Ciganos Calon no Seridó: Redes, Movimento e Rearticulação

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O texto apresenta trechos de uma tese de doutorado de Virgínia Kátia de Araújo Souza intitulada "Entre laços e teias: famílias ciganas no Seridó Potiguar", defendida na Universidade Federal do Rio Grande do Norte em 2016. Esta pesquisa etnográfica investiga a organização social e as redes de relacionamento das famílias ciganas Calon que residem na região do Seridó, com foco em municípios como Cruzeta, Florânia e Currais Novos. A autora explora temas como o nomadismo e sedentarização, a cultura, os papéis de gênero, e o modo de sobrevivência dos ciganos por meio do comércio informal e da mendicância. Além disso, a tese examina as representações históricas e literárias depreciativas dos ciganos e como a doença, a morte e o luto influenciam a movência e a coesão das comunidades. O trabalho também reflete sobre a metodologia antropológica, incluindo a observação participante e o uso da fotografia.

Sumário Executivo: "Entre Laços e Teias: Famílias Ciganas no Seridó Potiguar"

O documento "Entre Laços e Teias: Famílias Ciganas no Seridó Potiguar", tese de doutorado de Virgínia Kátia de Araújo Souza (2016), oferece uma análise etnográfica aprofundada das famílias ciganas Calon na região do Seridó Norte Rio-grandense (Cruzeta, Florânia, São Vicente e Currais Novos). A pesquisa desafia as noções tradicionais de "grupo social" e "nomadismo" para os ciganos, propondo uma compreensão baseada em conceitos de "fluxo", "rede" e "conectividade". O trabalho explora as dinâmicas de organização familiar (nuclear e extensa), as relações com a sociedade majoritária (não-cigana ou "gadjó"), e como a subsistência, a doença e a morte impulsionam a "movência" (mobilidade) e a ressignificação da identidade cigana.

Principais Temas e Ideias:

1.    Releitura do Conceito de "Grupo Social" e "Nomadismo" para Ciganos:

·         A autora critica a ideia de delimitar os ciganos como um grupo específico ou universalizá-los, propondo uma abordagem que contemple a pluralidade e a "incompletude" do "fazer-se cigano". A "ciganidade" é construída cotidianamente na "rede de socialidade", não sendo inata.

·         O nomadismo, embora um elemento forte no imaginário "gadjó" sobre os ciganos ("cigano vive aqui, cigano vive acolá"), é ressignificado. A autora argumenta que, mesmo "sedentarizados" em casas, a "prerrogativa nômade" mantém uma tradição recriada, evidenciada pela contínua movência dos atores no espaço, seja para negócios, visitas a parentes, ou em rituais.

·         "Se no imaginário, os ciganos estão 'sedentarizados', simbolicamente há uma prerrogativa nômade que mantem uma tradição, mesmo que recriada." (Souza, 2016, p. 7).

·         "O nomadismo passou a ser apropriado pela população de outras formas, eles passaram a pensar e se relacionar com o espaço de uma maneira que nos remete a pensar como essa prática foi sendo configurada nessa 'nova' realidade." (Medeiros, Batista e Goldfarb, 2014, apud Souza, 2016, p. 122).

1.    O Conceito de Rede e Conectividade para Compreender a Organização Cigana:

·         A tese utiliza o conceito de "rede social" para entender a complexa mobilidade entre os sujeitos ciganos, que transcende as delimitações geográficas de um grupo. A rede é vista como um sistema interligado de comunicação que envolve linguagem simbólica, limites culturais e relações de poder.

·         A "conectividade", preferida ao termo "parentesco" em certos contextos, abrange não apenas laços genealógicos, mas também a "substância compartilhada" que cria relações profundas e duradouras.

·         A família, como um "alvéolo primordial", e as redes de parentesco são fundamentais para essa conectividade, ligando ciganos em diferentes cidades do Seridó (Cruzeta, Currais Novos, São Vicente, Florânia) e até em outros estados (Paraíba, Maranhão).

·         "O estudo sobre família atrelada ao conceito de rede é fundamental nessas situações em que a categoria grupo não consegue dar conta da complexa mobilidade entre os sujeitos que estão se relacionando socialmente." (Souza, 2016, p. 7).

·         "Assim, ao abstrair da realidade social, a noção de rede deverá conter a maior parte de informação sobre a totalidade da vida social da comunidade a qual corresponde." (Barnes, 1987, apud Souza, 2016, p. 98).

