apresentam uma discussão aprofundada sobre as origens históricas e culturais da região do Seridó, no Nordeste brasileiro, com foco especial em sua herança hebraica e judaica. O bate-papo, conduzido no programa "Sem Delongas com Augusto Maranhão", explora a teoria de que o Seridó foi o local da primeira colônia judaico-islâmica nas Américas, estabelecida em Igaraçu por Fernão de Noronha. Além disso, a conversa destaca como a Inquisição forçou colonos ibéricos, muitos de origem judaica e islâmica, a buscar refúgio no sertão, moldando a cultura local, a religiosidade e até mesmo a origem de topônimos. O especialista e o apresentador apontam para a influência hebraica nos costumes do Seridó, como o dia de descanso (Shabat), a higiene e as tradições familiares, incluindo a Festa de Santana.
As Origens Hebraicas e a Influência Cultural no Serid
Este documento sintetiza a tese de que a região do Seridó, no Rio Grande
do Norte, possui uma identidade cultural profundamente enraizada na colonização
por ibéricos de origem judaica e islâmica, conhecidos como marranos, que
buscaram refúgio da Inquisição a partir do século XVI. A análise, baseada nos
insights do Professor Janduir Medeiros, revela que a formação social, os
costumes e as tradições do sertanejo seridoense são um reflexo direto desse
legado hebraico.
Os pontos críticos demonstram que a colonização da região é muito
anterior à história oficial, remontando a expedições de 1545 e à formação da
primeira colônia judaica das Américas em 1502, em Igaraçu (PE), por Fernão de
Noronha. A migração para o interior foi impulsionada pelo ciclo do açúcar e pela
perseguição religiosa no litoral. O próprio nome "Seridó" é
apresentado como derivado do hebraico "She'erit" (remanescentes), um
termo que define a condição de seu povo.
O legado hebraico se manifesta em práticas cotidianas, como rigorosos
hábitos de higiene, a centralidade da estrutura familiar, costumes alimentares
específicos (como a carne de sol e a aversão cultural à carne de porco) e a
tradição do sábado como dia de descanso e encontro social. Fenômenos como o
Criptojudaísmo são evidentes, com a preservação de tradições hebraicas sob uma
fachada católica, sendo a Festa de Santana de Caicó o exemplo máximo: uma
celebração de reencontro familiar de matriz hebraica, em vez de uma romaria
convencional. A própria origem do aboio, o canto do vaqueiro, é reinterpretada
como uma forma de oração disfarçada.
Finalmente, argumenta-se que esta herança cultural singular posiciona o
Seridó como um "museu a céu aberto da cultura hebraica", cujo
potencial histórico e cultural representa o principal ativo para o futuro
desenvolvimento turístico e econômico da região.
--------------------------------------------------------------------------------
1. Contexto Histórico: A Colonização Inicial e o Refúgio no Sertão
A ocupação do Seridó está diretamente ligada aos primeiros movimentos
econômicos da colônia e às pressões religiosas impostas pela Inquisição
europeia. A região emergiu como um santuário para colonos que buscavam
preservar sua identidade e sobreviver à perseguição.
1.1 A Primeira Colônia das Américas (1502)
Contrariando a narrativa de um desinteresse português inicial, a
exploração econômica do Brasil começou cedo. Em 1502, o navegador português de
origem judaica, Fernão de Noronha, firmou um contrato de arrendamento com a
Coroa para explorar toda a colônia.
• Atividade Econômica: O foco inicial foi a extração de
pau-brasil, concentrada na Mata Atlântica de Pernambuco.
• Fundação de Igaraçu: Para viabilizar a logística de
extração, Noronha estabeleceu em Igaraçu (PE), em 1502, a primeira colônia
judaica e islâmica das Américas. Seus habitantes eram portugueses e espanhóis
que fugiam da Inquisição.
