Roeloff Baro: Cronista dos Tarairius e do Seridó Holandês

4 fontes

Os documentos fornecem um panorama da invasão holandesa no Brasil durante o século XVII, destacando a importância de dois indivíduos para o sucesso da Companhia das Índias Ocidentais (WIC): o navegador Dierick Ruiters e o grumete Rodolfo Baro. O primeiro artigo acadêmico examina como a experiência de Ruiters, após ser capturado e fugir, foi crucial para guiar as rotas de navegação holandesas e fornecer informações estratégicas sobre a colônia portuguesa, enquanto Baro, criado entre os povos indígenas do Brasil, serviu como intérprete e embaixador vital para manter alianças com os nativos Tarairiú contra os luso-espanhóis. Um segundo texto, focado no diário de Rodolfo Baro, aprofunda sua missão diplomática de 1647 e descreve a cultura e o papel dos índios Tarairiú no conflito, além de listar uma vasta bibliografia de fontes primárias e secundárias que narram a guerra, a reconquista e a história natural do Brasil Holandês sob diferentes perspectivas europeias e ibéricas. Em essência, as fontes exploram a complexa dinâmica geopolítica, militar e cultural da presença holandesa no Nordeste brasileiro.

As Invasões Holandesas no Brasil e o Papel da Informação (Século XVII)

Este documento detalha as principais dinâmicas e personagens das incursões holandesas no Brasil no século XVII, com foco na importância da circulação de informações e do papel de indivíduos como Dierick Ruiters e Rodolfo Baro.

1. Contexto Geopolítico e Econômico das Invasões Holandesas

O século XVII foi um período de intensas disputas políticas, religiosas e econômicas na Europa, marcadas pela ascensão do capitalismo mercantilista. A União Ibérica (1580-1640), que uniu as coroas de Espanha e Portugal, fortaleceu o império espanhol, mas também o tornou um alvo para seus inimigos, especialmente as Províncias Unidas dos Países Baixos.

·         Disputas Religiosas e Econômicas: A intolerância religiosa da dinastia dos Habsburgos contra o protestantismo nos Países Baixos, aliada às sanções comerciais impostas por Filipe II e Filipe III, levou à busca holandesa por novas rotas e fontes de comércio. O fechamento do porto de Lisboa aos comerciantes neerlandeses por Filipe II foi "prejudicial para os interesses portugueses" e "obrigou essas potências a procurar os géneros no espaço oceânico lusitano, ou seja, na fonte de produção, utilizando as suas rotas e intrometendo-se nos seus territórios, submetendo Portugal à prova das armas" (LOUSADA, 2008, p. 16).

·         Companhia das Índias Ocidentais (WIC): Criada em 1621, a WIC era uma unificação de empresas neerlandesas com controle estatal e capital privado. Seu objetivo era "lucros através do monopólio comercial marítimo, pilhagem ao império espanhol, exploração e subjugação de territórios" (PALASSI FILHO, 2015). O Brasil, "colônia portuguesa de maior valor comercial," (Pereira & Sobral) e o principal produtor mundial de açúcar na época, tornou-se o alvo principal.

·         Invasões e Ocupação:Bahia (1624-1625): A primeira invasão holandesa ocorreu em Salvador, capital da colônia portuguesa, em 1624. Embora inicialmente bem-sucedida, a cidade foi reconquistada pelos luso-espanhóis em 1625. Este evento é considerado um "divisor de águas" (Stuart Schwartz) e "assinala a entrada do Brasil no debate público graças a relatos, crônicas reais, históricas, petições de serviços, genealogias, pareceres, «jornalecos», planfetos, gravuras, pinturas, peças de teatro." (Descoberta da América).

·         Pernambuco (1630): Os holandeses ocuparam Pernambuco em 1630, dando início a um período de colonização e exploração do açúcar. A partir de então, o território holandês se expandiria para o sul até o Rio São Francisco e para o norte até o Maranhão, embora o controle efetivo se concentrasse na faixa litorânea úmida.

2. O Papel Estratégico da Informação e da Comunicação

A circulação de informações, tanto impressas quanto manuscritas, desempenhou um papel crucial nas disputas coloniais do século XVII, moldando a percepção do mundo colonial e servindo como "arma de governo e de reivindicação de uma terra".

