Memórias e Genealogia da Família Pires

As memórias da família Pires, colhidas a partir das narrativas de José Pires, conhecido como “Zé Pires”, compõem um vasto e expressivo mosaico de experiências familiares, laços genealógicos e vivências sociais que atravessam gerações e refletem, de modo exemplar, a formação histórica e cultural do sertão nordestino ao longo do século XX. Trata-se de um conjunto de recordações em que se entrelaçam a complexidade das relações de parentesco, a dureza da vida no meio rural e o processo de transição para a vida urbana por meio da educação formal, elemento decisivo na redefinição de destinos individuais e coletivos.

No plano genealógico, destaca-se a figura da bisavó Maria Benta, personagem central na estrutura familiar, cuja trajetória conjugal revela práticas comuns a um tempo histórico marcado por normas sociais e religiosas distintas das atuais. Maria Benta contraiu matrimônio por três vezes, sendo o primeiro deles com Berlindo, seu tio legítimo, união então admitida tanto pela legislação civil quanto pela Igreja. Desse casamento nasceram três filhos, entre os quais Maria Rita, que mais tarde se casaria com Zé Petir. Após a morte de Berlindo, Maria Benta voltou a se casar, desta feita com Pedro Paulo, de cuja união nasceu o pai de Zé Pires, o filho caçula, que contava apenas seis anos de idade quando ficou órfão de pai. Há ainda a referência a um terceiro casamento, mencionado nas memórias familiares, embora sem maiores detalhes documentados.

A ancestralidade da família é marcada por personagens cujas histórias, transmitidas oralmente, oscilam entre o trágico e o lendário. Entre eles figura Tomás Francês, ancestral que teria ingressado no cangaço após cometer um crime de extrema violência no seio familiar. Segundo a narrativa preservada, uma de suas filhas teria tido um filho com um escravizado, fato que o levou a assassinar a própria filha, o escravo e o neto recém-nascido, refugiando-se em seguida entre grupos de cangaceiros. Essa linhagem era evocada, em tom de provocação, pelo pai de Zé Pires em relação à esposa. Pesquisas realizadas por parentes indicam que Tomás Francês faleceu no mesmo ano que sua mulher, ainda em idade relativamente jovem. Outro nome associado ao cangaço é Manuel Paulo, pertencente a uma “turma de cangaço” ligada ao ramo paterno da família. Essas narrativas revelam não apenas episódios extremos, mas também a naturalização, em determinados contextos históricos, da violência como resposta a conflitos morais e sociais.

A recorrência de casamentos consanguíneos também se apresenta como traço significativo da genealogia familiar. Além de Maria Benta, a bisavó Francisca, conhecida como Chiquinha, igualmente contraiu matrimônio com um tio, evidenciando práticas que visavam preservar patrimônios, fortalecer alianças familiares e garantir a continuidade das linhagens em contextos rurais isolados.

Outro ramo de destaque é a linhagem Dantas, associada, nas memórias familiares, a um legado intelectual e artístico. Essa ascendência remonta a Micaela Dantas Correia, tendo como descendente Caetano Dantas Correia, que, já aos quarenta anos de idade, casou-se com Josefa de Araújo Pereira, filha de Tomás de Araújo Pereira, com quem teve dezenove filhos. A família Dantas é descrita como versátil e talentosa, percepção reforçada por episódios simbólicos, como o comentário de uma professora que atribuía as habilidades artísticas de uma filha de Zé Pires ao suposto “sangue italiano” materno, prontamente corrigido por ele, que reivindicava a herança intelectual dos Dantas. Nesse contexto, destaca-se ainda Toeca Dantas, músico cuja produção, incluindo uma valsa, teria sido executada na Capela Sistina, no Vaticano, elemento que reforça o prestígio cultural atribuído a esse ramo familiar.

As origens da família Pires revelam ainda uma notável diversidade étnica. Há o registro de uma avó que emigrou da Itália para o Brasil, realizando a travessia marítima no porão de um navio, acompanhada do marido, experiência comum a muitos imigrantes europeus do período. Soma-se a isso a possibilidade de ascendência indígena, inicialmente tratada como mera especulação, mas posteriormente corroborada por um teste de DNA realizado pela neta Rafaela, que apontou percentual genético indígena. Essa herança era associada, nas memórias familiares, a características físicas do pai de Zé Pires, especialmente ao formato dos olhos, descritos como “olhinhos assim chato”.

