O Seridó Potiguar na Historiografia

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O texto é um excerto de um trabalho acadêmico intitulado "Marca e Demarca Espaços: Seridó Potiguar na Historiografia" que se propõe a discutir como a região do Seridó Potiguar, no Rio Grande do Norte, é construída e interpretada na historiografia local. A pesquisa se concentra na análise da escrita da história e na autoria, examinando como a subjetividade e o lugar social dos autores influenciam a configuração do espaço do Seridó. O estudo emprega obras de autores como Manoel Dantas, José Augusto Bezerra de Medeiros, Juvenal Lamartine de Faria e Oswaldo Lamartine de Faria, destacando as conexões genealógicas e temáticas entre eles, que frequentemente recorrem a metáforas do "sertão" e temas como a seca, o algodão e o gado para definir a região. O objetivo central é compreender como esses discursos criam uma "rostidade" e uma "cartografia sentimental" para o Seridó, que se expande além de sua geografia física.

A Historiografia do Seridó Potiguar: Construção de Espaços e Subjetividades

Este documento sintetiza os principais temas, ideias e fatos apresentados nos excertos de "Marca e Demarca Espaços: Seridó Potiguar na Historiografia" de Olívia Morais de Medeiros Neta. O texto explora como a região do Seridó, no Rio Grande do Norte, é construída e subjetivada através da historiografia potiguar, com foco na relação entre a escrita da história, a autoria e a configuração do espaço.

Tema Central: A Construção do Seridó Através da Escrita Historiográfica

O artigo tem como objetivo principal discutir como os autores da historiografia potiguar "subjetivam esta região e como constroem noções acerca do Seridó". A escrita é vista não apenas como uma representação do real, mas como uma prática que "institui reais" e "rostos ao espaço". O Seridó, portanto, "nascera do encontro de poder e linguagem, onde se dá a produção imagética e textual da espacialização das relações de poder".

Ideias e Fatos Mais Importantes:

1.    A Escrita como Demarcadora de Espaços e Subjetividades:

·         A escrita é entendida como uma prática que "(de)marca espaços", atribuindo sentidos e significados a eles.

·         Para os autores, a história não é um cenário neutro, mas parte integrante da realidade, onde "toda pesquisa historiográfica se articula a um lugar de produção sócio-econômico, político e cultural".

·         A "historiografia como forma de linguagem não apenas representa o real, mas institui reais".

1.    O "Corpus Documental" e a Análise de Autores Chave:

·         A pesquisa analisa um conjunto de obras que têm o Seridó como objeto, incluindo:

·         "Homens de Outrora" (1941) e artigos de Manoel Dantas (1889).

·         "Seridó" (1954) de José Augusto Bezerra de Medeiros.

·         "Velhos Costumes do Meu Sertão" (1965) de Juvenal Lamartine de Faria.

·         "Sertões do Seridó" (1980) de Oswaldo Lamartine de Faria.

·         A investigação questiona a produção do espaço nessas obras, a relação entre autor e escrita, as "rostidades do Seridó" e a história do espaço que é escrito e significado.

1.    Tempo e Espaço como Categorias Históricas Fundamentais:

·         Tempo e espaço são "categorias básicas da existência humana", que permitem "traçar caminhos", "recortar objetos" e "inscrever lugares e interesses à escrita".

·         O espaço não é um "fato da natureza", mas é "(de)marcado, é subjetivado, é praticado, é vivido... é produção; não existe um espaço a priori".

·         A historiografia sobre o Seridó é lida sob as "(de)marcações espaciais e temporais", revelando as palavras, textos e metáforas utilizadas para descrever a região pelos autores estudados.

1.    A Perspectiva da "História dos Espaços" e Autoria:

·         O estudo se insere no debate historiográfico da "construção dos espaços", influenciado pela Escola dos Annales (Braudel, Le Roy Ladurie) e estudos brasileiros clássicos (Capistrano de Abreu, Caio Prado Júnior, Sérgio Buarque de Holanda).

·         Destaca-se a "noção de autoria", buscando as subjetivações dos autores para o Seridó e problematizando-as a partir de seus "lugares sociais".

·         A "história das sensibilidades em relação aos espaços" exige uma "mirada poética, uma visão artística", pois "fazer uma história com espaços é escrever com a alma".

1.    O Seridó como "Ninho" e "Mundo" Subjetivado:

·         O Seridó é descrito como "um mundo, como um texto, como um ninho, um lugar subjetivado pelos autores".

·         A ideia de "ninho" sugere uma construção íntima, onde o espaço assume a forma do corpo do autor, uma "expansão do seu espaço íntimo".

1.    A Região do Seridó: Caracterização Geográfica e Cultural:

·         Localiza-se na porção centro-meridional do Rio Grande do Norte, dividida em Seridó Ocidental e Oriental (17 municípios).

·         Mais que uma designação geográfica, o termo "Seridó" tornou-se "referencial de uma identidade espacial com forte conteúdo histórico-cultural".

·         A região é configurada a partir de sua personalidade, tecida no enredo de sua formação, estruturação e reestruturação, e é "produto da escrita".

1.    As "Rostidades" do Seridó na Escrita dos Autores:

·         Manoel Dantas (1867-1924):Formado em Direito na Faculdade de Recife, influenciado pelo evolucionismo, positivismo, naturalismo e republicanismo da "Geração de 1870".

