações.
O sertão que emerge dessas cartas é pensado como categoria múltipla, simultaneamente espacial, social e cultural. Trata-se de um território historicamente ocupado pela pecuária, cuja própria denominação, de origem tupi, remete à paisagem de pouca folhagem e sombra rarefeita. No entanto, longe de fixar-se na imagem da aridez permanente, Bezerra insiste em um sertão cíclico, marcado pela alternância entre seca e inverno. Ele não nega as grandes estiagens, descritas como tempos de escassez extrema, de gado magro, de falta de trabalho e de casas abandonadas, mas também celebra os períodos de chuva abundante, de relâmpagos no céu, de banhos de açude e de fartura nas colheitas. Nessas ocasiões, a caatinga floresce, e árvores como a craibeira, o pereiro, o umbuzeiro e a jurema preta se revestem de verde e flores, simbolizando um sertão vivo, pulsante, em contraste com a imagem de morte e desolação tantas vezes cristalizada no imaginário nacional.
A água ocupa lugar simbólico e prático central nessas narrativas. A construção do Açude Gargalheira, em Acari, é evocada não apenas por sua imponência e pelo longo tempo de execução, iniciado ainda no início do século XX e concluído décadas depois, mas sobretudo por sua função social: abastecer cidades, garantir pesca, criar pasto, favorecer um turismo discreto e alterar profundamente a relação da população com a seca. Ao mesmo tempo, Bezerra não deixa de denunciar o abandono das estruturas do entorno do açude, revelando sua preocupação com a gestão pública e com a preservação do patrimônio coletivo. A própria palavra Gargalheira, associada a um antigo instrumento de punição imposto a escravizados, surge como lembrança incômoda de um passado de violência que o autor não silencia, incorporando à paisagem hídrica uma memória amarga da história local.
As cidades do Seridó atravessam as cartas como personagens vivas. Acari, terra natal do autor, aparece com maior frequência, retratada como uma das mais antigas da região, marcada por forte religiosidade e por uma história que se confunde com a de suas famílias tradicionais. Caicó surge como centro irradiador, capital simbólica do Seridó, destacada por seu desenvolvimento urbano, por suas festas religiosas, especialmente a de Sant’Ana, e por seu artesanato. Currais Novos e Serra Negra do Norte são lembradas em conexão com laços familiares, eventos históricos e trajetórias individuais, compondo um mapa afetivo que ultrapassa fronteiras administrativas e se organiza a partir da experiência vivida.
Grande parte do encanto das cartas reside na atenção dedicada aos viventes dos sertões, aos homens e mulheres comuns que, com seus ofícios e saberes, sustentaram a vida cotidiana da região. Bezerra descreve com cuidado os fazeres do dia a dia, numa tentativa consciente de registrar um passado que se esvai, de preservar costumes e de reavivar saudades adormecidas. A figura do vaqueiro, admirada por sua coragem, habilidade e resistência, ocupa lugar de destaque, com descrições detalhadas da lida, das vestimentas de couro e dos instrumentos de trabalho. Artesãos, como escultores de granito e louceiras que moldavam o barro em potes e pratos, são apresentados como exemplos da rusticidade bela da arte local, mesmo quando o autor lamenta o desaparecimento dessas práticas. Profissões tradicionais, como a construção de cercas de pedra, a produção de telhas em olarias, a pesca em tempos de açude cheio, o funcionamento das bodegas e mercearias como centros de sociabilidade, e o trabalho de costureiras, alfaiates e mensageiros, ganham vida nas páginas, revelando um sertão dinâmico, organizado e inventivo.
A educação também encontra espaço nessas memórias, personificada em figuras como a professora que ensinava as primeiras letras em casa, símbolo de um ensino doméstico que antecedeu a escolarização formal. O autor não ignora temas mais ásperos, como o cangaço e o fanatismo religioso, mencionando personagens célebres e reconhecendo que tais movimentos não se enraizaram profundamente no Seridó, ao contrário de outras regiões nordestinas. A religiosidade, contudo, aparece como pilar cultural incontornável, expressa na devoção popular, nas festas de padroeiros e na fé como refúgio diante das adversidades.
Um sentimento de saudosismo perpassa toda a obra, traduzido no desejo de preservar valores herdados dos antepassados e na consciência de que muitos costumes pertencem a um sertão que não volta mais. A modernização, o declínio de atividades tradicionais como o cultivo do algodão mocó e as transformações sociais alimentam a sensação de perda, mas também reforçam a urgência do registro memorial. Ao final, as cartas-crônicas de Paulo Bezerra revelam um Seridó construído historicamente por seu povo, capaz de adaptar-se às condições naturais e de criar estratégias de sobrevivência e prosperidade. Trata-se de um acervo literário e memorial de extraordinária riqueza, que oferece múltiplos caminhos para compreender a complexidade dos sertões e afirma, com vigor, a pluralidade de vozes e experiências que compõem a identidade seridoense.

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