1.2 O Ciclo do Açúcar e a Migração para o Interior
A partir de 1530, a introdução da cana-de-açúcar em Pernambuco alterou
drasticamente a dinâmica colonial, tornando-se mais lucrativa que o pau-brasil
e estabelecendo Olinda e Recife como um dos centros econômicos mais importantes
das Américas.
• Monocultura e Demanda: A cultura da cana não permitia
a produção de outras culturas. Isso criou uma forte demanda por alimentos,
carne, queijo e, sobretudo, couro, que eram fornecidos pelo Sertão (incluindo o
Seridó).
• Inquisição no Litoral: O enriquecimento de Recife
atraiu a atenção da Inquisição, que suspeitava que muitos senhores de engenho e
grandes comerciantes eram judeus. A perseguição se intensificou, forçando uma
nova onda de migração para o interior.
1.3 O Seridó como Principal Colônia Judaica do Sertão
Os colonos que fugiam do litoral encontraram no Seridó um lugar seguro
para se estabelecer, longe da vigilância da Igreja e da Coroa.
• Revisão Histórica: A história oficial datava o início
do Seridó em 1700, com a concessão de sesmarias e a chegada da Igreja. No
entanto, o historiador Olavo de Medeiros Filho descobriu documentos que
registram uma expedição de Duarte Coelho ao Vale do Seridó já em 1545.
• Centro Econômico: O Seridó se consolidou como o
primeiro núcleo econômico do Rio Grande do Norte, impulsionado pela pecuária,
que fornecia insumos essenciais para a exportação de açúcar (o couro era usado
para proteger o produto da umidade nas caravelas).
2. A Tese da Origem Hebraica: Nomenclatura e Identidade
A própria identidade do Seridó, a começar por seu nome, é reinterpretada
sob a ótica da influência hebraica, sustentada por dados demográficos e pela
ressignificação de termos históricos.
2.1 A Etimologia da Palavra "Seridó"
Existem duas teorias principais sobre a origem do nome da região:
• Tese Indígena: Proposta por Câmara Cascudo, sugere
que o termo deriva de "Citoré".
• Tese Hebraica: Defendida por Janduir Medeiros, aponta
que "Seridó" vem do termo hebraico "She'erit" (שְׁאֵרִית),
que significa "remanescentes", "o que restou" ou "o
que foi guardado por Deus". Essa nomenclatura reflete a condição de um
povo que sobreviveu à perseguição.
◦ Conexão Internacional: A
sinagoga mais importante de Nova Iorque, fundada por judeus pernambucanos após
1654, chama-se Shearith Israel, indicando a mesma raiz etimológica.
2.2 Demografia e a Pesquisa de Anita Novinsky
A tese da colonização judaica é reforçada por estudos demográficos da
historiadora Anita Novinsky.
• Brasil: Entre 1500 e 1850, 80% dos europeus que
chegaram ao Brasil eram de origem judaica.
• Nordeste: Na região Nordeste, esse percentual sobe
para 90%.
• Seridó: Na região do Seridó, a estimativa atinge 95%.
2.3 O Termo "Marrano"
O termo "marrano", que significa "porco" em
espanhol, era uma designação pejorativa usada pelos espanhóis para se referir
aos judeus. Com o tempo, o termo foi ressignificado e hoje é utilizado por
descendentes para afirmar essa identidade. O antropólogo francês Nathan Wachtel
publicou uma obra de referência sobre o tema intitulada "Seridó
Marrano".
3. O Legado Cultural Hebraico nos Costumes do Seridó
A influência dos colonos ibéricos de origem hebraica não se limitou à
demografia, mas moldou profundamente os hábitos, valores e práticas culturais
do povo seridoense.
3.1 Estrutura Familiar e Disciplina
A família é a instituição central na cultura do Seridó, sendo a
principal responsável pela educação e formação moral dos filhos.
• Educação: A escola era vista como um complemento para
a instrução gramatical, mas a educação para a vida e a disciplina eram de
competência exclusiva da família.