·         Proliferação de Escritos: O século XVII viu uma "proliferação dos escritos" sobre o Brasil, o que permitiu falar de uma "invenção" do Brasil neste período (Guida Marques, citado em Descoberta da América). Textos sobre a "França Antártica," crônicas ibéricas, obras de humanistas como Gândavo, compêndios de Soares de Souza e Brandão, e relatos jesuítas circulavam amplamente.

·         Redes de Informação: Uma complexa rede de "informantes, escritores, copistas, tradutores, compiladores, prefaciadores, impressores, leitores" (Descoberta da América) era vital para a coleta e distribuição de conhecimento. Manuscritos e impressos transitavam, muitas vezes com censuras e intervenções, transformando debates confidenciais em discussões públicas.

·         A Holanda como Modelo Editorial: O "Itinerário de Linschoten," publicado em 1595, é um marco fundador, pois, "Abastecido pelos cadernos de navegação dos portugueses e castelhanos, este viajante guiará a mão dos pilotos, fortalecerá as ambições da futura Companhia das Índias Ocidentais e fará o sucesso do livreiro Claesz que expande a biblioteca viática do letrado." (Descoberta da América). A Holanda emergiu como um "império sobre os mares, sucesso comercial e ponto de encontro editorial." (Descoberta da América).

·         Registros de Viagem e Expedições: Diários, relatórios e mapas eram essenciais para a exploração e domínio territorial. As obras de Dierick Ruiters ("A Tocha da Navegação") e o diário de Rodolfo Baro são exemplos primordiais de como as informações detalhadas sobre rotas, populações e recursos eram compiladas e utilizadas.

·         Propaganda e Contra-propaganda: Durante os conflitos, ambos os lados produziram textos para mobilizar apoio e denegrir o inimigo. Exemplos incluem "jornalecos," panfletos e obras como "L’antimanifeste du seigneur Fernando Teles de Faro" e "Apologie pour Monsieur de Sousa Coutinho".

3. Dierick Ruiters: O Navegador e Observador Estratégico

Dierick Ruiters, um experiente navegador holandês, desempenhou um papel crucial na fase inicial das invasões, fornecendo informações vitais sobre o litoral brasileiro.

·         Captura e Prisão (1609): Durante uma expedição holandesa à Ilha Grande, Ruiters foi atacado e aprisionado por forças portuguesas. Ele passou "trinta meses" (RUITERS, 1913, p. V-VII) como prisioneiro, primeiro no Rio de Janeiro e depois em Salvador.

·         "A Tocha da Navegação" (1623): Após sua fuga e retorno à Holanda, Ruiters publicou este livro, no qual "relatou as experiências vividas durante esse período, ofertando informações cruciais para navegantes que desejavam chegar ao litoral do atlântico sul com segurança, como também as peculiaridades da nova terra e características da população local." (Pereira & Sobral). Ele notou a estranheza de ser o primeiro a fazê-lo: "Eis por que me propus (vendo que, estranhamente, até agora ninguém se animou a fazê-lo) publicar este livro intitulado Tocha da Navegação. Escrito à maneira singela mas objetiva do marujo, o qual será prático e útil a todos os navegantes que queiram ir às costas do Brasil, das Índias Ocidentais, da Guiné e da Terra Nova, para chegar não somente a alguns, mas a todos os rios, portos e enseadas até o presente conhecido." (RUITERS, 1913, p. 21).

·         Conteúdo Estratégico: A obra continha dados detalhados sobre rotas seguras, épocas propícias para navegação e características geográficas, como a "Baía de Todos os Santos nos meses acima mencionados, em que sopra o Nordeste, deve-se aborda-la aos 11º ou 12º -15’: a costa é montanhosa e os morros mostram do lado do mar manchas brancas como se fossem lençóis a secar." (RUITERS, 1913, p. 43). Essas informações foram "de bastante relevância para a estratégia da chamada West-Indische Compagnie (WIC)" (Pereira & Sobral).

