A Religião Católico-Sertaneja e o
Misticismo no Seridó
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O texto fornece uma análise abrangente da religiosidade católica-sertaneja no
Nordeste do Brasil, focando-se em suas origens e características únicas.
Inicialmente, estabelece uma conexão entre o criptojudaísmo praticado
por cristãos-novos no Nordeste e o marranismo no Norte de Portugal, sugerindo
que a imigração dessas populações contribuiu para a formação cultural do
sertão. A discussão se aprofunda ao examinar o misticismo sertanejo,
citando intelectuais como Euclides da Cunha e Roger Bastide para contextualizar
essa religiosidade híbrida. Particularmente, o artigo explora a cosmovisão presente
no romance de Ariano Suassuna, "Romance
d'A Pedra do Reino e o Príncipe do sangue do vai-e-volta," que
é usado como lente para identificar elementos de cabala e outras
práticas esotéricas ancestrais. Finalmente, o texto categoriza as diversas
interpretações acadêmicas sobre o fenômeno da religiosidade sertaneja,
incluindo abordagens biopssicológicas, sociológicas e antropológicas.
A Religião Católico-Sertaneja e Suas Raízes Criptojudaicas
Resumo Executivo
A análise do contexto de origem revela a existência de uma singular
manifestação religiosa no Sertão nordestino, denominada "Religião
Católico-Sertaneja". Esta religiosidade, distinta do catolicismo romano
oficial, é profundamente influenciada por resquícios do criptojudaísmo,
especificamente do misticismo judaico e cabalístico, trazido por colonizadores
portugueses de origem sefardita (cristãos-novos). A região do Seridó, no Rio
Grande do Norte, é identificada como um epicentro dessa herança, conforme
pesquisas genealógicas e etnográficas.
A obra literária de Ariano Suassuna, em particular Romance d'A
Pedra do Reino, serve como a principal ferramenta para decodificar essa
cosmovisão alternativa. Através do personagem-narrador Pedro Diniz
Ferreira-Quaderna, Suassuna articula os elementos centrais dessa religião: um
animismo que percebe o divino em todos os aspectos da natureza, uma crença
central no "encantamento" e "desencantamento" ligada ao
sebastianismo, e uma complexa estrutura de pensamento que busca harmonizar
opostos como fatalismo e intervenção mágica, o sagrado e o profano ("divino-diabólico").
A investigação estabelece paralelos diretos entre essa cosmovisão
sertaneja e os princípios fundamentais da Cabala, como o panenteísmo (a
imanência de Deus na criação), a concepção do mal como um resíduo da vida
oculta sob a providência divina e o poder mágico conferido à palavra. A
religiosidade sertaneja, portanto, emerge não como uma simples corruptela do
catolicismo, mas como uma sofisticada e resiliente tradição subterrânea de
origem judaica, adaptada e preservada ao longo dos séculos.
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1. Origens Históricas: A Conexão Sefardita no Sertão
A base para a compreensão da religiosidade sertaneja reside na
identificação de suas raízes históricas, que apontam para uma forte conexão com
o marranismo (criptojudaísmo) português. A colonização do Nordeste brasileiro,
especialmente do Sertão, foi marcada pela vinda de imigrantes de Portugal,
muitos dos quais eram "cristãos-novos" — judeus forçados à conversão.
• Fluxo Migratório: A emigração do Império Português
(1500-1822) e a contínua vinda de portugueses até o início do século XX
trouxeram para o Brasil, e em particular para o Nordeste, indivíduos de origem
cristã-nova, majoritariamente do norte de Portugal, uma região conhecida por
suas comunidades marranas.
• O Caso do Seridó: Pesquisas históricas e
antropológicas destacam a microrregião do Seridó (Rio Grande do Norte) como uma
área de "significativa concentração de descendentes de cristãos-novos
praticantes de resquícios de judaísmo".
◦ O historiador Olavo de Medeiros Filho
(1934-2005) constatou que a ocupação efetiva da região por famílias portuguesas
ocorreu após 1720, com uma "predominância do imigrante proveniente do
norte de Portugal e dos Açores".
