A Morte do Sertão Antigo no Seridó

1 fonte

O texto apresenta um estudo histórico e social aprofundado sobre a "morte do Sertão Antigo" na região do Seridó, no Rio Grande do Norte, um período de ruptura da estrutura social rural tradicional que ocorreu principalmente entre as décadas de 1970 e 1990. Historicamente, essa sociedade rural foi organizada em torno da grande propriedade pecuarista e das relações de parceria, com a presença de fazendeiros, vaqueiros e escravos, sobrevivendo quase incólume por séculos. A análise ressalta a importância da tradição ibérica, afro-brasileira e ameríndia na formação da cultura sertaneja, explorando o papel do catolicismo popular, da literatura de cordel e do imaginário social. O colapso dessa estrutura é atribuído ao crescimento demográfico, parcelamento de terras por herança, e à crise da cotonicultura, que desencadeou um intenso êxodo rural. O estudo utiliza uma abordagem de "história vista de baixo", recorrendo amplamente a fontes orais para capturar a experiência dos sertanejos durante esse desmoronamento.

A Morte do Sertão Antigo no Seridó (1970-90)

Autor: Douglas Araújo Ano: 2003 Título Original: "A MORTE DO SERTÃO ANTIGO NO SERIDÓ: O desmoronamento das fazendas agropecuaristas em Caicó e Florânia. (1970-90)" Instituição: Universidade Federal de Pernambuco

I. Visão Geral

A tese de Douglas Araújo investiga o colapso das fazendas agropecuárias nos municípios de Caicó e Florânia, na região do Seridó potiguar, entre as décadas de 1970 e 1990. Este evento é compreendido como o desmoronamento da antiga sociedade rural da região. A pesquisa adota uma perspectiva de "história vista de baixo", baseando-se em relatos orais de personagens que vivenciaram a transição e na análise de fontes documentais e bibliográficas. O cerne da investigação reside na "dialética entre os elementos resistentes da tradição e a força transformadora da modernidade", concebendo o ocorrido como um "confronto de vida e morte entre valores opostos e contraditórios."

II. Principais Temas e Ideias

1. O Conceito de "Sertão Antigo" e a Tradição

·         Definição: O "Sertão Antigo" refere-se aos aspectos da vida social do sertão enraizados na tradição colonial brasileira, que expressa um amálgama cultural ibérico, afro e ameríndio. É sinônimo de "longevo", "referência clara ao período colonial do Brasil, à nossa tradição colonial."

·         Fundamentação da Tradição: A tradição sertaneja foi uma "criação paramentada e institucionalizada ao longo do processo de colonização e ocupação", regida por regras tácitas e explícitas e "revestida de um conjunto de práticas rituais e simbólicas", visando incutir valores e comportamentos ligados ao passado das três etnias (brancos, índios e negros).

·         Influências Culturais:Ibérica: O colonizador português trouxe uma "mentalidade multifacetada", moldada por influências celtas, romanas, germânicas, normandas, moçárabes, sarracenas e mouriscas. Essa flexibilidade cultural permitiu uma "colonização híbrida e escravocrata." A literatura do povo, como as histórias do Imperador Carlos Magno, influenciou o imaginário guerreiro e religioso.

·         Ameríndia: A presença indígena, mesmo após os conflitos e a "pacificação", foi constante, com remanescentes se integrando à população e suas práticas agrícolas sendo incorporadas à rotina das fazendas. A cultura sertaneja é um "depositário fiel dessa convivência entre branco e índio".

·         Africana: A presença de escravos negros, embora com características diferentes da plantation açucareira, contribuiu para a miscigenação cultural e a formação de festividades como a Congada. A Irmandade de Nossa Senhora do Rosário, fundada em Caicó em 1771, é um "monumento cultural mais antigo da região" que celebra essa fusão.

·         Valores Fundamentais da Tradição:Sociedade Patriarcal e Patrimonialista: A família patriarcal é a "célula mater da sociedade sertaneja", com a constituição de uma "grande parentela" sendo crucial para funções políticas, militares e econômicas. A ampliação do patrimônio era uma "grande aspiração prática" dos fazendeiros, preocupados com a segurança futura dos descendentes.