Diversos outros parentes compõem esse quadro familiar ampliado, cada qual com sua história singular. Tio Luiz, por exemplo, sofria de um transtorno mental associado às fases da lua, sendo por vezes mantido acorrentado para evitar que se ferisse ou ferisse terceiros. Tia Ana, mãe de Francisca Anita e Maria Clarice, mantinha estreita relação com Zé Pires, que, ainda menino, levava leite à sua casa. Maria Clarice, conhecida por sua beleza e pelos muitos pretendentes, casou-se com Chico Bumba, enquanto Francisca Anita mudou-se para Goiás, estabelecendo-se em Santa Helena após casar-se com um membro da família Januário. Há ainda a menção a um tio Tomás, que, segundo recordações esparsas, chegou a ser preso. Os avós paternos, por sua vez, viveram longos anos em condições financeiras precárias, situação que começou a se modificar em 1971, quando passaram a receber a aposentadoria rural masculina, política implementada durante o governo de Ernesto Geisel.

As memórias de Zé Pires ganham densidade especial ao retratarem a vida no sítio, marcada pelo trabalho árduo desde a infância e pela utilização integral dos recursos naturais disponíveis. A propriedade familiar possuía cerca de 190 hectares, dos quais aproximadamente 70% situavam-se em área de serra. Parte dessas terras fora adquirida de Francisco Elvídio, filho do Major Pires, e outra parte herdada de “vovô Bumba”. O pai de Zé Pires explorava intensamente toda a extensão do sítio, desenvolvendo, na região serrana, a extração da borracha da maniçoba, atividade economicamente relevante no período posterior à Segunda Guerra Mundial, quando a escassez de borracha sintética elevou o valor do produto. Em determinados momentos, a produção chegou a alcançar quinhentos quilos, embora a propriedade também tenha sido palco de conflitos e desavenças familiares, inclusive entre o pai de Zé Pires e Chico Bumba.

Desde os dez anos de idade, Zé Pires assumiu responsabilidades significativas no trabalho rural. Sua rotina começava às quatro horas da manhã, quando se encarregava de “botar bezerro”, chamando os animais pelo nome. Alimentava o gado com torta de algodão, cortava abóboras, limpava o milharal e era responsável pela “agoação”, isto é, pela irrigação das plantas. Para tanto, carregava água em duas latas de querosene de dezoito litros cada. O pai costumava afirmar que tudo prosperara após o filho assumir essa tarefa, reconhecimento que evidencia a vocação precoce e o senso de responsabilidade do menino.

O cotidiano rural era marcado por costumes hoje impensáveis, como a ausência de sanitário doméstico, substituído por uma latrina simples, onde galinhas e porcos se alimentavam dos dejetos. A alimentação tinha na batata-doce um de seus pilares, reconhecida não apenas como sustento básico, mas como alimento de alto valor nutritivo. Anos mais tarde, já pesquisador, Zé Pires aprofundaria estudos sobre o tubérculo, destacando o elevado teor proteico presente sobretudo na casca. Durante a infância, ao levar leite para a casa de Tia Ana, costumava ali tomar café com leite acompanhado de batata-doce, refeição que sintetiza a simplicidade e a engenhosidade da vida sertaneja. Nesse percurso, figuras como Bilé e sua esposa, Dona Maria Isabel Fernando, desempenharam papel fundamental ao incentivá-lo a continuar os estudos após a conclusão do curso primário, quando havia retornado integralmente ao trabalho no sítio.

A transição para a vida urbana, motivada pela busca por educação formal, representou um momento de profunda ruptura e adaptação. Zé Pires estudou os primeiros anos na Estação Experimental de Bulhões, tendo como professoras Dona Maria Francisca, Dona Nenê Tinco e Chiquinha. Mesmo após concluir o quarto ano com aprovação, continuou frequentando as aulas como repetente, apenas para não interromper o processo educativo. Ao chegar à cidade, experimentou um choque cultural significativo: não havia energia elétrica, e a iluminação noturna dependia de candeeiros a querosene. O menino José, conhecido no sítio, passou a ser chamado de “Zinha” no novo ambiente urbano.

As dificuldades de adaptação manifestaram-se de forma pungente em sua primeira noite na cidade, quando foi enviado para comprar querosene e não sabia onde encontrá-lo. Ao ouvir uma música transmitida pela amplificadora municipal, foi tomado por uma saudade intensa de casa e chorou em plena rua, acompanhado por Teresa e Francisca Lita. Pouco tempo depois, chegou em abril e precisou submeter-se a uma prova de seleção, cuja dissertação tinha como tema “Nossa Senhora da Guia”. Na infância, chegou a alimentar o desejo de tornar-se padre, revelando inclinações espirituais que também marcaram sua formação.

A continuidade dos estudos, contudo, estava condicionada a fatores externos, como a cheia do Barreirinho, pequena barragem cuja abundância de água determinava a possibilidade de as famílias rurais manterem os filhos na escola. Assim, as memórias de Zé Pires revelam não apenas uma trajetória individual, mas o retrato de uma geração que enfrentou limitações severas e, ainda assim, encontrou na educação um caminho de superação, mobilidade social e preservação da memória familiar, hoje organizada como patrimônio histórico e genealógico de inestimável valor.

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