·         Observações Societais: Ruiters também documentou aspectos da sociedade colonial, incluindo a presença e as condições dos escravos africanos na Bahia. Ele observou que "Os negros de Angola são de uma robustez invulgar e adaptam-se muito bem à escravidão. De todo modo destituídos de inteligência, são de uma obtusa docilidade. Na Bahia, entre os engenhos e cidade, haverá uns 15.000 a 16.000 homens e mulheres de raça preta, tantos que se fossem inteligentes e unidos facilmente poderiam expulsar os portugueses a pauladas do país." (RUITERS, 1913, p. 29). Ele testemunhou e relatou as cruéis punições sofridas pelos escravizados: "Eu mesmo vi um negro faminto que, para encher a barriga havia furtado dois pães de açúcar. Ao sabê-lo, o senhor, foi ele amarrado de bruços a uma tábua e, em seguida, chicoteado a rêlho de couro por um negro até que seu corpo ficou, da cabeça aos pés, uma chaga aberta. Lugar poupado era lacerado à faca. Depois outro negro derramou sobre suas feridas um pote contendo vinagre e sal. O infeliz sempre amarrado, torcia-se de dor. Tive que presenciar (por mais que me chocasse) essa transformação em carne de boi salgado e, como se não bastasse, deitaram-lhe ainda breu derretido." (RUITERS, 1913, p. 65).

·         Participação na Invasão de Salvador (1624): Em 1624, Ruiters "pôde orientar e guiar as tropas neerlandesas durante a conquista de Salvador da Baía", assumindo o cargo de Quartel-Mestre, por ser "pessoa importante e prática daquelas partes." (Teensma).

4. Rodolfo Baro: O Intérprete Cultural e Embaixador dos Tapuias

Rodolfo Baro, que chegou ao Brasil ainda criança, tornou-se uma figura fundamental para a manutenção da presença holandesa, especialmente através de sua mediação com os povos indígenas.

·         Chegada e Integração (1617): Aos sete anos, Baro foi um dos poucos sobreviventes de um ataque indígena a uma expedição holandesa na Ilha Grande. Ele foi "entregue a uma aldeia Tupi. Ali viveu por anos, assimilando a língua e os costumes locais, experiência que marcaria profundamente sua trajetória." (Roeloff Baro: Cronista dos Tarairius). Claude Barthélemy Morisot, em notas à tradução francesa do diário de Baro, afirma: "Apreendeu, em pouco tempo, a língua do pais, privou com os bárbaros e viveu como eles." (Teensma).

·         Serviço à WIC (a partir de 1630): Em 1630, após os holandeses se apoderarem de Pernambuco, Baro se apresentou às autoridades neerlandesas no Recife. Seu "vasto conhecimento sobre a língua e a cultura dos povos nativos" (Roeloff Baro: Cronista dos Tarairius) foi imediatamente reconhecido como um ativo valioso.

·         Explorador e Alferes: Baro realizou diversas expedições ao sertão, inclusive na Capitania da Paraíba (1643), em busca de minas e para neutralizar quilombos de escravos. Por seus feitos, foi promovido a alferes em 1643, com a incumbência de "seguir explorando o interior" (Teensma).

·         Embaixador junto aos Tarairiús: Sua missão mais notável foi a de "articular a aliança entre os holandeses e a Nação Tarairiu, liderada pelo rei Janduí" (Roeloff Baro: Cronista dos Tarairius). Janduí, também referido como Nhanduí, era o líder supremo de um povo que "representavam um valor inestimável, uma vez que capturavam e consumiam os infiltrantes inimigos vindos do oeste." (Teensma).

·         Viagem de 1647: Entre abril e julho de 1647, Baro liderou uma expedição para reafirmar a aliança com Janduí, detalhando a jornada e os costumes dos Tarairiús em seu diário. Ele registrou a hospitalidade do rei, as celebrações, as lutas de jovens guerreiros, e as tentativas portuguesas de desestabilizar a aliança.

·         Intermediação Cultural: Baro "atuando simultaneamente como cronista e tradutor, exerceu papel fundamental na mediação cultural entre o universo neerlandês e o dos Tarairius." (Roeloff Baro: Cronista dos Tarairius). Ele percebia o sertão como um "território próprio, integrado à Capitania do Rio Grande, mas dotado de fronteiras implícitas, regras próprias, autoridades locais e poderes independentes. Nesse espaço autônomo, a autoridade suprema não era o Príncipe de Orange nem a Companhia das Índias Ocidentais, mas o rei Janduí" (Roeloff Baro: Cronista dos Tarairius).