• Autoridade: Apenas os pais e os professores tinham a
autorização social para repreender uma criança, um conceito de origem bíblica.
• Conceito de Tribo: A concepção de família é ampla,
incluindo vizinhos e amigos próximos, criando um forte senso de comunidade e
apoio mútuo.
3.2 Práticas de Higiene e Cotidiano
Muitos hábitos de higiene do sertanejo, hoje vistos como tradição, têm
origem em preceitos religiosos hebraicos.
• Limpeza da Casa: O costume de varrer a casa da porta
da sala para os fundos (para que o lixo não passe pela "porta
sagrada") e a limpeza das calçadas.
• Purificação: O ritual de lavar as mãos e os pés ao
chegar da roça e fazer uma breve pausa olhando para o horizonte antes de entrar
em casa, remetendo a uma oração de purificação.
• Água e Banho: A prática de não beber água no copo
usado para retirá-la do pote e o hábito do banho diário como disciplina de
saúde preventiva.
3.3 Costumes Alimentares
A culinária e os hábitos alimentares também revelam traços da herança
judaica.
• Carne de Porco: A aversão cultural à carne de porco
no Seridó é um resquício da proibição religiosa. Para disfarçar, os colonos
alegavam que era uma "comida carregada" ou inventavam pretextos para
não consumi-la.
• Carne de Sol: A técnica de salgar e secar a carne
está ligada ao preceito hebraico de não consumir sangue, que era considerado a
alma do animal. O processo de sangria era um ato de respeito ao animal.
3.4 O Sábado e a Vida Social
O Shabat, o dia de descanso sagrado dos hebreus, foi incorporado à
rotina do Sertão como o principal dia de interação social.
• Dia da Feira: O sábado se tornou o dia da feira,
quando os moradores dos sítios iam à cidade para vender produtos, encontrar
amigos, trocar informações e socializar nas bodegas, que funcionavam como
centros de comunicação da comunidade.
3.5 O Aboio: A Oração do Sertanejo
O aboio, canto melancólico dos vaqueiros, é apresentado como a
"semente cultural mais importante do Brasil", com uma origem
surpreendente.
• Oração Disfarçada: Os colonos hebreus,
impossibilitados de orar em casa, iam para os currais e entoavam seus cânticos
religiosos. Quem ouvia de fora acreditava que cantavam para o gado, mas na
verdade, oravam a Deus.
• Influência Cultural: O aboio influenciou toda a
poesia popular nordestina (cordel), os cantos religiosos (ladainhas, cantos
gregorianos) e a música popular, como as obras de Luiz Gonzaga.
3.6 Princípios Abolicionistas
O Seridó foi pioneiro na libertação de escravos, um ato motivado por um
princípio religioso hebraico derivado de Moisés: "se você não quer ser
escravo, não tem o direito de escravizar ninguém". Os fazendeiros
realizavam cerimônias simbólicas de alforria na Praça da Liberdade, em Caicó.
4. Sincretismo Religioso e Criptojudaísmo
Apesar de ser a região mais católica do Brasil (com 85% da população
declarada católica), o Seridó preservou inúmeras tradições hebraicas por meio
do Criptojudaísmo – a prática oculta do judaísmo sob uma aparência cristã.
4.1 A Festa de Santana: Reencontro Familiar Hebraico
A Festa de Santana de Caicó é fundamentalmente diferente de outras
festas religiosas.
• Matriz da Celebração: Seu propósito central não é a
peregrinação a um santo, mas o reencontro familiar, uma tradição de matriz
hebraica.
• Rituais Centrais: A maior comunhão da festa não
ocorre nas procissões ou bailes, mas no café da manhã dentro das casas, que
reúne familiares e amigos. A "feirinha" de quinta-feira é a
celebração simbólica dessa união comunitária.
4.2 A Preeminência de "Ana" (Hana)
Em Caicó, o nome "Ana" é historicamente mais comum que
"Maria", o nome feminino mais importante do cristianismo.