1.    Movências e Fixações no Território Seridoense:

·         A pesquisa revela uma "dupla movência" ou "movimento contínuo" dos ciganos:

·         Movência para a subsistência: Envolve o "fazer negócio" (compra e venda de carros, motos, bicicletas, relógios, redes) e o "fazer a feira" (mendicância de alimentos e produtos de higiene, leitura de mãos e cartomancia, rezas para cura). Essas práticas são estratégias de sobrevivência e ocorrem tanto na cidade de residência quanto em cidades vizinhas. Há um rodízio no "pedir" entre as mulheres, e os homens se dedicam mais às trocas comerciais.

·         "Para estes ciganos o que parece estabelecer vínculos é a memória que os une, mais os lugares pelos quais passaram, sendo Sousa um lugar preferencial, um lugar pelo qual traçavam rota." (Medeiros, Batista e Goldfarb, 2014, apud Souza, 2016, p. 113).

·         Movência relacionada à doença e à morte: A doença é frequentemente associada à "parada" (sedentarização), e a busca por cura leva os ciganos a se deslocarem para cidades com melhores recursos médicos, acionando suas redes familiares e de amizades.

·         A morte de um familiar pode desencadear o deslocamento da família para outra residência, bairro ou cidade, como uma forma de "esquecer" o morto e apagar suas lembranças. A queima de pertences do falecido é um ritual central para essa "disjunção".

·         "A movência cigana relativa à morte diz respeito ao deslocamento significativo da família do morto para outros espaços." (Souza, 2016, p. 209).

·         "Quando morre um cigano, naquela casa, eles se mudam, eles não querem não ficar na casa. Aí vão para outra cidade." (Cigana Vitória, apud Souza, 2016, p. 214).

·         As "fronteiras" são fluidas, mas as interações com a sociedade majoritária e até mesmo entre diferentes famílias ciganas revelam "pontos de conflito e contradições", onde a identidade e o pertencimento são delineados.

1.    Papéis de Gênero e Organização Familiar:

·         Os papéis de homens e mulheres ciganos são tradicionalmente distintos, mas a tese observa mudanças e adaptações. As mulheres são responsáveis pelo sustento familiar através do "pedir" e "leitura da sorte", além das tarefas domésticas. Os homens cuidam mais dos negócios e das relações externas.

·         Apesar da figura do "superior" (o homem mais velho, o pai ou irmão mais velho) na hierarquia familiar, a tese mostra casos em que, na ausência do pai, a mãe assume a liderança, e em outros, os filhos não seguem os conselhos do "superior".

·         "Em questões de política externa, cabe ainda ao homem cigano resolver quaisquer assuntos com os não-ciganos... A romi, mulher cigana, é vista socialmente como dependente do marido mas, no ambiente doméstico, a mãe cigana é o fundamento da etnia." (Pereira, 2009, apud Souza, 2016, p. 129).

1.    Percepções da Cultura Cigana e os Estigmas Sociais:

·         A pesquisa reitera a persistência de estigmas históricos sobre os ciganos na sociedade brasileira, como "ladrões", "trapaceiros", "ociosos", "desconfiados" e "bruxos". Essas representações são visíveis na literatura e no senso comum ("cigano é ladrão! Não se pode dar confiança assim!").

·         Há uma dicotomia nas percepções: de um lado, o temor e a desconfiança; de outro, o fascínio pelo mistério, a música, a dança e os saberes oraculares (cartomancia, quiromancia).

·         A resistência dos ciganos em assinar carteira de trabalho formal reflete uma preferência pela liberdade e pela conciliação da vida pessoal e profissional, o que muitas vezes é interpretado pelos "jurons" como falta de interesse ou preguiça.

·         A religiosidade cigana no Seridó é permeada por elementos do catolicismo popular (rezas para santos, amuletos), mas com práticas próprias e uma certa distância dos ritos formais da Igreja. A fé na magia e na feitiçaria é presente e, por vezes, antecede a busca pelo saber biomédico.

·         "O povo tem a imagem que cigano é sujo, mas essas mulheres eram de um luxo!" (Francisco de Assis, apud Souza, 2016, p. 86).

Contribuição e Relevância:

A tese de Souza (2016) oferece uma contribuição significativa para os estudos ciganos no Brasil, ao:

·         Desconstruir estereótipos e generalizações sobre a cultura cigana, focando nas especificidades do grupo Calon no Seridó.

·         Propor um arcabouço teórico inovador, utilizando as noções de "fluxo", "rede" e "conectividade" para analisar a dinâmica social cigana para além das categorias de "grupo" e "nomadismo" em um sentido estático.

·         Enfatizar a agência dos próprios ciganos na reinvenção de sua cultura e identidade em face das mudanças sociais e das imposições externas, mostrando a "movência" como um elemento central de sua forma de vida e sobrevivência.

·         Destacar a importância das relações familiares e de amizade como pilares da organização social e da resiliência cigana frente às adversidades.

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