◦ Medeiros Filho identificou indivíduos de
origem marrana ou cristã-nova que contribuíram para a formação das famílias
locais, como Daniel Gomes de Alarcón, Maria Francisca de Oliveira e Manoel
Hipólito do Sacramento.
• Evidências Subterrâneas: Embora registros
eclesiásticos oficiais (batismos, casamentos) não revelem práticas heterodoxas,
a pesquisa etnográfica e a memória dos "velhos sertanejos" indicam
vestígios de costumes judaicos em hábitos alimentares, funerários, religiosos e
domésticos, descritos como "reminiscências semiconscientes".
2. Interpretações Tradicionais do Misticismo Sertanejo
Diversos pensadores buscaram explicar o misticismo característico do
Sertão. Essas interpretações, embora valiosas, muitas vezes não reconheceram a
centralidade da herança criptojudaica.
2.1. Euclides da Cunha e a "Religião Mestiça"
Em 1902, Euclides da Cunha (1866-1909) descreveu a religiosidade
sertaneja como uma "religião mestiça" e "uma mestiçagem de
crenças".
• Origem Ibérica: Ele argumentou que esse misticismo
foi trazido diretamente da Península Ibérica, sem as influências do litoral, e
carregava o impacto da perseguição inquisitorial. Em suas palavras:
• Indícios Cabalísticos: Sem o saber, Cunha registrou
práticas que remetem à Cabala, como as "benzeduras cabalísticas" para
curar animais, que envolviam traçar no chão "inextricáveis lanhos
cabalísticas" ou o uso de anagramas e hexagramas mágicos, descendentes
dos segullot cabalísticos.
2.2. Roger Bastide e o Mito da "Terra da Promissão"
O sociólogo Roger Bastide (1898-1974) analisou o misticismo sertanejo
como uma busca por uma terra utópica, conectando a cultura local a narrativas
ancestrais.
• Conexão Judaica e Indígena: Ele observou que o
vaqueiro "retoma por sua conta, e mistura-os, o mito da 'Terra sem Males'
do antepassado índio e a história do povo de Israel saindo do Egito em busca da
'Terra da Promissão'". Essa busca seria o motor para os movimentos
messiânicos e fanáticos da região.
2.3. Maria Isaura Pereira de Queiroz e o "Catolicismo Rústico"
A socióloga Maria Isaura Pereira de Queiroz (1918 - 2018) cunhou os
termos "Catolicismo bastardo" e "Catolicismo rústico" para
descrever essa religiosidade popular.
• Características Principais:
◦ Isolamento: Desenvolveu-se
"fechado sobre si mesmo", mantendo-se mais próximo do catolicismo
trazido pelos primeiros colonizadores.
◦ Práticas Centrais: Foco em
penitências, orações rústicas, festas de padroeiros, culto aos santos e
relações com os mortos.
◦ Figuras-Chave: O
"festeiro" (organizador das festas) e o "capelão" (mediador
com o sobrenatural) são mais importantes que a hierarquia e os sacramentos
oficiais da Igreja.
2.4. Síntese das Vertentes de Interpretação
Renato da Silva Queiroz (2005) organizou os estudos sobre o fenômeno em
três grandes vertentes:
|
Vertente
de Interpretação |
Descrição |
Exemplo |
|
Biopsicológica |
Postula
um vínculo indissolúvel entre a condição de vida do sertanejo e o misticismo. |
A visão
de Euclides da Cunha. |
|
Sociológica
Tradicional |
A
religião é vista como "cobertura ideológica" (materialismo) ou como
um fenômeno social normal, mas não como um fator causal relevante
(Durkheim/Weber). |
Os
estudos de Maria Isaura P. de Queiroz. |
|
Antropológica
Compreensiva |
Busca
uma "percepção compreensiva do 'outro'", reconhecendo o papel
central dos elementos propriamente religiosos na formação de uma visão de
mundo particular e articulada. |
A
abordagem que reconhece o "criptocabalismo". |
3. Ariano Suassuna e a Codificação da Religião Católico-Sertaneja
É na obra de Ariano Suassuna (1927-2014), ele mesmo descendente de
famílias do Seridó, que essa religiosidade alternativa encontra sua mais
completa expressão literária. Seu Romance d'A Pedra do Reino funciona
como um compêndio dessa cosmovisão.