• Origem Hebraica: Isso se deve à importância de Hana (Ana),
a mãe de Maria e avó de Jesus, na cultura hebraica. Ela era uma figura
extremamente respeitada por seu papel como professora, parteira e benfeitora da
comunidade. A festa é, na verdade, a "festa da Senhora Ana".
4.3 Símbolos Ocultos na Arquitetura
Os colonos deixaram marcas de sua fé de forma disfarçada na arquitetura
da região.
• Menorá: Fachadas de prédios antigos em Caicó e outras
cidades do Seridó exibem a menorá (candelabro de sete braços, símbolo do
judaísmo) de forma estilizada e oculta.
• Igrejas como Sinagogas: As primeiras igrejas do
Sertão, construídas por esses colonos, contêm elementos arquitetônicos (como
arcos e a disposição de janelas) que remetem a sinagogas.
5. Conclusão: O Futuro do Seridó Marrano
A compreensão da profunda herança hebraica do Seridó é fundamental para
o futuro da região. A identidade cultural construída ao longo de séculos
representa seu maior patrimônio.
• Potencial Turístico: O Seridó é descrito como "o
maior museu a céu aberto do mundo da cultura hebraica fora de Israel e da
Palestina". Elementos que vão de um simples banco na calçada a uma
funda pendurada na parede contam a história desse povo.
• Desenvolvimento Sustentável: O futuro do turismo no
Rio Grande do Norte não dependerá de modelos sazonais, mas da valorização desse
patrimônio histórico-cultural único, capaz de atrair um público interessado em
história, cultura e na singular atmosfera humana da região, marcada por um povo
comunicativo, respeitador e orgulhoso de suas tradições.
A Viagem de Roulox Baro ao País
dos Tapuias
1 fonte
O
texto é um artigo acadêmico de James
Emanuel de Albuquerque, apresentado em 2005, que reflete sobre
como a historiografia tradicional abordou a participação de grupos indígenas e
negros na história brasileira. Especificamente, o autor analisa a crônica de Roulox Baro de
1651, intitulada "Relação da Viagem ao País dos Tapuias," que
descreve a expedição de Baro ao interior durante a ocupação holandesa no Brasil
do século XVII. O estudo se concentra em refazer a imagem das relações de
contato, explorando a aparente
autonomia do "País dos Tapuias" e a
insubordinação desses grupos em relação aos europeus. A pesquisa também
investiga a biografia
de Roulox Baro – que viveu com indígenas desde a infância
e atuou como intérprete holandês – e a dinâmica do sertão, que o autor
argumenta não ser um "vazio," mas um território complexo e ativo.
Análise da Crônica de Roulox Baro e as Relações Indígenas no Brasil
Holandês
Resumo Executivo
Este documento sintetiza a análise acadêmica de James Emanuel de
Albuquerque sobre a crônica "Relação da Viagem ao País dos Tapuias",
escrita por Roulox Baro e publicada em 1651. O estudo se insere em um esforço
historiográfico contemporâneo para reavaliar o papel dos povos indígenas na
história do Brasil, especificamente durante a ocupação holandesa no Nordeste
(1630-1654). A análise da crônica de Baro revela uma perspectiva que desafia
narrativas tradicionais, destacando a agência, autonomia e complexidade das
sociedades Tapuias do sertão.
Os principais pontos inferidos do relato de Baro são:
1. Autonomia Territorial: A existência de um "País
dos Tapuias", um território independente no sertão, que ficava fora do
controle efetivo dos colonizadores europeus, questionando a real extensão da
dominação holandesa.
2. Relações de Poder: A "insubordinação" dos
Tapuias, que se posicionavam não como subordinados, mas como aliados temidos.
Fontes da época confirmam que tanto holandeses quanto luso-brasileiros nutriam
um profundo temor por esses grupos, descritos como "aliados
infernais".