·         Catolicismo Popular: A fé cristã católica, com elementos pagãos, permeava a vida social, o trabalho e a morte dos sertanejos. Missionários como Padre Ibiapina e Frei Damião de Bozzano, com suas vidas ascéticas e caridade, encarnavam o "modelo arquétipo da vida ascética na sociedade sertaneja."

·         Honra e Gratidão: A honra era um valor central, com a gratidão funcionando como o "equivalente geral" ou a "moeda sonante" do sertão, legitimando relações desiguais e o trabalho, e dificultando o desenvolvimento do mercantilismo puro. A ingratidão era uma "nódoa cancerígena na honra do sertanejo."

·         Tempo Identitário: O tempo no sertão antigo era regido pelos ritmos da natureza e dos animais, sem a racionalização do tempo de trabalho da modernidade. "O trabalho, pelo olhar da cronometria, tinha um dispêndio maior para o consumo do que para a produção de excedente."

2. Formação da Sociedade Rural no Seridó

·         Povoamento Inicial: Ocupação inicial por currais de gado, com sesmeiros e posseiros. Os rebanhos "auxiliavam como verdadeira fortaleza ou linha de vanguarda a luta do colonizador." Caicó é "um legítimo rebento dos currais de gado", enquanto Florânia é um "botão de rosa do algodoeiro."

·         Divisão Espacial do Trabalho: Inicialmente, a pecuária era a atividade nobre, relegando a agricultura aos pequenos posseiros, descendentes ameríndios e mestiços, e aos escravos. A agricultura de subsistência só ganhou força com o aumento populacional e as secas.

·         Crescimento Populacional e Fragmentação da Propriedade: O aumento demográfico e a multiplicação das gerações levavam ao "partilhamento dos grandes currais de gado", gerando pequenas propriedades (minifúndios) e um empobrecimento das famílias. Isso intensificou a importância da agricultura de subsistência e, posteriormente, do algodão comercial.

·         Abastecimento e Mercantilismo Incipiente: O abastecimento de alimentos dependia de intercâmbios com serranos e brejos paraibanos, indicando uma integração regional. O comércio, embora presente, não era o eixo principal da organização social da fazenda, que era familiar e patrimonial.

·         Açudagem e Modernização Agrícola: A partir do século XX, a construção de açudes e a defesa da "política hídrica" pelos intelectuais locais, como Manoel Dantas, visavam a modernização da agricultura e a superação do problema das secas, mas não alteraram a mentalidade tradicional em sua essência.

3. O Colapso do Sertão Antigo (1970-90)

·         Contexto da Crise: O período é marcado pela "conjunção de fatores perversos como o mercado competitivo, talvez a aparição faustiana do bicudo e os efeitos psicológicos da ideologia sindical fora do contexto."

·         Fatores Econômicos:Crise da Cotonicultura: A competição com o algodão paulista e americano, a ascensão das fibras sintéticas, e as flutuações de preços no mercado global e nacional minaram a rentabilidade do algodão mocó, principal cultura comercial do Seridó.

·         Baixa Produtividade: A agricultura tradicional, com métodos rústicos e sem otimização de mão-de-obra, não conseguiu competir com os modelos modernos de alta produtividade. "A agricultura tradicional do algodão do Seridó não soube vencer" o desafio da competitividade.

·         Ineficácia das Políticas Públicas: Iniciativas como o GTDN e a SUDENE, embora visassem à modernização, foram consideradas pontuais e insuficientes para transformar a estrutura agrária tradicional do semi-árido. A política hídrica não impediu o "fracionamento das fazendas entre herdeiros".

·         A Praga do Bicudo (Anthonomus Grandis): A infestação do bicudo, a partir da década de 1980, foi o "desfecho" que "ajudou a liquidar a velha vida rural da região", gerando uma "situação de calamidade no campo." Embora existam conjecturas sobre sua origem (forças faustianas do capital, ou fatalidade natural), seu impacto foi devastador.