·         Seus artigos (Jornal "O Povo", 1889) analisam a vida sertaneja, vendo o "sertanejo como problema", cuja "vida estagnada" se deve à falta de "ensino proveitoso".

·         Na obra "Homens de Outrora", percorre os sertões do Seridó, observando os "costumes ainda se ressentem do culto do passado".

·         A seca é uma "rostidade" central para o Seridó em sua escrita, abordada cientificamente como um "problema árido", com soluções na técnica (açudes, poços).

·         A relação homem-natureza é um tema chave, onde a técnica busca "vencer a natureza, ou na pior das hipóteses a rende".

·         José Augusto Bezerra de Medeiros (1884-1971):Sobrino de Manoel Dantas e organizador de "Homens de Outrora".

·         Professor de História Geral, advogado e figura política.

·         Em "Seridó", o espaço é caracterizado economicamente pelo "algodão mocó, de fibra longa, sedosa e resistente".

·         A "luta contra as secas" é central para o "progresso" e "futuro" da região.

·         A natureza é uma personagem dual, "bem e mal, solução e praga", exigindo que o homem seja forte para "enfrentar a rude luta com a natureza, que é inclemente".

·         O Seridó é um "espaço de luta e de 'fibra'", uma "Região descalvada, montanhosa, eriçada de pedregulhos e espinhos".

·         Para José Augusto, a história do Seridó é a "história da relação homem e natureza".

·         Juvenal Lamartine de Faria (1874-1956):Proveniente das elites política e econômica do Seridó, formado em Direito na Faculdade de Recife.

·         Político influente (Governador do RN), defensor do voto feminino.

·         Em "Velhos Costumes do Meu Sertão" (1954), escreve suas memórias do "mundo rural, do idílico", "tecendo a partir do ato de rememorar ícones e ações da terra e do homem do sertão seridoense".

·         Sua escrita é "a própria escrita de si", um "lugar de memória engessada por identificações quanto ao ser cultural preso as histórias do gado, do gentil, do senhor da fazenda, da devoção cristã, da terra dura que produz homens fortes".

·         Oswaldo Lamartine de Faria (Filho de Juvenal):Reconhecido pesquisador do Sertão, elogiado por Rachel de Queiroz como "ninguém entende mais do sertão e do Nordeste do que Oswaldo".

·         Em "Sertões do Seridó" (1980), o espaço seridoense é um "recorte memorialístico", uma "poética espacial para os limites, para as identificações do Seridó".

·         Sua escrita evoca a natureza, os sons, os cheiros e as experiências sensoriais do sertão ("O grito da mãe-da-lua que os grandes trágicos nunca ouviram. A sombra (refrigério) do juazeiro...").

·         A "identificação do Seridó ao sertão marca significações e subjetividades para o espaço", sendo uma "construção simbólica, historicamente concretizada".

·         A narrativa do Seridó é a de uma "luta", de um "desbravamento de uma terra 'virgem'", onde a natureza "foi, é de se imaginar, quem apontou ao homem o jeito de fazer durar mais".

1.    A Dimensão Familiar e Genealógica na Escrita do Seridó:

·         Os autores (Manoel Dantas, José Augusto, Juvenal e Oswaldo Lamartine) estão conectados por "elos genealógicos", formando um "corpo familiar".

·         Essa "rede familiar está na rede da historiografia", "(de)marcando um ser e estar, um lugar social da historiografia sobre o Seridó para seus autores".

·         O Seridó se torna uma "rede de pertencimento do lugar e da família".

1.    "Rostidade" Sertaneja e Cartografias Sentimentais:

·         A "rostidade sertaneja que significa o Seridó é a tessitura do significante no muro branco e da subjetividade no buraco negro".

·         O Seridó é um "texto narrado a partir do sertão, que é árido, cinzento, de terra rachada e sol escaldante".

·         A pesquisa busca compreender a "construção da cartografia sentimental no Seridó", que "se projeta para além da geografia física e adentra as cartografias sentimentais, o campo da subjetividade, dos territórios existenciais".

1.    História dos Espaços como História Sensível:

·         A história dos espaços é "uma história sensível, tem subjetividade e significa a partir dos lugares sociais dos que produzem as locuções discursivas".

·         O Seridó construído por esses autores é uma "escrita de si para um espaço", uma "autoria que do espaço interiorizado escritura seus rostos, (de)marca sua feições, faz viver pela escrita o produto do seu eu que é (re)territorializado nos seus relatos de espaço".

Conclusão:

O documento destaca que o Seridó não é apenas uma área geográfica, mas uma entidade "inventada historiograficamente", cuja identidade e características são moldadas pelas narrativas de seus autores. Através da análise de figuras como Manoel Dantas, José Augusto Bezerra de Medeiros, Juvenal e Oswaldo Lamartine, percebe-se como a região é construída através da lente da relação homem-natureza (especialmente a seca), da vida sertaneja, da herança familiar dos autores e de uma "rostidade" que se torna intrínseca à sua representação histórica e cultural. A historiografia, nesse contexto, é um ato poético e subjetivo, que "(de)marca espaços" e confere vida e significado ao Seridó Potiguar.

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