3. Dinâmicas Interétnicas: O papel do sertão Tapuia
como "asilo" para os "brasilianos" (grupos Tupi da costa)
que fugiam do controle colonial, demonstrando complexas alianças e dinâmicas de
resistência indígena.
A análise é enriquecida pela biografia singular de Roulox Baro, um
intérprete holandês que, por ter sido criado em um aldeamento indígena desde a
infância, possuía um conhecimento privilegiado das culturas e línguas locais,
tornando seu relato uma fonte de valor inestimável.
--------------------------------------------------------------------------------
1. Contexto Historiográfico e Objeto de Estudo
O trabalho de James Emanuel de Albuquerque se alinha a uma vertente da
historiografia recente que busca refletir criticamente sobre a forma como a
participação de negros e indígenas foi tratada pela historiografia tradicional.
O objetivo é elaborar novas imagens sobre as relações de contato entre grupos
indígenas e colonizadores europeus, despindo a análise dos preconceitos
culturais que marcaram a produção intelectual do século XIX.
• Foco Principal: A pesquisa se concentra no período da
ocupação holandesa no Brasil (século XVII) e utiliza como fonte primária a crônica
de Roulox Baro, intitulada "Relação da Viagem ao País dos
Tapuias", publicada em 1651.
• Origem do Estudo: A investigação originou-se de uma
monografia de bacharelado (2002) e foi aprofundada na pesquisa de mestrado do
autor no Programa de Pós-Graduação em História Social da UFRJ.
• Influências Acadêmicas: O autor cita influências de
obras como As muralhas dos sertões (Nádia Farage), História
dos Índios no Brasil (organizada por Manuela Carneiro da Cunha), Negros
da Terra (John Manuel Monteiro) e Olinda Restaurada (Evaldo
Cabral de Mello).
2. O Cronista: Roulox Baro
A credibilidade e a singularidade do relato de Baro estão diretamente
ligadas à sua trajetória de vida, que o tornou um observador único das culturas
indígenas.
• Chegada ao Brasil: Aos sete anos, em 1617, Baro foi
embarcado nos Países Baixos com destino à América portuguesa.
• Captura e Convivência: O navio foi capturado por
luso-brasileiros e, após o massacre da tripulação por indígenas, o jovem Baro
foi entregue a um aldeamento na costa do atual Rio de Janeiro.
• Formação Cultural: Seus anos de convivência com
diversas etnias nos aldeamentos o tornaram um "conhecedor
privilegiado" das culturas e línguas locais.
• Serviço aos Holandeses: Anos depois, Baro se
apresentou aos holandeses em Recife, oferecendo seus serviços como intérprete e
explorador do sertão, atuando como "Intérprete e Embaixador Ordinário da
Companhia das Índias Ocidentais".
3. A Missão Diplomática de 1647
A crônica de Baro é o registro oficial de uma missão diplomática crucial
para a manutenção das alianças holandesas no sertão.
• Contexto da Missão: A aliança entre os holandeses e
os Tapuias foi desestabilizada pelo assassinato do intérprete Jacob Rabbi. Os
Tapuias exigiram a entrega do acusado, o capitão Joris Garstman, comandante
militar do Rio Grande, mas os holandeses não concordaram.
• Objetivo: O Conselho do Recife enviou Roulox Baro
para se encontrar com Janduí, o "Rei dos Tapuias", a fim de restaurar
a confiança e reafirmar a aliança.
• Diretrizes da Missão (segundo Pierre Moreau):
◦ Agradecer a Janduí pela amizade
dispensada aos holandeses.
◦ Presenteá-lo com itens de valor para os
indígenas, como machados, facas, espelhos e pentes.
◦ Alertá-lo sobre os "embustes e
infidelidades dos portugueses", convidando-o a não abandonar a aliança com
os holandeses.
• Detalhes da Viagem: A jornada foi realizada entre 3
de abril e 14 de julho de 1647, partindo das cercanias do Castelo de Kuelen
(atual Forte dos Reis Magos) e adentrando 80 léguas no sertão da capitania do
Rio Grande (atual região dos rios Açu, Mossoró e Apodi).