·         Consequências Sociais:Êxodo Rural Massivo: O "desabamento do modus vivendi do sertanejo" levou a um êxodo rural "intenso e permanente", com muitos abandonando as fazendas em busca de oportunidades nas cidades próximas ou em grandes centros urbanos, como o Norte e o Sudeste do país.

·         Fim da Parceria Agrícola: O corte do "fornecimento" (adiantamento da renda da terra) pelos fazendeiros inviabilizou a permanência dos meeiros no campo, marcando o fim de uma relação de trabalho secular.

·         Empobrecimento Generalizado: O colapso das fazendas resultou no "empobrecimento geral da vida campesina", apesar da chegada de alguns serviços públicos e da aposentadoria rural.

·         Transformação Urbana: As cidades do Seridó, como Caicó e Florânia, que antes tinham um perfil "rural" ou "vilas rurais", foram inundadas por "símbolos modernos", atraindo jovens em busca de letramento e novas oportunidades, esvaziando o campo de sua "seiva inovadora."

4. A Persistência da Tradição nos Escombros

·         Sobrevivência Cultural: Mesmo com o desmoronamento da estrutura social, símbolos e signos da mentalidade tradicional persistem entre os remanescentes rurais. "A cultura tradicional não morreu. O desmoronamento da sua estrutura social apenas alterou a sua grafia arquitetônica."

·         "Ruínas" do Sertão Antigo: Os pequenos e médios proprietários, muitos aposentados, continuam cultivando a terra e mantendo a pecuária, adaptando-se às novas condições. A venda de leite para queijeiras artesanais é um exemplo.

·         A Mente Tradicional na Modernidade: A "alma tradicional" continua presente na conduta de homens de negócios, políticos e cidadãos comuns, mesmo com a "vernizagem moderna" do espaço sertanejo. A história da Santa Menina em Florânia, por exemplo, ilustra como a tradição pode se reafirmar em tempos de crise e modernidade.

III. Ideias ou Fatos Mais Importantes

1.    A Morte da Sociedade Rural Tradicional: O cerne da tese é o desmoronamento do "modus vivendi do sertanejo" e da "antiga sociedade rural" em Caicó e Florânia entre 1970 e 1990, um evento que representa a "estrutura de perda da velha sociedade rural agropecuária".

2.    Conflito Tradição vs. Modernidade: O fenômeno é interpretado como um "confronto de vida e morte entre valores opostos e contraditórios" – a tradição arraigada versus os desafios do mercado competitivo e da modernização.

3.    A Tradição como Amálgama Cultural: A sociedade sertaneja foi construída sobre uma base multifacetada de influências ibéricas, africanas e ameríndias, que se manifestaram em valores patriarcais, catolicismo popular, honra, gratidão e um tempo de trabalho não-racionalizado.

4.    Fragmentação da Propriedade e Empobrecimento: O crescimento populacional e as heranças levaram ao constante fracionamento das grandes propriedades em minifúndios, impulsionando a agricultura e, paradoxalmente, o empobrecimento.

5.    A Praga do Bicudo como Catalisador Final: A infestação do bicudo no algodoeiro, a partir da década de 1980, foi o golpe final à já fragilizada cotonicultura tradicional, acelerando o colapso do sistema e o êxodo rural.

6.    Êxodo Rural como Fuga da "Penitência" do Trabalho Agrícola: O abandono do campo foi uma tentativa dos sertanejos de escapar do "infortúnio do destino, o trabalho agrícola; evitar ser um escravo da desventura", refletindo a desvalorização cultural do trabalho manual.

7.    A Cidade como "Buraco Negro" de Atração: As cidades, com seus "símbolos modernos" e oportunidades de letramento e emprego, atraíram os jovens e os empobrecidos do campo, esvaziando a vida rural de seu dinamismo.

8.    Persistência da Mentalidade Tradicional: Apesar do colapso da estrutura socioeconômica, a "cultura tradicional não morreu", adaptando-se e persistindo nos "escombros" da vida rural, influenciando ainda a mentalidade local.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

GUERRA DOS BÁRBAROS