·         Registros Etnográficos: O diário de Baro é uma "fonte valiosa para o conhecimento da vida cotidiana dos Tarairius" (Roeloff Baro: Cronista dos Tarairius), descrevendo práticas como caça, coleta, agricultura (milho, fumo, legumes, mandioca), técnicas culinárias, rituais de iniciação, cerimônias matrimoniais, curas com fumaça, o uso de arcos, flechas e tacapes, e festividades. Notavelmente, ele mencionou o "endocanibalismo, as corridas de toras, a produção de bebidas a partir de sementes e o hábito, comum a homens e mulheres, de manter cabelos longos." (Roeloff Baro: Cronista dos Tarairius).

·         Sobre os ritos de passagem, ele descreve a perfuração dos lóbulos das orelhas e lábios inferiores dos garotos com uma "sovela de madeira", onde "Nos buracos meteram lascas de pedra branca. Nessa ocasião o garotinho recebeu seu nome individual." (Teensma).

·         No casamento coletivo, ele relata a ornamentação dos corpos com "plumas coloridas" e a perfuração das bochechas e lábios inferiores, "preenchidos com lascas de pedra branca." Os pajés sacrificavam o sangue à divindade Taúba e abençoavam com fumaça de tabaco, seguidos de "festa noturna de canto e baile, em que, com grande assombro do autor, só se serviram milho cozido e água salgada." (Teensma).

·         Um relato chocante é sobre os ritos funerários de uma criança: "morreu a criança cuja cura o Diabo [Taúba] tinha assegurado. Os tapuias zangaram-se e o expulsaram mas ele deixou-se ficar, fingindo estar extremamente compungido com a morte da criança, cuja cabeça os tapuias cortaram e cujo corpo retalharam, pondo-o a cozinhar numa panela. Em seguida, os parentes mais próximos vieram à festa e comeram tudo, inclusive os tenros ossos." (Teensma).

·         Publicação e Legado: O diário de Baro foi publicado em francês em 1651 e em Amsterdã em 1652. Apesar das dificuldades de tradução e dos erros dos editores, sua obra é um "digno monumento à memória desse povo índio, porque a partir da segunda metade do século dezessete, todos os acontecimentos contribuíram para extingui-lo da memória dos Brasileiros." (Teensma).

5. Declínio do Domínio Holandês e a "Invenção" do Brasil

Apesar dos esforços de figuras como Ruiters e Baro, o domínio holandês no Brasil foi efêmero, terminando em 1654.

·         Fatores de Declínio:Restauração Portuguesa (1640): A dissolução da União Ibérica e a restauração do trono português enfraqueceram a posição holandesa.

·         Insurreição Pernambucana (1645): A insubordinação dos luso-brasileiros contra o monopólio da WIC, aliada aos ataques portugueses e seus aliados indígenas, desgastou o controle holandês.

·         Fragilidade Holandesa: A Companhia enfrentou dificuldades econômicas e militares, resultando em "carência" no Recife e uma "fraqueza política e material" (Teensma).

·         Consequências para os Indígenas: Após a retirada holandesa, os portugueses e seus colaboradores "penetraram cada vez mais longe no sertão, para instituir nele as próprias normas e leis. Os Indios que não queriam sujeitar-se a elas, foram combatidos e exterminados como inimigos." (Teensma).

·         A "Invenção" do Brasil no Século XVII: A "proliferação dos escritos" no século XVII, impulsionada pelas disputas coloniais e pela curiosidade europeia, contribuiu para a formação de uma imagem do Brasil no imaginário europeu. Esta "invenção" não se limitou a relatos de guerra, mas incluiu descrições geográficas, etnográficas e naturalistas, como as obras de Laet, Barleus, Piso e Marcgrav. A França, mesmo após sua retirada física do Maranhão, manteve "os olhos voltados para aquele espaço" (Descoberta da América), demonstrando a ampla circulação e impacto dessas informações na Europa.

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