4. Temas Centrais Analisados na Crônica
A leitura crítica do documento, realizada por Albuquerque, foca em três
ideias centrais que emergem do relato de Baro.
4.1. A Autonomia Territorial: O "País dos Tapuias"
O próprio título da crônica sugere a existência de um território
autônomo, ideia reforçada por outras fontes e análises historiográficas.
• Conceito: O "País dos Tapuias" era uma
vasta região no sertão administrada pelos próprios indígenas, indicando que a
dominação holandesa era limitada à faixa litorânea.
• Corroboração Historiográfica:
◦ Capistrano de Abreu: Afirmou
em Capítulos de História Colonial que "A invasão flamenga
constitui mero episódio da ocupação da costa".
◦ Alfredo de Carvalho (1915): Utilizando
os mapas da obra de Barleus, demonstrou que "os holandeses jamais
exploraram o sertão brasileiro", reforçando a ideia de que o interior
permanecia sob domínio indígena.
4.2. A "Insubordinação" e o Temor dos Europeus
O documento revela uma relação de aliança assimétrica, na qual os
Tapuias não se comportavam como súditos, mas como parceiros poderosos e
temidos.
• Aliados Temidos: Apesar de serem aliados da Companhia
das Índias Ocidentais, os Tapuias realizavam assaltos regulares aos colonos
próximos ao forte Kuelen. O governo de Recife, ciente de sua dependência
militar, ordenava que a aliança fosse mantida a todo custo.
• "Aliados Infernais": O historiador Ernst
van den Boogaart cunhou a expressão "aliados infernais" para
descrever a percepção que os próprios holandeses tinham dos Tapuias.
• Temor Luso-Brasileiro: O medo se estendia à população
luso-brasileira. Em uma carta de 1645, o Governador Antônio Teles da Silva
menciona que os portugueses sob domínio holandês justificavam sua rebelião pelo
receio de "ser sacrificados à fúria de 4000 Tapuias especialmente enviados
do Rio Grande para esse fim".
4.3. O Sertão como Refúgio para os "Brasilianos"
O relato de Baro expõe dinâmicas interétnicas complexas, onde o
território Tapuia funcionava como uma zona de refúgio.
• Definição dos Grupos:
◦ Tapuias: Termo Tupi para
designar os "outros" ou "inimigos" que não falavam Tupi.
Habitavam o sertão.
◦ Brasilianos: Referência comum
nos documentos holandeses para os povos Tupi que habitavam os aldeamentos da
costa.
• Fuga para o Sertão: Grupos de "brasilianos"
fugiam do litoral e pediam autorização aos Tapuias para se estabelecerem em
suas terras.
• Contradição Colonial: Essa fuga ocorria mesmo com a legislação
da Companhia das Índias Ocidentais teoricamente proibindo a escravização e a
exploração dos serviços dos indígenas aldeados, sugerindo que a prática
colonial era diferente da lei.
5. Desdobramentos da Pesquisa
Em sua pesquisa de mestrado, Albuquerque propõe aprofundar a análise da
crônica, incorporando novas perspectivas teóricas e metodológicas.
• Diálogo com a Antropologia: Pretende-se levantar
aspectos de reconstrução cultural, rompendo com a noção de que os povos
indígenas eram sociedades estáticas e isoladas.
• Análise Biográfica: Aprofundar o estudo sobre a
biografia de Baro, investigando como ele lidou com a vantagem de "ser um
índio" em sua trajetória entre os europeus.
• Reinterpretação do Sertão: Utilizar o relato de Baro
para renovar a imagem do sertão nos séculos XVI e XVII, tradicionalmente visto
como um "vazio". A crônica o apresenta como um espaço complexo,
dinâmico e ciente dos acontecimentos do litoral.
Comentários
Postar um comentário