• O Personagem-Narrador: Pedro Diniz Ferreira-Quaderna,
o profeta da "Igreja Sertaneja", é o veículo para a explanação dessa
fé. Ele se distancia do catolicismo de Suassuna (que era um católico apostólico
romano) para abraçar uma religiosidade que julga mais antiga e autêntica.
• Origem Judaica Explícita: Quaderna afirma abertamente
a ancestralidade judaica de sua fé e de seu povo, mencionando possuir um
"pequeno rabo judaico-sertanejo" e uma "dose de sangue
judaico" maior que a dos paraibanos comuns. Ele declara a superioridade de
sua religião:
4. A Cosmovisão Católico-Sertaneja: Conceitos-Chave
A religião descrita por Suassuna se estrutura em torno de um conjunto
complexo de crenças místicas que reinterpretam a realidade.
• Animismo Radical: O princípio fundamental é o
reconhecimento de uma anima (alma) em cada elemento da
natureza. Após uma experiência mística, o narrador compreende que "tudo
era divino: a Vida e a Morte, o sexo e a secura desértica, a podridão e o
sangue".
• Encantamento e Desencantamento: Este é o conceito
central. Lugares (a Pedra do Reino), pessoas (o rei D. Sebastião) e objetos
podem estar "encantados", presos em um estado mágico que precisa ser
quebrado ("desencantado") através de rituais, muitas vezes
sangrentos. O "Reino-Encantado" é uma categoria central do sistema
cosmológico, uma vida sobrenatural que pulsa sob a realidade aparente.
• A Estrutura Tetralética: A visão de mundo não é
dialética (baseada em dois opostos), mas sim "tetralética", baseada
em quatro princípios:
1. Culto ao fatalismo apaziguador: Uma
aceitação da fatalidade.
2. Inconformismo militante: A
luta contra essa mesma fatalidade.
3. Crença na providência divina: Uma
perspectiva mística do fatalismo.
4. Esforço prático e mágico: A
tentativa de interferir na natureza através da magia.
• A Solução para o Mal e a Dualidade: O problema do mal
é resolvido através da aceitação de "divindades divino-diabólicas" e
da síntese dos opostos. A inspiração é a "Musa macha-e-fêmea", que
permite ver o sagrado e o profano (Cristo e o Diabo) como parte de "uma
integridade espantosa".
5. Paralelos Diretos com a Cosmovisão Cabalística
A cosmovisão católico-sertaneja "extravagante" encontra
notável respaldo nos princípios da Cabala, o que reforça a tese de sua origem
criptojudaica.
• Panenteísmo: A ideia de que "tudo era
divino" ecoa o conceito cabalístico de panenteísmo, formulado por Moisés
Cordovero (±1522-1570): "Deus é tudo que existe, mas nem tudo que existe é
Deus". Há um ponto intermediário entre a transcendência absoluta e a
imanência total. A crença de que as "almas estavam presentes em toda
parte", atribuída a Isaac Luria (1534-1572), corresponde diretamente ao
animismo sertanejo.
• A Natureza do Mal: Na Cabala, "o mal é por sua
natureza independente do homem; está entrelaçado na textura do mundo ou, antes,
na existência de Deus". É visto como uma "espécie de resíduo ou
refugo do processo orgânico da vida oculta", governado pela providência
divina. Isso se alinha com a "aceitação da fatalidade" e a crença na
providência divina presentes na cosmovisão sertaneja.
• O Poder Mágico da Palavra: A Cabala confere grande
poder às letras e palavras hebraicas, cujo uso permite obter encantamentos e
poderes mágicos. Da mesma forma, a cosmovisão católico-sertaneja valoriza a
"cantoria", a "poesia", a literatura de cordel, as charadas
e os logogrifos como instrumentos de poder mágico, capazes de alterar o curso
da natureza.
A análise final do documento sugere que a cosmovisão articulada por
Pedro Diniz Ferreira-Quaderna e a obtida a partir de escritos cabalísticos
"comungam da mesma fundamentação teosófica ancestral", confirmando a
religião católico-sertaneja como um fenômeno complexo e herdeiro direto de uma
tradição mística judaica.
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